A FEIRA DO LIVRO 2026,
Angela Lago foi uma Suzy Lee nascida em outra época, diz Odilon Moraes
N’A Feira do Livro, o ilustrador conversou com Aline Abreu sobre o legado de inventividade e experimentações da escritora e ilustradora mineira
02jun2026Incorporar a transparência de um papel na narrativa, contar uma história só com desenhos e brincar com os ângulos do livro para expandir as possibilidades de uma trama. Essas e outras inventividades estão na obra da escritora e ilustradora Angela Lago (1945-2017), referência da literatura infantojuvenil e da experimentação em livros ilustrados no Brasil.
Vencedora do prêmio Jabuti e três vezes indicada ao Prêmio Hans Christian Andersen, que é considerado o Nobel da literatura infantojuvenil, a autora foi homenageada n’A Feira do Livro no fim da tarde de segunda (1º), em uma conversa entre Aline Abreu e Odilon Moraes mediada por Rita da Costa Aguiar.
“Os livros da Angela convocam o corpo como um todo. Mesmo que você esteja numa leitura silenciosa, você tem acidentes. Ela vai provocando a gente o tempo inteiro”, disse Abreu, que encontrou, nas obras da autora, a inspiração e a liberdade para se encontrar, ao mesmo tempo, como ilustradora e pesquisadora de arte conceitual.
“Ela expunha esse modo de fazer, da experimentação e da busca por um livro que ainda não foi feito, enquanto estava sempre olhando para trás, para a tradição”, disse Abreu. “Angela foi uma grande estudiosa da história do livro; ela sabia de tudo que tinha sido feito e unia isso ao pensamento de jogar o livro para frente.”
Mouse
Os primeiros livros ilustrados da autora foram publicados nos anos 80 e 90, quando a limitação técnica afetava a produção e impressão de obras – desafio que Lago usava em favor de suas histórias. “Logo de cara, me impressionou, no trabalho dela, a conexão com esse raciocínio da arte contemporânea que mostra, não esconde”, disse Abreu.
Rita da Costa Aguiar lembrou que, quando a arte digital ganhou espaço, Lago passou a experimentar e desenhar no computador com uso do mouse, sem esconder que o fazia. Mas, na primeira fase de sua obra, antes das tecnologias computadorizadas e do livro digital, Lago não enxergava seu trabalho como experimentação, de acordo com Odilon Moraes.
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“Ela não pensava que estivesse inovando, mas sim recuperando ideias artísticas de séculos anteriores, tudo que foi esquecido da história desse objeto”, contou Moraes, antes de lembrar que Lago dizia que “livro é palavra, imagem e objeto. É só saber misturar esses três. É com essa mistura que eu vou experimentando”.
Virar esquinas
Durante a conversa, os autores e ilustradores resgataram outra frase de Lago, que dizia para se virar uma página como quem vira uma esquina em busca de algo que ainda não viu.
“Angela chamava o leitor para jogos diferentes em cada livro e nesse jogo ele descobria a linguagem”, disse Moraes. Porém, ela propôs os jogos e jogou as regras fora, brincou o ilustrador ao descrever Lago como uma “Suzy Lee nascida anos antes”.
A autora sul-coreana, conhecida por seus “livros silenciosos”, trabalha a ausência de palavras e o formato do livro para contar histórias, como revelou em um volume que mostra os bastidores de sua produção, A trilogia da margem (trad. Cid Knipel, Cosac & Naify, 2012).
Na conversa, Moraes ainda lembrou de A raça perfeita (2004), livro em que Lago misturou recortes de fotografias de cachorros para mostrar como um cientista maluco realizava seus experimentos com os animais.
“Se Eva Furnari ilustrasse esse livro, ia ser um livro engraçado. Mas Angela faz colagens com fotos e nos mostra a realidade nos olhos dos cachorros, esbugalhados — dá um frio na espinha”, descreve Moraes. “O uso da fotografia trazia uma carga de realidade que, para essa história, era preciso para chocar. Ela fez com que você deixasse se assustar.”
“Angela trabalhava assim o tempo inteiro”, disse Abreu. “Em O personagem encalhado, há um grampo na página central e ela o usa como parte da trama. Ela testava esses limites.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.