A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘História da homossexualidade cala a boca dos ignorantes’, diz Luiz Mott
O antropólogo falou a Renan Quinalha sobre o apagamento de pessoas LGBTQIA+ ao longo da história
06jun2026Na tarde de sábado (6), o antropólogo e ativista Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB) e uma das principais referências dos estudos sobre sexualidade no Brasil, conversou com o jurista, pesquisador e colunista da Quatro Cinco Um Renan Quinalha, no Auditório do Museu do Futebol, como parte da programação oficial do penúltimo dia d’A Feira do Livro.
Os dois conversaram sobre Xica Manicongo, a primeira transexual do Brasil. O encontro teve como ponto de partida o lançamento do livro Xica Manicongo: primeira transexual do Brasil (Cosac), de Mott, no qual reconstrói a trajetória de uma personagem africana escravizada que viveu na Salvador do século 16 e se tornou um símbolo da memória LGBTQIA+ brasileira.
Ao revisitar sua própria história, o autor descreveu o ambiente de repressão em que cresceu e se assumiu homossexual. “Eu não queria ser homossexual, porque era um estigma”, afirmou. O pesquisador relembrou que foi alvo de discriminação desde a infância e que, durante sua formação universitéria, jamais ouviu professores tratarem a homossexualidade como uma expressão legítima da diversidade humana.
“Na USP, nenhum professor falou que a homossexualidade era uma orientação sexual existente em tantas sociedades”, recordou.
Mott também relatou o impacto da homofobia institucionalizada nas décadas de 70 e 80, período no qual foi preso por três vezes pelo DOPS, durante a ditadura militar. “Na época, o Silvio Santos dizia: ‘Na televisão, só homossexual caricato’. Nada de falar discurso político. Foi nesse ambiente em que eu cresci.”
Para ele, uma das maiores conquistas do movimento LGBT foi transformar a representação pública da diversidade sexual. “As manchetes dos jornais em Salvador diziam ‘mantenha Salvador limpa, mate uma bicha todo dia’. Na época, matar viado não era homicídio, era caçada”, disse.
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A conversa percorreu ainda a trajetória intelectual que levou Mott dos estudos de antropologia econômica à pesquisa histórica sobre sexualidade. Segundo o antropólogo, o objetivo sempre foi combater preconceitos por meio do conhecimento. “Estudei a história da homossexualidade para ter argumentos e calar a boca dos ignorantes e preconceituosos”, declarou.
Apagamento histórico
O pesquisador destacou o trabalho de décadas em arquivos brasileiros e portugueses para localizar documentos que revelassem experiências LGBT+ apagadas pela historiografia tradicional.
Entre as descobertas apresentadas, Mott ressaltou personagens como Tibira do Maranhão, indígena tupinambá executado no século 17 por sodomia; Filipa de Sousa, considerada a primeira mulher no Brasil a ser condenada pelo Santo Ofício da Inquisição por relações homoafetivas; Rosa Egipcíaca, ex-escravizada e ex-prostituta que se tornou líder religiosa; e, por fim, Xica Manicongo.
Sobre esta última, ele afirmou ter conseguido “tirar leite de pedra” a partir de apenas 29 linhas de um documento inquisitorial de 1591, encontrado em arquivos em Portugal. Segundo os registros do antropólogo, Xica era de origem congolesa, provavelmente uma kimbanda [termo banto para curandeiros e sacerdotes que, muitas vezes, possuíam identidades de gênero femininas], que foi denunciada à Inquisição por sodomia, por viver como mulher e se relacionar com homens.
“Pouco se sabe sobre a Xica. Seu nome era Francisco Manicongo, de Francisco do Congo. ‘Manicongo’ significa ‘rei do Congo’, então provavelmente devia ser um membro da família real, como um primo ou sobrinho do rei. Não encontrei nenhum outro documento para outro escravizado com esse nome e não se sabe com que idade chegou ao Brasil, se já veio escravizado, marcado com ferro, circuncidado”, comentou Mott.
Por outro lado, ao comentar a crescente valorização da memória LGBTQIA+ na cultura brasileira, Mott celebrou o fato de suas pesquisas terem ultrapassado os limites da universidade. Personagens estudados pelo antropólogo já inspiraram enredos de escolas de samba, nomes de ruas, movimentos sociais e produções artísticas.
“Que alegria para um pesquisador ver um assunto do século 16 se tornar uma data, um desfile alegórico ou um símbolo contemporâneo, como a figura da Xica”, observou.
Questionado por Quinalha sobre o atual cenário político e social, Mott avaliou que os avanços em direitos convivem com a persistência da violência. “Vivemos tempos bicudos”, resumiu. Embora tenha citado conquistas como o casamento igualitário e a equiparação da homofobia ao racismo, lembrou que o Brasil continua registrando centenas de mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ todos os anos. “Continuamos com a mesma epidemia do ódio”, afirmou.
Ao final da conversa, o escritor defendeu a preservação da memória como ferramenta de resistência e transformação social. Para ele, recuperar histórias silenciadas e apagadas ajuda a construir pertencimento e cidadania para as novas gerações. “A ancestralidade passa pela história dos povos negro e indígena, mas nós LGBT também temos nossos antepassados”, e concluiu: “Ainda existe muito a ser descoberto. Esse é apenas o começo”.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.