A FEIRA DO LIVRO 2026,
Psicanálise no divã: Gabriel Tupinambá reivindica uma prática mais crítica
Psicanalista defende politização do campo e problematiza, a partir de uma visão marxista, a passividade clínica
06jun2026Existe espaço para a teoria da psicanálise se ampliar e se articular de modo político no Brasil? Essa é a investigação de O desejo de psicanálise: exercícios de pensamento lacaniano (Boitempo), do psicanalista e pesquisador carioca Gabriel Tupinambá.
O autor fez uma análise crítica do campo teórico e da prática da psicanálise no Auditório do Museu do Futebol, no início da tarde de sábado (6), n’A Feira do Livro.
Em um encontro conduzido pela também psicanalista e pesquisadora Clarice Paulon, o escritor reivindicou uma nova articulação do campo, a partir da dimensão política, e convocou analistas e analisandos a participar da experiência em conjunto e de modo mais ativo.
Tupinambá contou que o desejo de trabalhar em uma clínica estimulante e implicada em uma autocrítica sociológica o motivou a refletir sobre como se estrutura a vontade do analista de “ser” um profissional.
Segundo ele, isso pode se dar a partir do processo de formação e atingir uma estabilidade pouco desejável, prejudicial ao próprio campo psicanalítico. Assim, a neutralidade da prática alienaria a relação entre terapeuta e paciente.
“O desejo de psicanálise é uma discussão política. E não é um debate adicional. Alguns psicanalistas argumentam que é um debate sociológico, que não está na clínica. É o contrário. É um debate sobre as condições materiais de uma prática clínica”, defendeu o pesquisador.
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A ideia, de acordo com Tupinambá, pode causar desconfiança e ser rejeitada pelos defensores de uma prática mais clássica, atrelada estritamente aos estudos de Freud, no início do século 20.
O campo teórico, avaliou o psicanalista, é anacrônico e conserva rigores que, a longo prazo, deixam de funcionar para os pacientes no século 21. Tupinambá defendeu, durante a conversa, a necessidade de uma reinvenção constante, baseada na atenção aos problemas abordados pelos pacientes.
“A forma como Freud nomeia os conceitos tem a ver com a forma como os Estados europeus se organizaram no entreguerras. A clínica não está separada do social, o social não está separado da construção dos conceitos, e essas coisas se articulam. Para a psicanálise existir, é preciso mais do que ser capaz de atender. Ela tem que se reinventar, como já se reinventou tantas vezes. E nos reinventamos a partir das pessoas que escutamos”, observou o psicanalista que, atualmente, faz pós-doutorado em filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ideologia
Além de pesquisador, Tupinambá é coordenador do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia, grupo coletivo, independente e interdisciplinar de estudos de ciências humanas, baseado em teorias críticas e marxistas.
A partir de observações em grupo e do compartilhamento de experiências de escuta, Tupinambá passou a colocar em perspectiva não só o distanciamento da teoria, mas também a classe social do analista. Ele afirmou que a desigualdade é um fator determinante no processo de análise.
“A gente precisa defender certo purismo psicanalítico e talvez isso seja um tipo de ideologia psicanalítica. Como se escuta, por exemplo, um caso de violência doméstica dentro da clínica sem poder nomear? Porque a pessoa precisa nomear aquilo e aquilo tem que fazer sentido no seu sintoma.”
O autor defendeu que o campo psicanalítico é tão complexo quanto a própria escuta dos analisandos. Em benefício da própria instituição, a área deveria ser reconhecida como uma classe diversa, impactada diretamente pelas condições sociais dos profissionais, e se projetar para um futuro mais aberto e democrático, a favor do alargamento do conhecimento sobre a saúde mental.
“Outros trabalhos do mundo se beneficiaram de pensar a partir da luta de classes e da dimensão produtiva nas instituições. Nós [os psicanalistas], na teoria, não dialogamos com mais nada. Então, a ideia é que possamos nos dissolver um pouco mais no mundo”, defendeu.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.