Marjane Satrapi mudou a história dos quadrinhos

Memória,

Marjane Satrapi mudou a história dos quadrinhos

Autora de Persépolis, a iraniana, morta aos 56 anos, abriu caminho para mulheres no universo da HQ

05jun2026

A notícia da morte de Marjane Satrapi, aos 56 anos, nesta quinta (4), chegou como se fosse a de alguém próximo. Para mim, foi como a morte repentina de uma amiga. 

Satrapi lutou pela liberdade de outras mulheres por meio da arte e, no último ano, se viu presa numa enorme tristeza depois da morte, em abril de 2025, do seu companheiro, o produtor, ator e roteirista sueco Mattias Ripa.

Ela não foi apenas uma das principais quadrinistas mulheres. Foi um dos principais nomes das histórias em quadrinhos no mundo — entre homens, mulheres e todas as pessoas.

Persépolis (trad. Paulo Werneck, Quadrinhos na Cia, 2007) fez isso. A história de uma menina iraniana que cresce no meio de uma revolução política, vai para a Europa, erra, sofre e volta é muito específica, mas gera identificação. Satrapi contou a sua própria história e milhões de pessoas ao redor do mundo leram e pensaram: isso também é sobre mim. 

O impacto do lançamento de Persépolis no início do século 21 foi enorme. Lançada originalmente em francês em três partes, entre 2000 e 2003, e traduzida para o inglês em duas, entre 2003 e 2004, foi uma das primeiras graphic novels de sucesso mundial, ao lado de obras como Maus: a história de um sobrevivente, de Art Spiegelman, e Fun home: uma tragicomédia em família, de Alison Bechdel. 

A HQ mostrou que histórias em quadrinhos podem ir além dos super-heróis ou do humor dos gibis e das tirinhas. E inspirou artistas mulheres a fazer quadrinhos e publicar suas histórias sem abrir mão do estilo próprio. Satrapi provou, na prática, que era possível. 

Identificação

Não é exagero dizer que muito do trabalho que faço desde 2015 na Mina de HQ se deve a ela. Persépolis foi uma das primeiras graphic novels que me fez ver que mulheres faziam HQs incríveis, com as quais me identifiquei muito mais do que com o que via nas bancas até então. 

Isso me levou a pesquisar, no mestrado em antropologia, gênero e diversidade nos quadrinhos e, como pesquisadora, vejo o espaço estreito que as mulheres ocupavam nesse mercado antes de Persépolis. Mulheres fizeram quadrinhos desde que os quadrinhos existem, mas sua presença era restrita, frequentemente ignorada por grandes editoras, prêmios e crítica. 

O mercado franco-belga, dominante na Europa, era industrial e masculino. O mercado norte-americano girava em torno dos super-heróis. No Brasil, a produção autoral ainda engatinhava nas bancas e nos fanzines. O quadrinho autobiográfico feito por mulheres existia, mas circulava pouco. 

Marjane Satrapi mudou esse cenário. Uma mulher iraniana, vivendo em Paris, publicou sua história num formato até então considerado de nicho, por uma editora pequena, que nem colocava código de barras nos livros por achar isso muito comercial. 

Persépolis chegou a um milhão de cópias antes da história virar o filme, lançado em 2007, que foi premiado em Cannes e indicado ao Oscar. No Brasil, são mais de 130 mil exemplares vendidos. O livro foi traduzido para 25 idiomas, entrou nas listas dos melhores do século do Guardian e do New York Times e virou leitura obrigatória em escolas de vários países. 

Mas também foi questionado e chegou ao segundo lugar entre os livros mais contestados em bibliotecas dos Estados Unidos, segundo a Associação Americana de Bibliotecas. Lançada em 2026, uma graphic novel chamada Wake Now in the Fire, de Jarrett Dapier, documenta a revolta de estudantes de Chicago para que o livro voltasse às bibliotecas da escola.

Persépolis provoca exatamente quem precisaria ser provocado. Fala de um Irã que muita gente prefere reduzir a clichê, um estereótipo de violência. Fala de mulheres que muita gente prefere ignorar. Fala de imperialismo, de responsabilidade ocidental, de como a revolução de 1979 não foi só produto de fundamentalismo religioso local, mas também resultado de décadas de intervenção norte-americana e britânica no país. Fala de classe, de raça, de exílio, de identidade. E segue provocando hoje tanto quanto provocava quando foi lançado.

No próprio Irã, Persépolis nunca pôde ser publicado. Por questões políticas e religiosas, a obra, que narra a história do país a partir de uma perspectiva feminina, segue proibida exatamente no lugar onde nasceu. 

Simplicidade enganosa

O traço de Satrapi é direto, em alto contraste, preto e branco, sem degradê, sem sombra. Sua escolha estética era decisão narrativa com origem precisa: tem raízes na pintura persa, tradição que valoriza o alto contraste e as formas definidas. Feito por uma mulher, esse tipo de traço era frequentemente lido como falta de habilidade, raramente como escolha. Satrapi enfrentou esse julgamento e seguiu com o estilo que queria. 

Quando Persépolis mostra bombardeios, mortes e torturas, o traço não impõe o peso visual de uma ilustração realista. Abre uma janela para o trauma sem expor quem está lendo à brutalidade direta. 

Na comemoração dos vinte anos da primeira publicação do livro, em 2020, a pesquisadora e quadrinista Aline Zouvi apontou que essa herança visual se conecta também com a contracultura, citando o livro Graphic Women: Life Narrative and Contemporary Comics (2010), de Hillary Chute, que analisa quadrinhos autobiográficos feitos por mulheres. A escolha do preto e branco, nessa leitura, vai além da estética: é também uma recusa ao mercado mainstream

Satrapi construía dualidades: criança e adulta, pública e privada, iraniana e estrangeira, vítima e privilegiada. Há uma cena em que a narradora, ainda menina, voltando para casa, encontra a casa do vizinho destruída por um bombardeio. Reconhece, pelo bracelete no pulso, o braço de uma amiga entre os escombros. 

A cena é narrada com uma leveza estranha, a partir do olhar infantil, que ainda não sabe o peso completo do que está vendo. Esse equilíbrio entre horror e leveza é uma das marcas mais difíceis de alcançar numa narrativa e Satrapi alcançava de forma consistente.

Tristeza profunda

A família de Satrapi divulgou que ela “morreu de tristeza”, um ano após a morte de seu companheiro. Mas acredito que testemunhar a opressão em seu país durante toda a vida deve ter contribuído para essa dor. Seu nome verdadeiro era Marjane Ebrahimi. Satrapi era o sobrenome de solteira da mãe, uma referência às antigas províncias da Pérsia, que a escritora adotou na obra que a revelou ao mundo.

Quando fez Persépolis, a iraniana estava numa depressão profunda. Vivia em Paris, tentando emplacar no mercado de livros infantis, e dividia um ateliê com outros artistas. Contava a eles sobre o Irã, os anos na Áustria — para onde emigrou aos catorze anos —, como tinha chegado à França, até que os colegas disseram que aquilo precisava virar quadrinho.

Em uma entrevista à atriz Emma Watson para a revista Vogue, descreveu uma noite em que, mal conseguindo respirar, chamou a emergência, foi colocada numa maca e caiu escada abaixo: 

Passei por uma depressão muito grande. E quando estou deprimida, não consigo respirar. A respiração simplesmente não vem. Então, numa noite em que estava sozinha, chamei a ambulância e disse: “Não consigo respirar.” Eles vieram, me enrolaram em papel alumínio como uma galinha assada, me colocaram numa maca e começaram a descer pela escada, que era em espiral. Acabei caindo escada abaixo e abri a cabeça. Precisei de quatro pontos. Isso me tirou da depressão. A dor foi tanta que minha respiração voltou e eu decidi: preciso fazer alguma coisa. E então escrevi Persépolis. 

Testemunhas rejeitadas

Persépolis é um testemunho — e isso tem um peso específico no contexto iraniano. No regime implantado pela revolução de 1979, o depoimento de uma mulher não tem valor jurídico. Uma mulher não pode ser testemunha num tribunal. 

Fazer um testemunho em quadrinhos — dar visibilidade por meio do desenho — opera diretamente contra essa estrutura. Não é metáfora política. É um ato político. 

Seu trabalho mostrou as contradições de uma família progressista dentro de uma ditadura religiosa. Mostrou como os valores que a emanciparam em casa se tornaram suspeitos fora dela e como, ao chegar na Europa, o que ela esperava ser liberdade se revelou racismo e xenofobia, a mesma opressão em outras formas. Mostrou a empregada doméstica da família — o conflito de classe dentro de uma casa que se opunha ao regime, mas vivia de privilégios. E mostrou a própria autora como alguém que errou, foi intolerante e teve preconceitos.

Sempre falo da importância das autobiografias, especialmente as das mulheres que contam sua história num mundo em que as narrativas ainda são majoritariamente masculinas. Persépolis provou que uma autobiografia pode ser uma história política em quadrinhos, ao buscar entender o país além da família. Isso abriu espaço para que outras mulheres contassem as suas próprias histórias.

Outras dimensões

Satrapi dirigiu seis filmes ao longo da carreira, incluindo as adaptações de Persépolis — uma das quais ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes em 2007 e o César de melhor adaptação em 2008 — e a de Frango com ameixas (trad. Paulo Werneck, Quadrinhos na Cia, 2008). Pintora, ela deixou claro em entrevistas que os quadrinhos eram apenas uma das dimensões do seu trabalho. 

Em 2023, disse à Publishers Weekly que os quadrinhos eram “um capítulo fechado” na sua vida. O último que organizou, Mulher, vida, liberdade (trad. Julia da Rosa Simões, Quadrinhos na Cia, 2024), reuniu quadrinhos de várias artistas sobre a situação das mulheres iranianas, em resposta direta ao movimento que tomou as ruas do Irã após o assassinato de Jina Mahsa Amini, em 2022. 

Em 2025, quando ia receber a Legião da Honra, maior honraria concedida pelo governo francês, recusou. A razão: a França estava negando vistos a dissidentes iranianos. 

Há cerca de vinte anos, em entrevista à revista Believer, resgatada na newsletter Virapágina, de Érico Assis, ela disse: 

Claro que ainda tenho um pouco de esperança. Se não tivesse, eu pegaria uma espingarda e acabaria com tudo agora mesmo. Enquanto estiver viva, sempre vou alimentar a esperança de que um milagre vai cair do céu. Meu intelecto não enxerga nenhuma saída, mas meu instinto de sobrevivência é esperançoso. Ele diz: vamos tentar. 

Satrapi tentou enquanto conseguiu. O que fica é um legado que prova que autobiografia é política, estilo é escolha, honestidade é mais difícil do que parece e o testemunho de uma mulher tem peso mesmo se o sistema disser que não.

Felizmente, Persépolis, Bordados, Frango com ameixas e Mulher, vida, liberdade estão todos publicados no Brasil, pela Quadrinhos na Cia. Ler os livros de Marjane Satrapi e as obras das artistas que ela inspirou é a forma mais direta de honrar tudo o que ela fez.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Borges

Fundadora da Mina de HQ, plataforma de divulgação de histórias em quadrinhos e debates sobre gênero, diversidade e representatividade, é coautora de Quadrinhos, diversidade e insurgência (Kipuka).