Ministério da Cultura apresenta
O botânico italiano Stefano Mancuso e a jornalista Maria Guimarães n’A Feira (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘Somos a espécie mais burra que já apareceu no planeta’, diz Stefano Mancuso

Botânico e filósofo italiano defende cidades mais verdes e reforça que ‘as plantas conversam muitíssimo’ por meio de moléculas químicas

05jun2026

O botânico italiano Stefano Mancuso defendeu uma transformação profunda das cidades para enfrentar a crise climática, com menos espaço para carros e mais árvores, parques e áreas de convivência n’A Feira do Livro, na praça Charles Miller, na tarde de quinta (4).

Ao relacionar urbanismo, saúde e evolução humana no Palco da Praça, o autor de Fitópolis (trad. Regina Silva, Ubu, 2026) argumentou que os seres humanos mantêm uma ligação biológica profunda com as plantas e citou estudos que mostram os benefícios da natureza para a recuperação de pacientes hospitalizados, a aprendizagem e o bem-estar.

“As cidades devem ser consideradas um ecossistema. Hoje, elas são monoculturas humanas”, afirmou.

Inspirado em como a organização das plantas pode inspirar uma nova forma de conceber as cidades, Mancuso sugeriu que as administrações municipais tenham coragem de fechar ruas para transformá-las em espaços de convivência e arborização. Segundo ele, a resistência inicial da população tende a desaparecer rapidamente. 

Stefano Mancuso (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“Fechem 20% das ruas, um pouco de cada vez. Depois de alguns meses, ficará tão claro o número de vantagens diante da pequena quantidade de incômodos, que todas as outras ruas também vão querer ser assim”, disse, arrancando aplausos do público.

Plantas no cotidiano

Ao comentar a presença das plantas no cotidiano humano, o botânico lembrou que a espécie humana evoluiu em íntima relação com as árvores. “Nós não vivíamos com as plantas, vivíamos em cima das plantas”, afirmou. 

Para ele, o corpo humano ainda carrega as marcas dessa origem arborícola, e a simples exposição à cor verde produz efeitos fisiológicos imediatos. “Nos primeiros trinta segundos, o cortisol [hormônio do estresse] diminui em 30%. O batimento cardíaco cai, a pressão também diminui”, explicou.

Nessa linha, o pesquisador citou estudos científicos que demonstram benefícios da presença de vegetação em hospitais e escolas. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o de um hospital americano em que pacientes internados em quartos com vista para árvores apresentavam recuperação mais rápida, consumiam menos analgésicos e recebiam alta antes dos demais. 

Para ele, a raiz do problema está na concepção moderna de cidade. Em tom crítico, observou que os espaços urbanos foram historicamente planejados como ambientes apartados da natureza. 

(Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“Sempre imaginamos o lugar onde vivemos como algo diferente do resto da natureza”, disse. 

Ao analisar modelos urbanos tradicionais, ironizou: “As cidades desenhadas por arquitetos são muito bonitas, mas não têm uma graminha sequer. Nem seres humanos aparecem nos projetos”.

Língua das árvores

A conversa ainda avançou para a discussão sobre sustentabilidade e alimentação. Mancuso apresentou dados sobre o uso global das terras agrícolas para defender uma redução no consumo de produtos de origem animal. Sem propor o vegetarianismo como obrigação, argumentou que pequenas mudanças poderiam gerar impactos gigantescos. 

“Se reduzíssemos em 25% o consumo de alimentos de origem animal, já teríamos espaço para plantar 2 trilhões de árvores. Quando falamos do que devemos fazer pelo planeta, imaginamos sacrifícios insustentáveis. Mas muitas soluções exigem muito menos do que pensamos”, afirmou. “O nosso tipo de alimentação não é apenas insustentável. É ridículo.”

Questionado pela plateia sobre o negacionismo climático, o pesquisador classificou o fenômeno como uma das maiores contradições da contemporaneidade. “Pela primeira vez desde que o método científico existe, aquilo que a ciência diz se tornou uma opinião política”, afirmou. 

Para ele, a negação do aquecimento global ignora um consenso científico sem precedentes sobre o que considera “o problema mais grave que a humanidade já teve no curso da sua história”.

Sobrevivência da espécie

Foi nesse contexto que o escritor fez uma de suas declarações mais firmes da tarde. Ao comparar o comportamento humano com o de outras espécies, disse: “Eu realmente julgo que nós somos a espécie mais burra que já apareceu no planeta”. Segundo ele, a humanidade perdeu de vista o objetivo fundamental compartilhado por toda forma de vida: a sobrevivência da espécie. 

“Tudo o que fazemos serve à sobrevivência do indivíduo. Quando olhamos para os problemas do ponto de vista da humanidade, os resultados são completamente diferentes.”

Público assistindo à mesa A Fitópolis de Stefano Mancuso (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

O pesquisador comentou ainda iniciativas ambientais em grandes centros ao redor do mundo e como elas poderiam ou não ser seguidas. Elogiou as políticas urbanas feitas em Paris nos últimos anos, sob a administração da ex-prefeita Anne Hidalgo: “Precisamos de prefeitos jovens e de mulheres”. 

Em tom de crítica, disse que a maioria dos governos veem no plantio de árvores a solução de todos os problemas ambientais, a exemplo da Etiópia, que conseguiu plantar 350 milhões de árvores em doze horas, mas que viu boa parte não conseguir sobreviver nos anos seguintes: “É fácil plantar milhões de árvores, muito mais difícil é mantê-las vivas”.

Comunicação das plantas

Nos momentos finais da conversa, o cientista falou sobre a comunicação entre plantas, tema que se tornou uma de suas principais áreas de pesquisa — e sobre a qual escreveu no best-seller Revolução das plantas: um novo modelo para o futuro (trad. Regina Silva, Ubu, 2019). “As plantas conversam, e conversam muitíssimo”, disse.

Stefano Mancuso (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

O italiano diz que elas trocam informações por meio de moléculas químicas capazes de transmitir mensagens complexas, como pedidos de socorro ou alertas sobre falta de água. 

“Já encontramos a molécula que significa ‘socorro’, a que significa ‘não tenho mais água’, a que diz ‘estão comendo minhas folhas’ etc”. Para Mancuso, decifrar essa linguagem vegetal é uma das fronteiras mais promissoras da ciência contemporânea.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.