Ministério da Cultura apresenta
Os escritores Chico Mattoso e Maria Brant (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Chico Mattoso: ‘Nossa geração demorou a olhar para a experiência da ditadura e narrá-la’

Em mesa que debateu as infâncias sob o regime militar, o escritor dividiu o palco com a estreante Maria Brant

06jun2026

“É difícil precisar como um livro começa, mas eu resolvi escrever O ano do cometa quando [Jair] Bolsonaro foi eleito presidente.” Assim a escritora Maria Brant, especialista em direitos humanos, relembrou os momentos iniciais da escrita de seu romance de estreia, publicado este ano pela editora Fósforo. Ao lado do veterano Chico Mattoso, Brant esteve na mesa Infâncias sob ditadura, na tarde de sexta (5), n’A Feira do Livro

O romance mais recente de Mattoso, O hipopótamo (Todavia, 2025), foi escrito mais ou menos no mesmo período que o de Brant, durante a pandemia de covid-19, e também tem como protagonista uma criança vivendo nos tempos da ditadura civil-militar. 

“O grande trampolim para a escrita foi a sensação de horror vivida durante a pandemia no Brasil — o horror que era a presidência da República e tudo o que a cercava. Parecia que estávamos lidando com o inconsciente de um torturador, com pessoas que tinham prazer na dor alheia e na morte. Isso foi muito assustador”, afirmou Mattoso. 

O escritor Chico Mattoso (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Para ele, o horror do período levou a uma volta ao passado, ao tempo dos anos de chumbo, outro momento da história brasileira vivido sob o signo do medo. “Isso fez a gente se conectar com essa geração que estava literalmente diante da morbidez, da violência. Foi uma experiência que nos despertou”, disse o escritor sobre a pandemia e o governo Bolsonaro. 

Histórias em comum

As semelhanças narrativas entre o livro de Mattoso e o de Brant foram destacadas pela mediadora Patrícia Ditolvo, arquiteta e mestre em teoria literária que criou o perfil Críticas Instantâneas no Instagram.

Em O hipopótamo, Mattoso apresenta a história de Rodrigo, um menino por volta de seus dez anos de idade que tenta se reaproximar do passado dos pais e do que eles viveram durante a ditadura. Já em O ano do cometa, de Brant, a história acontece em 1986, ano em que o mundo aguardava a passagem do Cometa Halley e, no Brasil, a redemocratização estava em curso, após 21 anos de regime militar. Uma das protagonistas tem onze anos; a outra, catorze.

“A opção por narradores infantis traz algumas facilidades. Eu me pautei muito por lembranças sensoriais. Mas também tem a questão de como você constrói um narrador que vê o mundo como uma criança veria, entendendo partes do que acontece ao redor e não entendendo outras”, comentou Brant.

Mattoso reforçou mais essa coincidência entre os dois romances. Para ele, parte importante do processo de escrita foi a descoberta de quem seria seu narrador. O autor queria encontrar uma voz que se aproximasse da sensibilidade de uma criança, mas que não estivesse dentro da cabeça dela. Por isso, explicou, a opção por narrar em terceira pessoa.

“Meu desejo era mostrar a solidão e o silêncio da infância, particularmente dessa infância sob uma grande sombra de violência. Nossos livros têm isso em comum: como essa violência bate na criança? Como a criança, sem tantas ferramentas, consegue absorver e articular tudo o que acontece ao redor dela?”. 

Contra o silêncio

As cicatrizes e marcas no corpo dos protagonistas são outro ponto em comum dos dois romances. Para Brant, as cicatrizes funcionam como rastros físicos que não permitem o silêncio total, pistas sobre algo não dito com palavras. “Também tem o fato de que a ditadura deixou rastros de verdade no corpo de muitas pessoas”, ressaltou Brant.

A escritora Maria Brant (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Os autores ainda lembraram de livros recentes que retomam o período da ditadura, não necessariamente pelo olhar infantil, como o best-seller Ainda estou aqui (Alfaguara, 2015), de Marcelo Rubens Paiva, que deu origem ao filme de mesmo nome vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. 

“A gente sempre teve literatura de testemunho no Brasil — pessoas que viveram e depois ficcionalizaram a experiência. Muita gente daquela geração narrou o que viveu. Mas eu sinto que a nossa geração demorou a olhar para a experiência da ditadura e narrá-la”, disse Mattoso. 

Com novos livros que retratam o período, o silêncio deixa de existir, observou Brant. “Uma das coisas legais de ter escrito o romance foi entrar nesse diálogo com tantos escritores do nosso tempo que estão escrevendo sobre o assunto”, concluiu. 


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Lúcia Nascimento

Escritora e jornalista, doutoranda em teoria literária na USP.