A FEIRA DO LIVRO 2026,
Precisamos de novas palavras para definir Trump e Musk, defende Rui Tavares
Historiador português, autor de Hipocritões e olhigarcas, discutiu guerras culturais do passado e autocratas do presente
31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026Novos monstros perambulam pela paisagem cultural hoje. São os hipocritões e os olhigarcas.
Os primeiros são seres tão hipócritas que exigem o uso do aumentativo — hipocritões, portanto. Seus atos não poderiam estar mais distantes de suas declarações mas, por isso mesmo, ninguém espera deles qualquer coerência. O exemplar mais notável é o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo maior passatempo parece ser apontar as hipocrisias de seus adversários políticos, que não se comparam com as suas.
Já os olhigarcas são figuras como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos — versões contemporâneas do Argos da mitologia grega. Os megaempresários das big techs dispõem não de uma centena de olhos, mas de câmeras que vigiam os movimentos da humanidade sem jamais desligar.
Os dois termos são invenções do historiador e político português Rui Tavares, conhecido pelo podcast Agora, agora e mais agora, transformado em livro. Os neologismos batizam seu mais recente lançamento, Hipocritões e olhigarcas: passado e futuro das guerras culturais, publicado pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um). O ensaio vai e volta no tempo em uma tentativa de entender as polarizações contemporâneas.
“As palavras, a certa altura, já estão gastas, não chegam à enormidade do presente. Vivemos numa época de novos monstros, temos que designá-los com novas palavras”, disse Tavares neste domingo (31), n’A Feira do Livro, explicando o título da obra em mesa mediada por Marcos Augusto Gonçalves, editor do caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo.
No livro, o historiador pinta esses monstros como os protagonistas das guerras culturais do presente. Ao mesmo tempo, busca mostrar como esses conflitos não são exclusivos do nosso tempo: estiveram no cerne da Reforma Protestante e nos movimentos antissemitistas séculos atrás, por exemplo.
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Se as polarizações de hoje têm uma diferença, sugeriu Tavares, é uma certa infantilidade. Ele comparou as disputas políticas contemporâneas às brigas entre membros de uma mesma família. “Quando a gente tem uma discussão lá em casa, às vezes nem sequer darem razão à gente é o suficiente. Aliás, é a pior coisa normalmente alguém dizer ‘está bem, tens razão’. Não queremos só ter razão. Queremos ter razão e a última palavra, e que o outro fique mal.”
Caminhos possíveis
Tavares afirmou que não é impossível superar as guerras culturais. A via em que ele mais insistiu ao longo da conversa foi a dos chamados “objetos de desejo político”, definidos como metas tangíveis que só podem ser alcançadas coletivamente. Exemplos desses objetos seriam a luta pelo fim da escala 6×1, no Brasil, e pela semana de quatro dias, em Portugal.
“Antigamente, o sindicato não era só o sindicato. Ele era o grupo de futebol, a biblioteca operária. E isso significava que as pessoas iam lá e faziam amigos. Criavam laços de solidariedade. E aí, quando conquistavam algo, não alcançavam apenas o objeto de desejo político, mas também esses laços e histórias”, disse o historiador. “Histórias estas que, ao contarem como eles conseguiram ganhar suas lutas, impediam as novas gerações de se perderem no labirinto das guerras culturais”, completou.
Ainda no domingo (31), Tavares participou de uma conversa mediada pela jornalista Julia Duailibi no Tablado Literário Bubu. Ele aprofundou a discussão sobre as guerras culturais e disse que, para serem definidas assim, elas precisam polarizar a sociedade, envolver identidades, valores e narrativas, e despertar forte intensidade emocional.
Ao comentar o avanço da polarização com a âncora da GloboNews, Tavares criticou a ideia de que os eleitores tomam decisões apenas com base em interesses materiais. “Não é só o dinheiro que conta. Há um lado da autopercepção que é gerador de efeitos políticos”, disse. Para ele, o peso das identidades e dos afetos é essencial para entender por que candidatos ou projetos aparentemente contrários aos interesses econômicos de seus apoiadores conseguem mobilizar multidões.
Inversão de papéis
Um exemplo curioso apresentado pelo historiador foi o chamado caso Rosa Calmon (1899-1901), que mobilizou Portugal no início do século 20. Tavares contou que, na época, a filha de um cônsul brasileiro desejava ingressar na vida religiosa, enquanto o pai tentava impedi-la. O caso dividiu jornais, intelectuais e partidos políticos.
“Os progressistas ficaram do lado do pai e contra a liberdade da mulher. Já os conservadores católicos defenderam seu desejo e sua liberdade de entrar no convento. As posições se inverteram”, observou. Para ele, o episódio demonstra como as guerras culturais podem reorganizar alianças e embaralhar princípios ideológicos.
Encerrando a conversa com Duailibi, o historiador recorreu a duas figuras históricas que atravessam Hipocritões e olhigarcas: Franklin D. Roosevelt e Luís de Camões. Ao comentar uma célebre frase do presidente americano — “a única coisa que devemos temer é o próprio medo” —, Tavares destacou que o verdadeiro desafio contemporâneo não é apenas o medo, mas a capacidade de lidar com mudanças cada vez mais rápidas e disruptivas. Citando versos de Camões, disse: “A mudança mudou”.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Tinta-da-China Brasil e Instituto Camões e teve interpretação de libras da EducaLibras.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.