Grandes nomes da literatura e podcasts ao vivo lotaram A Feira do Livro
Ministério da Cultura apresenta

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Grandes nomes da literatura e podcasts ao vivo lotaram A Feira do Livro

A quinta edição do festival literário paulistano atraiu milhares de leitores com clima de parque, palcos lotados e destaque para a literatura latino-americana

08jun2026

Literatura, política, memória, poesia e futebol marcaram os nove dias d’A Feira do Livro 2026, que aconteceu entre 30 de maio e 7 de junho na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu.

Com mais de cem autores, 160 expositores e mais de duzentas atividades, o evento atraiu milhares de leitores, que assistiram a podcasts ao vivo, encenações teatrais, espetáculos de música, sessões de autógrafos, debates sobre política, literatura e mercado editorial, além do futebol entre escritores. 

Todas as atividades foram gratuitas e abertas ao público, com direito a tradução em libras e, no caso de mesas com autores internacionais, tradução simultânea.

Além da programação oficial, três tablados receberam uma programação paralela, organizada pelos expositores e parceiros do festival. O Espaço Rebentos trouxe de novo uma programação voltada especialmente para as crianças, incluindo oficinas, que também recebiam o público geral.

Grandes autores

O público surgiu em peso para prestigiar Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara na mesa É sempre a hora, que teve mediação da jornalista Iara Biderman, editora da revista Quatro Cinco Um, na noite de sexta (5), n’A Feira

“A escrita é uma experiência corpórea — o corpo que escreve”, afirmou Madeira durante o encontro, diante de uma plateia silenciosa e atenta, que acompanhou cada reflexão da escritora.

Madeira leu um trecho de Véspera (Record, 2021) e conversou sobre a escrita desse e de outros romances. Salomão Carrara falou a respeito do recém-lançado Cláudia Vera Feliz Natal (Todavia).

As Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A dupla debateu a relação entre realidade e ficção nas respectivas obras, refletiu sobre as possibilidades da linguagem e criticou a limitação da categoria “literatura feminista”. Após o papo, o público formou uma longa fila para encontrar as autoras e pegar autógrafos. 

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Outro grande nome da literatura brasileira que fez parte da programação oficial foi Ana Maria Machado, que participou de uma conversa com Hubert Alquéres, curador do Prêmio Jabuti. Instada a opinar sobre a literatura infantojuvenil produzida no Brasil hoje, Machado se dividiu entre a admiração e a crítica. 

De um lado, ela celebrou a diversidade crescente das obras que chegam às livrarias, assinadas por autores de diferentes etnias, classes e regiões do país. De outro, criticou o que considera um didatismo excessivo não só das publicações voltadas às crianças, como também aos adultos.

“O problema da literatura hoje é que ela acha que tem que ensinar coisas o tempo todo. Mas a literatura é arte, é linguagem, não é um projeto pedagógico.” A declaração da vencedora do prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura para crianças e jovens, foi aplaudida de pé pelo público.

Já os escritores Felipe Charbel e Maria Valéria Rezende — respectivamente, autores de Lacunas: sobre amar os livros que não lemos (Relicário, 2026) e Recapitulações (Editora 34, 2025) — compartilharam métodos para lidar com a angústia de não conseguir ler todos os livros que queremos ler, em conversa que teve mediação da escritora Ana Paula Pacheco.

Talvez seja mais adequado dizer antiestratégia, no caso de Rezende. Segundo ela, a bagunça das estantes que a faz prever, em tom de brincadeira, sua morte por “desabamento de livros” também a acalma quando ela pensa em tudo o que não leu. “Como está tudo misturado, pego o que está aqui, o que está ali”, disse.

Charbel, por sua vez, transformou sua aflição em matéria literária, em Lacunas. Nos ensaios que compõem o livro, ele investiga os motivos que o levaram a evitar o contato com calhamaços como Guerra e paz, de Tolstói, e Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust.

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Silviano Santiago foi outro nome consagrado a participar d’A Feira, ao lado do seu biógrafo, o jornalista João Pombo Barile, em conversa mediada pelo jornalista e colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires.

o escritor e crítico literário Silviano Santiago (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“Estou tendo a sorte, o acaso, de viver noventa anos. Há um acúmulo de coisas que se contradizem e se complementam com facilidade. A graça da minha vida é me contradizer e, ao mesmo tempo, sempre transformar o não em sim”, afirmou Santiago, que em 2022 recebeu o Prêmio Camões, a maior honraria literária da língua portuguesa.

Natércia Pontes, nascida em Fortaleza, e Inés Bortagaray, natural de Salto, na fronteira do Uruguai com a Argentina, se encontraram na tarde de sábado (6), no Palco da Praça. 

Com mediação de Vitor Pamplona, editor da Quatro Cinco Um, as duas conversaram sobre o processo de escrita de seus romances mais recentes, Vida doçura (Companhia das Letras, 2026), de Pontes, e Um, dois e já (Cambalache, 2026), de Bortagaray, sobre a infância e o fascínio pela boneca Barbie.

Já o escritor Daniel Munduruku abordou o apagamento da memória indígena latino-americana ao lado da escritora mapuche chilena Daniela Catrileo, em mesa que teve mediação do jornalista Leão Serva. 

Na conversa, Munduruku afirmou que os brasileiros negaram a sua ancestralidade por décadas, fosse por vergonha dos estereótipos associados a ela, fosse devido às ameaças que manifestá-la poderia representar à integridade física deles. “Não à toa, quando eu era criança, eu queria deixar de ser índio; queria ser branco, loiro”, relatou.

América Latina e mais

A literatura latino-americana foi destaque na programação oficial. A noite do primeiro fim de semana d’A Feira do Livro foi encerrada pela autora colombiana Pilar Quintana, em uma conversa que teve mediação do escritor Joca Reiners Terron. 

À vontade e já acostumada com a calorosa recepção dos leitores e leitoras do país (é a terceira vez que visita o Brasil), Quintana detalhou o processo de escrita do romance Noite negra, recém-lançado pela Companhia das Letras, em tradução de Elisa Menezes. Ao final da conversa, a escritora recebeu os fãs brasileiros em uma longa fila de autógrafos.

A autora colombiana Pilar Quintana (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Na mesa Latinidades em conversa, o chileno Andrés Montero, o colombiano Mario Mendoza e o brasileiro Cristhiano Aguiar mostraram por que a América Latina tem sido um terreno fértil para as narrativas de horror. 

Mediado pela jornalista Paula Carvalho, o encontro no Auditório do Museu do Futebol, no domingo (31), trouxe à tona os traumas coletivos do continente e ressaltou a força do sobrenatural para expressar o não dito.

A região foi abordada inclusive em algumas conversas da programação paralela, como na mesa O insólito tem sangue latino, também com a presença de Aguiar.

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Um dos autores mais populares do festival literário paulistano foi Sandro Veronesi, autor dos romances O colibri e Caos calmo, ambos publicados pela Autêntica Contemporânea em tradução de Karina Jannini. O italiano atraiu grande público no sábado (30) e ficou mais de uma hora dando autógrafos na tenda da Livraria da Travessa, a livraria oficial do festival. 

O autor italiano Sandro Veronesi (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Na mesa mediada pelo jornalista Ruan de Sousa Gabriel, o autor falou do sofrimento humano e sua aceitação, do heroísmo do homem comum e do mercado editorial.

Enquanto isso, a catalã Mar García Puig, autora de A história dos vertebrados (trad. be rgb), se juntou à brasileira Marcella Franco, autora do recém-lançado Solo, na mesa Maternidades em perspectiva, para falar desses livros, publicados pela Bazar do Tempo. As autoras refletiram sobre o futuro da maternidade, da paternidade e da criação de filhos.

Democracia e autoritarismo

Em ano de eleições, a política ganhou espaço n’A Feira do Livro. Na mesa que encerrou a noite de sábado (6), o jornalista e biógrafo Fernando Morais afirmou que, “em 2030, muito provavelmente a disputa dentro do PT vai ser maior do que seria hoje para escolher quem vai sucedê-lo [Lula]”. 

Ao longo de uma hora, Morais fez uma revisão das mais de três décadas como biógrafo do presidente Lula. Figura constante na vida do político desde a época do sindicalismo, nos anos 80, Morais afirmou que o exercício do jornalismo e do distanciamento de personagens o ensinou a observar, a apurar e a não odiar nem se apaixonar por seus biografados.

No encontro, parte da programação em conjunto com a Folha de S.Paulo e mediado pelo jornalista Eduardo Sombini, o autor também contou detalhes dos volumes dois e três da biografia Lula (Companhia das Letras) e refletiu sobre as eleições de outubro e um possível quarto mandato do presidente.

Já o escritor e teólogo Frei Betto acusou a direita brasileira de descontextualizar a Bíblia para legitimar as próprias teses, deixando de lado a dimensão social dos ensinamentos de Jesus Cristo, em uma conversa com a jornalista Thais Reis Oliveira.

Ele ainda destacou a importância de não esquecer as atrocidades cometidas pela ditadura. Preso e torturado no período, o autor deu destaque à repressão da época em seu romance mais recente, O voo da locomotiva (Rocco).

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A batalha por justiça em lembrança aos perseguidos pela ditadura militar foi ressaltada por dois testemunhos muito pessoais na mesa Lutar para lembrar, no Auditório do Museu do Futebol, na tarde de domingo (7), n’A Feira do Livro.

A militante e educadora popular Amelinha Teles (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

A militante e educadora popular Amelinha Teles, que foi torturada no DOI-Codi em São Paulo, afirmou que a sua vivência lhe ensinou o seguinte: “Nós estamos fazendo história, mas temos que registrar e estudar a história do Brasil, recuperar essa história, para a gente realmente consolidar uma democracia”, afirmou ela na mesa, que teve mediação de Juliana Borges, colunista da Quatro Cinco Um.

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A política ainda foi tema de uma mesa com os jornalistas da Folha de S.Paulo Eduardo Scolese e Gabriela Biló, que realizaram um balanço sobre as dificuldades enfrentadas pela imprensa durante o governo de Jair Bolsonaro

Na conversa mediada pela jornalista Flavia Lima, ex-ombudsman do jornal, eles defenderam a importância da atuação jornalística durante a pandemia e discutiram como o período os preparou para a cobertura de momentos em que a democracia está em disputa. 

O autoritarismo no Brasil foi tema da mesa Como desarmar o autoritarismo, em que Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani Sales e Nina Santos conversaram sob mediação do jornalista Antonio Mammi. Eles debateram o papel da corte na defesa da democracia após a ameaça autoritária do governo Bolsonaro e o que está em jogo nas eleições deste ano.

Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani, Nina Santos e Antonio Mammi (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“A gente precisa parar de falar que o Supremo salvou a democracia — muita gente salvou. Ele foi um participante do processo de ajudar a democracia a sobreviver a um momento de tensão”, afirmou Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional e um dos organizadores, com Romani Sales e Lucas Petroni, de Como desarmar o autoritarismo no Brasil, publicado pela Tinta-da-China Brasil (selo da Associação Quatro Cinco Um).

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No Espaço Motiva Tablado Literário, no sábado (30), houve uma conversa sobre democratização da cultura e importância da literatura e da arte na formação pessoal.

A mesa Democratizar é fazer chegar reuniu Aninha de Fátima Sousa, da Fundação Itaú, Paulo Werneck, diretor-geral d’A Feira, e Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake e ex-secretário estadual de Cultura, com mediação de Renata Ruggiero, do Instituto Motiva. 

“Cultura não é um luxo; é algo que devia ser fundamental para todos, como saúde e educação”, disse a diretora da Fundação Itaú.

No encontro que encerrou os nove dias de programação d’A Feira do Livro, na noite de domingo (7), o escritor Jeferson Tenório e o advogado e sociólogo José Vicente, fundador da Universidade Zumbi dos Palmares, conversaram sobre cotas raciais, literatura e sonhos na mesa Que país é esse?, mediada pela editora Yasmin Santos. 

O advogado e sociólogo José Vicente e o escritor Jeferson Tenório (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Para a população negra, imaginar é uma forma de resistência. Escolher é um privilégio que não é para todo mundo. Os jovens negros também precisam ter oportunidade de escolher o que querem fazer das suas vidas”, defendeu Tenório.

História & Palestina 

O público apareceu em peso para ver a mesa Holocausto e Palestina, na qual o cientista social norte-americano Norman Finkelstein conversou com a jornalista Patrícia Campos Mello, na quinta (4). A fila para entrar no Auditório do Museu do Futebol era tão longa que chegou à área de autógrafos da Livraria da Travessa, a cinquenta metros dali. 

O cientista social norte-americano Norman Finkelstein (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Finkelstein está no Brasil para lançar o livro A indústria do Holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento judaico (trad. Red Yorkie, Autonomia Literária), publicado originalmente em 2000. O cientista social afirmou que é um defensor da verdade, que já não é eficaz usar o Holocausto como ferramenta ideológica e que a maior causa do antissemitismo do mundo hoje é o Estado de Israel.

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A história também ganhou os palcos do domingo anterior (31), com duas falas do português Rui Tavares. Ele defendeu a necessidade de criar novos termos para designar figuras monstruosas como Donald Trump e Elon Musk e discutiu o passado e o presente das guerras culturais — tema de seu novo livro, Hipocritões e olhigarcas (Tinta-da-China Brasil, 2026) em conversa com Marcos Augusto Gonçalves, editor do caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo

Já no Tablado Literário Bubu, Tavares defendeu que as guerras culturais sempre fizeram parte da história, mas ganharam nova intensidade na era digital. Para Tavares, o grande desafio do presente é compreender mudanças cada vez mais rápidas sem sucumbir ao medo ou ao pânico coletivo.

Podcasts e clubes ao vivo

A apresentação ao vivo de podcasts agitou A Feira do Livro, atraindo grande público em vários dias do festival literário paulistano. 

(Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Na noite do primeiro dia d’A Feira (30), o público lotou o Palco da Praça e o gramado para ver ao vivo o podcast Foro de Teresina, apresentado por Ana Clara Costa, Celso Rocha de Barros e Fernando de Barros e Silva. O trio analisou os efeitos políticos, para a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, da classificação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho como grupos terroristas pelos EUA. 

No sábado (6), o encontro entre as escritoras Cida Bento e Lilia Moritz Schwarcz lotou o Auditório do Museu do Futebol. A pergunta que guiou o encontro foi: quem são os autores que melhor explicam o Brasil hoje? 

As escritoras Cida Bento e Lilia Moritz Schwarcz (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Mediado pela editora Stéphanie Roque, o debate contou com gravação ao vivo e se tornará um episódio do podcast da Companhia das Letras, o Rádio Companhia. A resposta não é a mesma para as duas pesquisadoras, que são também reconhecidas como intérpretes fundamentais da realidade brasileira. 

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O quinto dia d’A Feira dos Livros , quarta (3) abriu com uma edição especial ao vivo do podcast Calma Urgente!, com Gregorio Duvivier, Bruno Torturra e Alessandra Orofino. “Magnifica humanitas”, a primeira encíclica do papa norte-americano Leão 14, publicada pelo Vaticano no fim de maio, foi o ponto de partida para um debate acalorado sobre a linguagem “espiritual” das big techs e a supremacia da vida algorítmica. 

Alessandra Orofino e Bruno Torturra (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

O trio discutiu a “imortalidade dos dados”, os aspectos “espirituais” da linguagem do Vale do Silício e a esperança em uma humanidade que pode ser salva pela leitura. “Existe um conformismo muito estranho e a gente precisa sair dele. Não é parar de usar inteligência artificial para escrever os nossos textos, mas parar de usá-la para processar o nosso mundo”, observou Duvivier. 

O ator e escritor Gregorio Duvivier (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

No mesmo dia, o ator e escritor Gregorio Duvivier ofereceu um passeio pela língua portuguesa ao público que lotou o Palco da Praça para assistir à palestra-show Aos pés da letra. O espetáculo é uma versão do livro homônimo, recém-lançado pela Companhia das Letras, que por sua vez é um desdobramento da peça O céu da língua, que já soma mais de 300 mil espectadores.

Munido de um retroprojetor, um canetão e algumas transparências, Duvivier apresentou palavras e expressões, contou histórias sobre o nosso idioma e fez aquilo que sabe fazer melhor: arrancar gargalhadas da plateia.

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O 451 MHz também teve uma edição especial ao vivo, voltada para a vida da atriz Dercy Gonçalves, com a jornalista Adriana Negreiros, autora de Dercy: a diva debochada (Objetiva, 2026), e Bruna Beber, poeta e colunista do podcast. 

Na conversa, que abriu a programação de terça (2), Negreiros descreveu Dercy como alguém que teve de enfrentar “todas as dificuldades próprias de uma mulher” do século passado, inclusive o preconceito de uma sociedade que acreditava que só homens podiam ter talento cômico.

Na tarde do mesmo dia, o Palco da Praça recebeu uma edição especial do Clube de Leitura Japan House São Paulo + Quatro Cinco, que reuniu a cineasta paulistana Marina Person e os mediadores Natasha Barzaghi Geenen, curadora e diretora cultural da Japan House São Paulo, e Paulo Werneck, diretor presidente da Associação Quatro Cinco Um. Eles discutiram o livro Doce Tóquio (trad. Sandra Keika, Morro Branco, 2025), de Durian Sukegawa.

Marina Person, Barzaghi Geenen e Paulo Werneck (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Outro podcast gravado ao vivo foi o Clube do Livro Eldorado, apresentado por Roberta Martinelli, que contou com a participação da escritora Giovana Madalosso, autora de livros como Tudo pode ser roubado (2018), Suíte Tóquio (2020) e Batida só (2025), todos lançados pela Todavia.

Madalosso celebrou o recente boom literário feminino e afirmou que as mulheres devem superar a desconfiança sobre o valor de sua escrita. O bate-papo entre as duas marcou a primeira edição do Clube do Livro Eldorado, que, após o fechamento da rádio paulistana, passa a adotar o formato de podcast.

Memória e morte

A questão da memória foi um dos principais temas da programação oficial d’A Feira

A escritora e ativista quilombola Dona Rosinha, que lançou no ano passado seu primeiro livro, Memórias do meu quilombo (Pallas), participaria de uma conversa com a jornalista e escritora Bianca Santana, mas teve que cancelar sua presença devido a questões de saúde. Ela acabou morrendo na quinta (4), aos 67 anos. 

A jornalista e escritora Bianca Santana (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

No horário previsto para a mesa, Bianca Santana e os jornalistas e escritores Matheus Leitão e Tom Farias conduziram uma conversa em homenagem à sua vida e história

O Auditório do Museu do Futebol recebeu a escritora Noemi Jaffe e o poeta Eucanaã Ferraz, com mediação de Tarso de Melo, na mesa Escrita e memória. A conversa girou em torno da atração criada pelas palavras na vida dos dois autores, de lembranças de infância e de como a família influenciou os livros mais recentes de ambos. 

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A escrita de autoras negras que tematiza origens familiares foi assunto da mesa Laços de família, composta pela francesa Estelle-Sarah Bulle e a paulistana Bianca Santana, com mediação da jornalista Adriana Ferreira Silva. A conversa também tocou em outros temas, como a busca da voz narrativa e da identidade mestiça.

A francesa Estelle-Sarah Bulle e a paulistana Bianca Santana (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“A escrita foi a minha maior interlocutora”, confessou a escritora e tradutora argentina Bárbara Belloc na mesa Loucura é um bem de família, ao lado da escritora paulistana Lilian Sais. Mediadas por Ana Lima Cecilio, as duas autoras compartilharam o processo de escrita de seus livros que abordam o tema da morte dos pais.

A infância em tempos difíceis foi tema da Infâncias sob ditadura, em que, ao lado do veterano Chico Mattoso, a estreante Maria Brant, especialista em direitos humanos, relembrou os momentos iniciais da escrita de seu primeiro romance, O ano do cometa (Fósforo, 2026).

O romance mais recente de Mattoso, O hipopótamo (Todavia, 2025), foi escrito no mesmo período que o de Brant, durante a pandemia de Covid-19, e também tem como protagonista uma criança vivendo nos tempos da ditadura civil-militar.

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Uma mesa que tratou diretamente da morte foi a Folha na Praça: cuidar até o fim. Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriatra especializada em dor e responsável pela estrutura de cuidados paliativos do Hospital Alberto Einstein, afirmou que o momento de se conversar sobre a morte deveria ser encarado com responsabilidade, sensibilidade e amor. 

No último encontro em parceria com a Folha de S.Paulo, mediadopelo jornalista Uirá Machado, neste domingo (7) a autora de A morte é um dia que vale a pena viver (Sextante) falou da ética da finitude, contou casos comoventes e disse que o luto não tem fim.

Na sequência, uma conversa gerou comoção na plateia lotada do Palco da Praça e no público aglomerado em frente ao telão na praça Charles Miller. Foi a do jornalista e psicanalista Robinson Borges com o educador Fernando José de Almeida, autor de Elogio à saudade (Seja Breve, 2026), livro em que conta sobre a morte da filha, Lorena, que se suicidou aos 43 anos.

Já as escritoras Natalia Timerman, autora do recém-lançado Antes que apague (Companhia das Letras), e Camila Appel, autora de Enquanto você está aqui (Fósforo), conversaram no primeiro domingo do festival com Beatriz Muylaert, editora executiva da Quatro Cinco Um, sobre o processo de escrita de seus livros e sobre todas as implicações de falar de uma mãe doente e da proximidade da morte.

As escritoras Natalia Timerman e Camila Appel (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

O luto, a memória e a morte também marcaram a programação dos tablados literários da quinta edição d’A Feira do Livro. Da mesma forma, biografias e memórias publicadas em livro foram bastante abordadas na programação paralela.

Poesia da vida

Os poetas Egana Djabbárova, russa de família azerbaijana, autora do romance As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita (trad. Maria Vragova, Ars et Vita, 2026), e Alberto Martins, autor de Boris e Marina: poemas (Companhia das Letras, 2025), exaltaram a poesia da vida na mesa Mãos destinadas à escrita, no Auditório do Museu do Futebol, durante o fim de tarde de sábado (30). 

O uso da violência como instrumento de poder, especialmente contra mulheres, foi denunciado por Djabbárova: “Os homens dizem que fazem algo violento porque é parte da tradição. Nesse romance eu digo que não — a violência não é parte de nenhuma cultura”.

O poeta Ricardo Domeneck conversou com o crítico literário Schneider Carpeggiani sobre sua obra poética. O autor dos recém-lançados A cidadania das bonecas de pano (Ars et Vita) e Memorando: Maximin (Ercolano) relembrou os primeiros contatos com a poesia e falou sobre a influência da religião em sua obra homoerótica.

O poeta Ricardo Domeneck (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Os poetas Ana Estaregui e Bernardo Ceccantini participaram da mesa Vidas sortidas, que teve mediação de Irene de Hollanda, idealizadora do Festival Poesia no Centro, em São Paulo, e sócia e diretora da livraria Megafauna. O encontro abordou os universos dissonantes das produções poéticas dos escritores.

A poesia também foi um dos destaques da programação paralela, com poemas pintados, criação de diários e debates sobre a relação entre poesia e outras artes.

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O processo de escrita e de produção de um livro não ficou de fora das conversas do evento cultural paulistano. Na mesa Aprender a escrever, os escritores Roberto Taddei e Júlia Portes tentaram responder à pergunta: É possível ensinar alguém a escrever?

“O grande risco do ensino de escrita é você formar não autores, e, sim, discípulos”, afirmou Taddei, que é romancista e coordena uma pós-graduação de formação de escritores. 

Portes, atriz e escritora, concordou que não se ensina alguém a escrever, mas ressaltou a importância de ambientes que proporcionem a coragem para dizer o que não se diz. “São talvez os mais frutíferos para a escrita acontecer.”

Outra mesa que abordou a produção editorial, com ênfase na história do objeto livro, foi Design na página, que reuniu a editora argentina Ana Mosqueda, da casa editorial Ampersand, e o designer paulista Gustavo Piqueira, com mediação da historiadora Marisa Midori. Mosqueda falou sobre os desafios e as particularidades da edição de livros, enquanto Piqueira revelou as razões de querer estudar a história do livro como objeto. 

Editoras e livrarias

O mercado editorial ganhou espaço na quinta edição d’A Feira, que teve várias discussões em torno do tema. 

Na tarde de quarta (3), o Palco da Praça recebeu uma conversa sobre o Mapa das Livrarias de Rua, com os livreiros independentes Cecilia Arbolave, Julia Souto Araujo, Monica Carvalho, Tereza Grimaldi e Adalberto Ribeiro, e mediação de Luiza Thesin. Os cinco livreiros discutiram essa e outras iniciativas de fortalecimento de espaços independentes

Na ocasião, representantes da Banca Tatuí, Livraria da Tarde, Miúda e Simples contaram que, apesar do sucesso do projeto, é desafiador manter seus negócios diante das políticas de descontos agressivos do mercado online. Evidência disso é que dois dos 37 empreendimentos do mapa fecharam as portas meses após a publicação, no final de 2025. 

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A equipe da Quatro Cinco Um também participou de conversas em torno da cultura do livro. Uma delas foi a apresentação da Bagagem Literária para expositores e outros curiosos que estavam passeando pel’A Feira do Livro na terça (2). Editoria especial da Quatro Cinco Um, a Bagagem Literária é um ponto de encontro para quem quer ficar mais próximo do universo da leitura e da escrita. 

O novo projeto da revista dos livros, vencedor do prêmio PublishNews 2026 na categoria inovação, foi apresentado pelo editor Vitor Pamplona, que convidou expositores a fazer parte do Guia de Editoras e do Guia deLivrarias e a usar a Agenda 451, calendário digital com eventos literários de todo o país.

A edição de livros e textos jornalísticos foi debatida pelos editores da Quatro Cinco Um e da Tinta-da-China Brasil na mesa Sobre edição. A conversa, realizada no Espaço Motiva Tablado Literário, reuniu Iara Biderman e Amauri Arrais, da revista dos livros, e Sofia Mariutti, da editora, ambos projetos da Associação Quatro Cinco Um.

Por fim, colunistas da revista se encontraram no Tablado Literário Mário de Andrade na manhã do último sábado (7). Em uma conversa descontraída, mediada por Beatriz Muylaert, editora executiva da revista dos livros, Paulo Roberto Pires, Renan Quinalha, Fernando Luna e Iara Biderman falaram sobre crítica de cultura, cobertura jornalística do mercado editorial e seus hábitos de escrita e leitura. “Anoto, sublinho, dobro. Vandalizo o livro”, brincou Pires.

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Outra atividade que colocou o livro e a leitura no centro da discussão foi a edição pocket do Rolê dos Livros, que reuniu mais de cem leitores no último dia d’A Feira do Livro. Nesse projeto, a ideia é reunir pessoas para ler coletivamente qualquer livro da escolha delas. 

Após um período de leitura silenciosa, os participantes apresentaram as obras lidas, que iam de clássicos a lançamentos contemporâneos, promovendo debates sobre questões sociais, políticas e afetivas. O encontro também destacou a importância da literatura escrita por mulheres e do resgate de autoras apagadas da história literária brasileira.

Políticas do livro

A Feira do Livro foi marcada pelo lançamento de uma importante iniciativa para integrar ainda mais as editoras independentes, as livrarias de rua e outras empresas do mercado editorial paulistano. 

Paulo Werneck, Victor Feffer, Nilce Rodrigues e Sandra Medrano (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

No Auditório do Museu do Futebol, no início da tarde de terça (2), Paulo Werneck, diretor da Associação Quatro Cinco Um, apresentou, para uma plateia formada por editores, livreiros, bibliotecários, pedagogos e outros profissionais da cadeia do livro, a SP Livro

Já a vereadora Renata Falzoni (PSB), apoiadora de políticas culturais e uma das incentivadoras da inclusão d’A Feira do Livro no calendário oficial de São Paulo, visitou o evento no domingo (7). Ela falou, brevemente, sobre a importância do incentivo à leitura. 

Falzoni contou que visitou recentemente a cidade de Medellín, na Colômbia, onde projetos de bibliotecas comunitárias ou de “parques bibliotecas” são espaços essenciais de inclusão social, aprendizado e acolhimento de jovens em situação de vulnerabilidade. 

A vereadora Renata Falzoni (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A vereadora enfatizou que o processo de recuperação da cidade colombiana, considerada uma das mais violentas do mundo, foi possível por meio de políticas públicas dedicadas a projetos culturais. 

“Em 2027, a cidade recebeu da Unesco o título de Capital Mundial do Livro e essa é uma mensagem muito grande que eu trago agora da Colômbia. A revolução e a resistência acontecem a partir da cultura — e, mais do que tudo, de termos a capacidade de escrever, de trabalhar a imaginação. Quem sonha, como nós sonhamos, desenha um futuro. É um grande prazer estar, como parlamentar, apoiando A Feira“, disse Falzone. 

Educação, bibliodiversidade, escrita e leitura foram debatidos intensamente ao longo da programação paralela.

Esporte 

Como A Feira acontece em frente ao Pacaembu, um dos estádios mais tradicionais da cidade de São Paulo, o futebol não poderia ficar de fora da programação. Autoras e autores mostraram toda a sua habilidade com as palavras no histórico gramado da Mercado Livre Arena Pacaembu. 

Em duas partidas emocionantes, uma entre mulheres e outra entre homens, o já tradicional encontro de participantes d’A Feira do Livro com o futebol movimentou a tarde de sábado (6) no festival literário. O jogo das mulheres terminou com vitória do time de azul por 2 a 0 e foi marcado pelo espírito de sororidade. A partida masculina terminou empatada em 1 a 1, depois de dois tempos equilibrados. 

(Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Já um pedacinho da arquibancada do estádio do Pacaembu recebeu os expositores d’A Feira do Livro no domingo (7). Às 15h, a reunião foi organizada para registrar em foto e vídeo a presença dos livreiros, que dão vida aos estandes ao longo dos nove dias de evento. 

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De olho na Copa do Mundo, com generosas piscadelas para os últimos acontecimentos e os eternos disparates do futebol brasileiro, os integrantes da bancada do Falha de Cobertura mostraram ao público d’A Feira do Livro o que os fãs do programa humorístico já sabem: bom humor, irreverência e análises totalmente absurdas são capazes de expressar a mais absoluta verdade quando o assunto é futebol. 

E isso, de quebra, faz todo mundo rir — como fizeram, na conversa com o jornalista esportivo Sérgio Xavier, do canal SporTV, Daniel Furlan e Caito Mainier, que no programa interpretam, respectivamente, os incomparáveis Craque Daniel e Professor Cerginho.

A mesa Os libertadores da América reuniu o escritor e cronista argentino Alejandro Droznes, autor da coletânea de crônicas Libertadores da América (Pinard), e o professor da Unifesp e da USP Fabio Luis Barbosa dos Santos, autor do ensaio Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol (Elefante).

Eles discutiram o que o esporte mais popular do planeta diz sobre as relações internacionais e a história da América Latina. “A nacionalidade modela a maneira como nos aproximamos do jogo”, afirmou Droznes, enquanto Santos criticou a Fifa por descumprir o próprio estatuto e realizar a próxima Copa em um país em guerra, os Estados Unidos.

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O esporte também brilhou na tarde de terça (2), quando Pedro Bial e Uirá Machado colocaram em xeque algumas das regras que o “biógrafo dos biógrafos”, como Bial se referiu a Ruy Castro, preconiza para uma boa biografia. A dupla, que acaba de biografar dois ícones do esporte brasileiro, conversou sobre as possibilidades do gênero na mesa Além do jogo, que encheu o Palco da Praça no frio fim de tarde da segunda (1º).

Autor de Isabel do vôlei da vida (Gente, 2025), Bial lembrou que já escreveu sobre o seu patrão, Roberto Marinho, e sobre uma figura ainda viva, a empresária Luiza Trajano. Machado também não esperou Henrique Mecking, o Mequinho, morrer para narrar a vida do maior enxadrista brasileiro, como fez em Entre bispos e reis, lançado agora pela Todavia.

Entre sambas e encantarias

Ovacionado pela plateia em diversas ocasiões, o compositor, pesquisador africanista, dicionarista e sambista carioca Nei Lopes encerrou em grande estilo a programação do feriado de Corpus Christi, no Palco da Praça. 

A conversa Samba e afins com Nei Lopes, conduzida pelo escritor e sociólogo Tulio Custódio, marcou o lançamento de O “robusto” menino de Irajá: doces lembranças, eternas saudades, autobiografia do autor, que saiu pela Mórula Editorial. 

O historiador e compositor Nei Lopes e o escritor e sociólogo Tulio Custódio (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Durante o encontro, ele relembrou histórias de infância no bairro de Irajá, no subúrbio do Rio de Janeiro, comentou a paixão pelo estudo do direito e defendeu a cultura popular.

A cultura negra também embalou o encontro entre os escritores, babalorixás e pesquisadores João Tokunbó Carneiro e Sidnei Nogueira, que conversaram sobre o livro Café da manhã com os orixás (Pallas, 2025), de Tokunbó Carneiro. 

Na mesa, mediada pela jornalista Adriana Ferreira da Silva, Tokunbó Carneiro disse que seu trabalho é uma espécie de “reparação histórica” em relação ao best-seller cristão Café com Deus Pai. Afinal, argumentou, a tradição de consultar entidades divinas pela manhã para saber o que aconteceria ao longo do dia se originou em religiões de matriz africana.

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Na mesa Encantarias brasileiras, que abriu os debates d’A Feira do Livro, o historiador, músico e babalaô Luiz Antonio Simas e o romancista Alberto Mussa protagonizaram um encontro inspirador, que teve muita cantoria e especulações acerca de passados e futuros ancestrais. 

Mediada pela jornalista Fernanda Mena, da Folha de S.Paulo, a mesa reuniu os autores cariocas em uma conversa acalorada, que proporcionou uma conexão direta entre Rio de Janeiro e São Paulo a partir das tecnologias e saberes da rua, do samba e das encruzilhadas. 

A cultura negra também foi destaque na programação paralela dos tablados literários.

Música

A música abriu o primeiro fim de semana d’A Feira do Livro 2026. O sábado começou com uma apresentação musical do Quinteto de Sopros do Instituto Baccarelli, tocando Ary Barroso, Luiz Gonzaga e trilhas sonoras de filmes. O conjunto de câmara do instituto atraiu mães e pais que aproveitaram a manhã para levar os filhos ao festival literário paulistano.

Já no penúltimo dia d’A Feira, em uma mesa lotada, a cantora, compositora e escritora Zélia Duncan falou dos caminhos que a levaram para a arte e de sua produção entre música e literatura. Ela contou também sobre a escrita do livro Benditas coisas que eu não sei: músicas, memórias, nostalgias felizes (Agir, 2022) e sobre seu novo álbum, Agudo grave (2026), que parte do desejo de experimentar. 

A cantora, compositora e escritora Zélia Duncan (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“É um álbum surpreendente em relação à minha vida. E surpreende porque eu sempre tento mudar o rumo”, disse. Para ela, a última canção do disco, uma composição do músico paulista Itamar Assumpção (1949-2003), resume sua trajetória. “Eu acho essa música a minha cara. Ela se chama ‘Que tal o impossível?’. E eu quero o impossível, eu sou o impossível.”

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A música ainda foi a tônica num encontro recheado de boas histórias. A escritora e tradutora norte-americana Tracy Mann compartilhou episódios do seu convívio com artistas brasileiros, como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Dominguinhos, nos anos 70. As memórias da autora estão no livro O mundo todo é Bahia: memórias do Brasil (Laranja Original, 2026). 

Na mesa Enquanto corria a barca, mediada pelo escritor João Paulo Cuenca, Mann se emocionou ao lembrar que, quando eram crianças, os dois filhos de Gil que morreram, Pedro e Preta, brincavam com ela.

A programação paralela também foi bastante musical, com apresentações, conversas sobre discos clássicos, música pop e heavy metal.

Cultura da noite

A cultura das festas noturnas de São Paulo apareceu em duas mesas: Retratos da noite paulistana e Espaços seguros. A primeira encerrou a noite do quarto dia d’A Feira (2) com uma conversa entre os jornalistas e escritores Camilo Rocha e Gaía Passarelli, mediada pela jornalista Laura Lima, sobre as memórias musicais e a cultura da noite paulistana

Autores de livros que registram as mudanças da cena da música eletrônica, os dois abordaram os novos hábitos de consumo de música, a volta do vinil e os efeitos da gentrificação no centro de São Paulo.

A construção da memória de lugares onde pessoas da comunidade LGBTQIA+ conviveram  e se expressaram livremente foi tema do encontro entre a historiadora Julia Kumpera e a jornalista e curadora Erika Palomino, no penúltimo dia d’A Feira. Com mediação de Renan Quinalha, editor da seção Livros e Livres da Quatro Cinco Um, as duas falaram sobre espaços seguros de sociabilidade e identidade.

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Ligando noitadas à literatura, outra conversa, no domingo (7), reuniu os escritores Reinaldo Moraes e Ian Uviedo, com mediação do jornalista Fernando Luna, colunista da Quatro Cinco Um.

O jornalista Fernando Luna e os escritores Ian Uviedo e Reinaldo Moraes (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

Conhecido por obras fartas em sexo e drogas, Reinaldo Moraes, que acabou de lançar  Noitada (Todavia), não ficou imune às transformações de valores e costumes que marcam os novos tempos. Ainda assim, ele se queixa do que descreve como um “neopuritanismo” contemporâneo, inclusive entre grupos supostamente liberais.

Como apontou o mediador, a mesa possivelmente contou com a maior variação etária entre dois convidados desta edição d’A Feira do Livro — Moraes e Uviedo têm uma diferença de 49 anos. Lado a lado, reforçaram a reunião de autores estreantes e consagrados no festival.

Experiências LGBTs

A história da comunidade LGBTQIA+ foi abordada durante conversa entre Renan Quinalha, colunista da Quatro Cinco Um, e o antropólogo e ativista Luiz Mott. Ele apresentou seu livro sobre Xica Manicongo, considerada a primeira pessoa trans registrada na história do Brasil, e refletiu sobre sua trajetória, marcada pela homofobia, pela repressão durante a ditadura militar e pela luta por direitos LGBTQIA+. 

Mott destacou o trabalho de décadas em arquivos históricos para recuperar personagens apagados da historiografia, como Tibira do Maranhão, Filipa de Sousa, Rosa Egipcíaca e a própria Xica, uma africana escravizada denunciada à Inquisição por supostamente viver como mulher e se relacionar com homens. 

Ao celebrar o reconhecimento crescente dessas histórias na cultura brasileira, o pesquisador alertou para a permanência da violência contra a população LGBTQIA+ e defendeu a preservação da memória como instrumento de resistência.

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O público lotou o Auditório do Museu do Futebol na tarde do primeiro domingo (31) d’A Feira para ouvir o nigeriano Chukwuebuka Ibeh e o brasileiro Stefano Volp na mesa A perda da inocência, sobre a escrita como instrumento para lidar com a descoberta da sexualidade e a violência da homofobia. 

Os brasileiros Amauri Arrais e Stefano Volp e o nigeriano Chukwuebuka Ibeh (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Ibeh, que vem de um país onde o casamento homossexual é crime, questionou o discurso de que a homossexualidade não é parte da cultura africana. E Volp revelou que, enquanto pessoa queer, precisava se esconder o tempo inteiro. 

Literatura LGBTQIA+ foi debatida na programação paralela d’A Feira do Livro, assim como vários outros temas importantes, como jornalismo, moda, HQ e clássicos literários.

Masculinidades e psicanálise

“Nem todo homem.” A expressão, que virou muleta discursiva de muitos homens para se eximir do debate sobre masculinidade, virou o título de uma seção da newsletter Nem Toda Mulher, assinada pela jornalista Carol Pires e pela psicanalista Vera Iaconelli. 

O espaço para o qual homens são convidados a refletir sobre masculinidade ganhou uma versão ao vivo n’A Feira do Livro, no debate que reuniu a dupla com Renan Quinalha, colunista da Quatro Cinco Um, e o ator Thomás Aquino, na manhã de domingo (7).

Carol Pires, Renan Quinalha, Thomás Aquino e Vera Iaconelli (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Diante de uma plateia que lotou o Palco da Praça, os dois foram convidados a pensar sobre a origem da reação, sempre tão automática, que muitos homens têm para se excluir de críticas ao gênero masculino.

A psicanálise foi questionada na conversa com o psicanalista e pesquisador carioca Gabriel Tupinambá, autor de O desejo de psicanálise: exercícios de pensamento lacaniano (Boitempo, 2024). Nesse livro, ele investiga se existe espaço para a teoria da psicanálise se ampliar e se articular de modo político no Brasil. 

Em encontro conduzido pela também psicanalista e pesquisadora Clarice Paulon, o escritor reivindicou uma nova articulação do campo, a partir da dimensão política, e convocou analistas e analisandos a participar da experiência em conjunto e de modo mais ativo.

Sociedade e comportamento

Em conversa bem-humorada sobre temas sérios, o geógrafo Kauê Lopes dos Santos e a antropóloga Paula Sibilia discutiram como a lógica do consumo vem substituindo aspectos importantes da vida em sociedade, como a mobilização por direitos. 

Mediado por Anna Virginia Balloussier, repórter especial da Folha de S.Paulo, o debate, que aconteceu na mesa Eu mereço: consumismo na era digital, passou por assuntos que estão na ordem do dia do debate público, como o endividamento da população, a proliferação das bets e o fim da escala 6×1.

Charles Duhigg, autor dos best-sellers O poder do hábito e, mais recentemente, Supercomunicadores, ambos da editora Objetiva, encerrou a noite de segunda (1º). 

O autor Charles Duhigg e a jornalista Cris Naumovs (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Na mesa, ele detalhou as técnicas necessárias para garantir uma comunicação bem-sucedida com qualquer tipo de pessoa, mesmo parentes bolsonaristas — palavras dele. E confidenciou ao público que não tem apenas hábitos bons e que é viciado em doce. 

“Está tudo bem ter maus hábitos. Eles não significam que você seja uma má pessoa”, afirmou durante o debate com mediação da jornalista Cris Naumovs. 

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A jornalista e pesquisadora Januária Cristina Alves e o educador Fernando José de Almeida discutiram os impactos das tecnologias digitais na educação e formação dos jovens e na vida em sociedade. 

Ao abordar temas como a proibição dos celulares nas escolas, a influência das plataformas, o papel das famílias, a crise da leitura e o avanço da inteligência artificial, os convidados defenderam que a educação midiática e o pensamento crítico são caminhos essenciais para enfrentar os desafios do ambiente digital.

Já Renata Ruggiero, Regina Magalhães e Jackie Esteves estiveram juntas no Espaço Motiva Tablado Literário para conversar sobre tecnologia, sustentabilidade e inovação. Elas defenderam que a IA pode desempenhar um papel decisivo na construção de modelos de desenvolvimento mais inclusivos e regenerativos. 

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Marcelo Viana, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e autor de Histórias da matemática (2024) e A descoberta dos números (2025), publicados pela Tinta-da-China Brasil, participou da mesa Inteligência artificial e o futuro da matemática com a cientista da computação e pesquisadora Nina da Hora, no domingo (31),

O matemático Marcelo Viana e a cientista da computação Nina da Hora (Camila Almeida/Terebi/A Feira do Livro)

O matemático debateu como as IAs têm proporcionado avanços em seu campo de atuação — como a resolução de um problema matemático que já perdurava por oitenta anos. Também falou sobre como as novas tecnologias poderão afetar o cotidiano humano e qual o lugar ocupado pelo ensino da matemática nesse contexto — o de exercício da cidadania.

Redes sociais, big techs, IA e jornalismo de dados marcaram presença nos debates dos tablados literários. No campo cultural, ficção científica, distopias e outros movimentos literários da ficção especulativa também apareceram na programação paralela.

Mundo verde

O meio ambiente e a defesa de um mundo mais verde apareceram ao longo d’A Feira. Na conversa A Fitópolis de Stefano Mancuso, mediada pela jornalista Maria Guimarães, o botânico italiano defendeu uma transformação profunda das cidades para enfrentar a crise climática, com menos espaço para carros e mais árvores, parques e áreas de convivência. 

Ao relacionar urbanismo, saúde e evolução humana, Mancuso argumentou que os seres humanos mantêm uma ligação biológica profunda com as plantas e citou estudos sobre os benefícios da presença do verde para a recuperação de pacientes hospitalizados, a aprendizagem e o bem-estar. 

O botânico italiano Stefano Mancuso (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Com relação à Amazônia, o economista Ricardo Abramovay e o ambientalista Luiz Villares, que participaram da mesa Antropologia e Antropoceno, mediada pela jornalista Alexandra Ozorio de Almeida, compartilham uma visão: resolver problemas relacionados a esse bioma é um desafio complexo — e mesmo práticas apontadas como inovadoras, como a bioeconomia e a agroecologia, talvez não sejam suficientes para solucioná-los.

Descolonizar o paladar foi um dos motes da mesa Floresta na boca, que reuniu a chef paulistana Bel Coelho, a antropóloga amazonense Inara Nascimento e a pesquisadora fluminense Rute Costa. Na conversa, mediada pela jornalista Isabelle Moreira Lima, não faltaram menções a ingredientes e pratos da rica biodiversidade brasileira — e ficou o recado de que comer é um ato político.

Quadrinhos

A ilustradora iraniana Marjane Satrapi (1969-2026), morta na quinta (4), foi a grande homenageada da mesa Minas de HQ, com as pesquisadoras e quadrinistas Dani Marino e Gabriela Borges.

Persépolis foi um fenômeno tão relevante porque é uma mulher narrando a história”, disse Borges, organizadora, junto com Marino, do livro Quadrinhos, diversidade e insurgência: Mina de HQ 10 anos (Kipuka).

A obra compila HQs assinadas por cerca de duzentas quadrinistas brasileiras, mulheres cis e transgênero e não binárias. O projeto é a versão impressa da plataforma criada por Borges em 2016. 

Em conversa mediada pela jornalista Clara Rellstab, Borges e Marino falaram sobre o trabalho de seleção das ilustradoras para a lista, criticaram a falta de visibilidade de mulheres no mercado de HQs e deram dicas para novos artistas.

A Japan House São Paulo realizou uma edição especial do seu tradicional encontro do Ciclo de Mangá, desta vez presencialmente, no Tablado Literário Bubu. O evento faz parte da iniciativa da instituição para discutir a sociedade japonesa com base nos mangás e teve como tema de maio Bakuman (JBC), escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata. O encontro foi mediado por Vinicius Garcia, um dos educadores do centro cultural. 

Fotografia e viagens

A fotografia brilhou na mesa Outros Navios: encontro com Eustáquio Neves, que marcou o lançamento do livro Outros navios: Eustáquio Neves (org. Eder Chiodetto, Edições Sesc), que reúne parte da sua produção fotográfica. 

O artista repassou histórias da infância em Minas Gerais, revelou ao público apenas um pouco das minúcias de seu processo de revelação e invenção e expôs a preferência pela vocação musical, deixada de lado. 

A relação entre a imagem e a palavra, a criação de fotolivros e a crítica de arte também foram discutidos na programação paralela dos tablados.

O pesquisador e curador Diego Matos e o artista visual e fotógrafo mineiro Eustáquio Neves (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Inspiradas pelo livro Mulheres viajantes (Tinta-da-China Brasil, 2025), de Sónia Serrano, a escritora e jornalista Gaía Passarelli e a jornalista e historiadora Paula Carvalho discutiram como a tradição da literatura de viagem apagou ou minimizou as experiências femininas ao longo da história. 

Com exemplos que vão de viajantes medievais a autoras contemporâneas, ambas refletiram sobre os desafios específicos enfrentados por mulheres que viajam sozinhas, questões de segurança, mobilidade e representação, além da importância de recuperar e preservar relatos de viajantes que ficaram à margem dos registros oficiais.

Uma viagem pelas literaturas dos mais diversos países, da Índia à Rússia, passou pelos tablados literários ao longo dos nove dias do festival paulistano. A formação das cidades, a arquitetura e o urbanismo também foram debatidos.

Pequenos leitores

Pelo segundo ano, A Feira do Livro contou com programação especial para o público infantojuvenil. O Espaço Rebentos recebeu mesas de debate, lançamento de livros, shows, contação de história, mediações de leitura e uma série de oficinas criativas.

No fim da tarde de segunda (1º), a escritora e ilustradora Angela Lago (1945-2017), referência da literatura infantojuvenil e da experimentação em livros ilustrados no Brasil, foi homenageada na conversa entre os escritores Aline Abreu e Odilon Moraes, mediada por Rita da Costa Aguiar. 

Rita da Costa Aguiar, Odilon Moraes e Aline Abreu (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Na terça (2), o destaque da programação foi a mesa A geração incrível, um debate sobre o uso excessivo de telas pelas crianças e adolescentes entre a educadora parental Claudia Alaminos e a comunicadora Lia Ludwig, do Movimento Desconecta, com mediação da jornalista Laura Mattos.

Ao longo da semana, uma série de temas foi discutida no Espaço Rebentos a partir do bate-papo com autores de livros infantojuvenis: a cultura afro-brasileira e a representatividade negra, presentes na obra de de Paty Wolff, Madu Costa e mais autores; a questão ambiental, na celebração da vida e obra da ilustradora botânica Margaret Mee e no show do Planeta Oca; e a literatura fantástica, que permite que os jovens desesperançosos sonhem com novos mundos

Quadrinhos, cordéis e xilogravuras também entraram em pauta no festival.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, aconteceu de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reuniu mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.