Ministério da Cultura apresenta
A escritora e jornalista Gaía Passarelli (Camila Almeida/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘Tive que encontrar a minha própria maneira de viajar’, diz Gaía Passarelli

A escritora e a jornalista Paula Carvalho discutiram os desafios e a invisibilização histórica das experiências de mulheres viajantes

31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

Por muitos séculos, a tradição da literatura de viagem foi contada a partir dos relatos de homens. Mas a mesa Mulheres viajantes, inspirada no livro homônimo da pesquisadora portuguesa Sónia Serrano (Tinta-da-China Brasil, 2025), mostrou como essa narrativa deixa de fora uma longa história de deslocamentos, descobertas e escritos produzidos por mulheres. Reunidas n’A Feira do Livro, no Espaço Motiva Tablado Literário, a escritora e jornalista Gaía Passarelli e a jornalista e historiadora Paula Carvalho discutiram os obstáculos enfrentados por viajantes de diferentes épocas e como essas experiências continuam ecoando no presente.

Para Carvalho, a história da literatura ocidental ajudou a consolidar um imaginário no qual viria do homem o ímpeto de partir para guerras ou aventuras, enquanto a mulher deveria permanecer à espera — algo que se reflete na figura de Penélope na Odisseia, de Homero, que foi celebrada por aguardar fielmente o retorno de Ulisses por duas décadas. “A Sónia [Serrano] mostra justamente o contrário: as mulheres sempre viajaram. O problema é que muitas vezes elas não escreveram ou não tiveram seus relatos preservados”, afirmou a autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo, trad. Mariana Delfini, 2022), que reúne relatos da viajante suíça (1877-1904). 

A historiadora Paula Carvalho (Camila Almeida/Terebi/A Feira do Livro)

Autora de Mas você vai sozinha? (Globo Livros, 2016), Passarelli contou que sua experiência como repórter de viagens a levou a perceber que os modelos clássicos dos viajantes que admirava não correspondiam à sua realidade. “O sonho que eu tinha de ser o Paul Theroux ou o Anthony Bourdain não ia acontecer porque eu sou uma mulher brasileira viajando. Tive que encontrar a minha própria maneira de viajar”, disse. Ela lembrou que o título de seu livrosintetiza uma pergunta que muitas mulheres escutam não apenas ao viajar, mas em diversas situações cotidianas: “Mas você vai sozinha?”.

A conversa também abordou as estratégias encontradas por mulheres para circular em espaços historicamente hostis. Entre os exemplos citados, estavam viajantes que se vestiam como homens para ter mais segurança ou liberdade. Segundo Carvalho, a questão da roupa revela muito mais do que uma escolha estética. “Parece um detalhe mundano, mas não é. A forma de se vestir envolve segurança, mobilidade e até questões financeiras. Viajar como mulher sempre exigiu negociações que os homens raramente precisam fazer”, ressalta a historiadora.

Caminhos

Ao comentar a persistência de desigualdades, Passarelli observou que o controle sobre os deslocamentos femininos continua real. “A mulher ainda é colocada nesse lugar de que precisa justificar por que está viajando, por que está sozinha ou por que se colocou naquela situação”, afirmou. Ela citou a repercussão da morte da publicitária e montanhista brasileira Juliana Marins, em junho de 2025, após ser abandonada por seu guia em uma trilha na Indonésia, como exemplo de uma reação que frequentemente desloca a responsabilidade para a própria viajante.

(Camila Almeida/Terebi/A Feira do Livro)

As autoras também repensaram o próprio conceito de literatura de viagem. Para Carvalho, obras contemporâneas como as da velejadora brasileira Tamara Klink e da antropóloga norueguesa Erika Fatland ajudam a deslocar a ideia da viagem como descoberta de territórios “virgens” ou desconhecidos. “Desconhecidos para quem?”, perguntou a historiadora. Em vez da exploração, o foco passa a ser o encontro, a observação e a escuta dos lugares e das pessoas.

Questionadas sobre a preservação dos relatos de mulheres viajantes, ambas demonstraram otimismo. Passarelli ressaltou que pesquisas como a de Sónia Serrano e o trabalho de historiadoras vêm ampliando o repertório de nomes conhecidos. “Essas histórias estão sendo procuradas, traduzidas e publicadas. Isso aumenta a chance de que outras mulheres sejam descobertas e lidas”, disse. Carvalho completou que a questão agora não é apenas recuperar essas vozes, mas garantir que elas continuem circulando e que perdurem para os próximos séculos.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Tinta-da-China Brasil e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.