A FEIRA DO LIVRO 2026,
Futebol entra em campo n’A Feira com política e diversidade latino-americana
Cronista argentino Alejandro Droznes e professor paulistano Fabio Luis Barbosa dos Santos conversaram sobre o esporte como espelho da sociedade
04jun2026 • Atualizado em: 07jun2026A menos de uma semana do início da Copa do Mundo de 2026, o futebol subiu no palco d’A Feira do Livro 2026 para uma conversa que mostrou como o jogo vai bem além das disputas esportivas, refletindo a política e, no caso latino-americano, a diversidade cultural e geográfica do continente.
A mesa Os libertadores da América reuniu, no Auditório Museu do Futebol, o escritor e cronista argentino Alejandro Droznes e o professor da Unifesp e da USP Fabio Luis Barbosa dos Santos, que discutiram o que o esporte mais popular do planeta diz sobre as relações internacionais e a história da América Latina.
Mediado pela jornalista Anita Efraim, comentarista do canal esportivo GOAT, do YouTube, e com tradução simultânea de Joaquim Serrano e Lara Moamar, o encontro atraiu um público diverso como o que costuma frequentar as arquibancadas: torcedores vestidos com roupas e acessórios de times, estudantes universitários, leitores de todas as idades e crianças.
Para surpresa de parte da plateia, Droznes se apresentou dizendo que não é exatamente um aficionado por futebol. “Minha relação com o futebol não é muito intensa”, contou, acrescentando que não costuma assistir, por exemplo, aos jogos do campeonato argentino.
Suas disputas preferidas são as dos torneios entre times sul-americanos, que motivaram a escrita de seu primeiro livro, a coletânea de crônicas Libertadores da América (Pinard), que está sendo lançada n’A Feira e traz relatos que entrelaçam a história dos heróis da independência latino-americana e a Copa Libertadores.
“Gosto do itinerário desses torneios, que é heterogêneo. Jogos entre grandes times e times pequenos, de geografias como desertos e altitude. Minha relação [com o futebol] vem dessa heterogeneidade geográfica e cultural”, disse.
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Santos, por sua vez, lembrou que sua história com o futebol vem de um “trauma de infância”, com nome e sobrenome: Paolo Rossi, o jogador da seleção italiana que se tornou o carrasco do Brasil na Copa de 1982 ao marcar três gols que despacharam o admirado time de Sócrates, Zico e companhia na partida conhecida, pelos brasileiros, como a “Tragédia do Sarriá”.
“Foi a primeira vez que vi meu pai chorar”, disse o professor, que relatou um encontro na infância com o ídolo Sócrates, na saída de uma visita dele à escola onde Santos estudava. Ao pedir um autógrafo ao jogador, sem que nenhum dos dois tivesse papel e caneta na hora, recebeu uma flor do buquê que Sócrates tinha ganhado na recepção.
“Tá aqui o meu autógrafo, garoto”, disse o craque corintiano segundo Santos, que se emocionou ao contar a história.
“É esse o Brasil de que a gente tem saudade”, acrescentou, numa referência a seu novo livro, Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol (Elefante), um ensaio sobre a estrutura de sentimentos em torno do futebol brasileiro e sua relação com a história recente do país.
Política da bola
Ao falar sobre a relação do esporte com a política hoje, Santos lembrou que as últimas Copas do Mundo vêm refletindo o jogo geopolítico internacional: depois de África do Sul (2010), Brasil (2014) e Rússia (2018) — uma espécie de ciclo dos Brics —, o torneio tem como sede países governados por autocratas interessados em se promover, casos de Qatar (2022) e Marrocos — um dos três países-sede principais, junto com Espanha e Portugal, da edição de 2030, que ainda terá partidas iniciais no Uruguai, Argentina e Paraguai, numa grande acomodação de interesses de cartolas.
Isso sem mencionar os Estados Unidos, que foram escolhidos, junto com México e Canadá, para a Copa de 2026 durante o primeiro mandato de Donald Trump. Eleito novamente em 2024, ele colou sua imagem à da competição ao se aproximar da Fifa. Santos criticou a entidade por descumprir o próprio estatuto, que proíbe a realização da Copa em países em guerra, como os Estados Unidos.
Ele ainda observou que decisões políticas interferiram nas regras do jogo nos últimos anos. “Quando a Fifa suspende a Rússia da Copa, mas não suspende Israel ou os Estados Unidos, é política evidente. Mas também é política quando proíbe a paradinha no pênalti, sendo que os jogadores brasileiros são os que mais fazem isso”. Para o professor, o esporte vem passando por mudanças que privilegiam o futebol europeu.
Sobre isso, Droznes e Santos lembraram que o produto futebol é cada vez mais homogeneizado, com estádios, transmissões, patrocinadores e todo o ambiente em volta do campo buscando reproduzir o que se vê nas grandes ligas europeias. Para o escritor argentino, porém, essa lógica ainda não alcança as arquibancadas de competições como a Libertadores e a Copa Sul-Americana, nas quais é possível encontrar mais “informalidade”, disse.
“A nacionalidade modela a maneira como nos aproximamos do jogo”, afirmou Droznes, que ainda destacou como o futebol latino-americano ajuda a contar a história da região: da importância dos “libertadores” (Simón Bolívar mais ao norte da América do Sul, San Martín mais ao sul) a clubes como o chileno Colo-Colo, cujo nome homenageia o líder mapuche que lutou contra a invasão espanhola no século 16.
Racismo
Respondendo a perguntas do público, os convidados ainda falaram sobre os frequentes episódios de racismo nos estádios sul-americanos e sobre o fato de jogadores brasileiros negros serem o alvo preferencial, principalmente, de torcedores argentinos.
Ao lembrar que mesmo Maradona, ídolo máximo do futebol no país, enfrentou o preconceito de parte da sociedade local por não ser “um branco em termos de Argentina”, Droznes apontou que medidas para combater o problema, como as adotadas recentemente pela Conmebol (entidade responsável pelo futebol sul-americano), são “obviamente necessárias”.
Santos contou que já presenciou em Buenos Aires, durante uma partida entre Boca Juniors e São Paulo pela Libertadores, ataques explícitos ao então lateral-esquerdo Richarlyson, hoje comentarista da TV Globo. “Era constrangedor como a torcida o chamava de macaco”.
Fã do futebol argentino, ele rejeita transformar esse tipo de episódio em critério para torcer contra nossos vizinhos no Mundial. “O racismo é um fenômeno global”, argumentou, para então enfatizar os laços culturais, políticos e esportivos que unem os países latino-americanos.
“Estamos do mesmo lado no mundo do futebol”, disse. “Inclusive, a seleção dos sonhos seria a que juntasse jogadores brasileiros e argentinos.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.