Por que a literatura do homem é universal e a nossa tem sobrenome?, questiona Carla Madeira 
Ministério da Cultura apresenta

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Por que a literatura do homem é universal e a nossa tem sobrenome?, questiona Carla Madeira 

A mineira e a paulistana Mariana Salomão Carrara comovem e divertem o público em conversa sobre as possibilidades da linguagem e a universalidade da escrita de mulheres

06jun2026

Um dos encontros mais aguardados d’A Feira do Livro, Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara participaram da mesa É sempre a hora, no Palco da Praça, na noite de sexta-feira (5).  As escritoras comoveram e divertiram o público ao contar sobre seus processos de escrita, refletir sobre as possibilidades da linguagem e criticar o rótulo de “literatura feminina” na conversa mediada por Iara Biderman, jornalista e editora da Quatro Cinco Um. 

“A escrita é uma experiência corpórea; é o corpo que escreve”, afirmou Madeira, diante de uma plateia silenciosa, que acompanhou com entusiasmo cada fala da escritora. Autora de best-sellers como Tudo é rio, A natureza mordida e Véspera, publicados pela Record, a escritora avalia que seu envolvimento com a voz dos personagens sofreu um adensamento. 

O envolvimento com as histórias, explica, não ocorreu somente em uma dimensão subjetiva ou de técnica literária, mas tem exigido, cada vez mais, uma disposição física. 

“Fico muito envolvida e esse envolvimento tem um gozo, uma alegria, porque é muito bom quando a gente está completamente envolvido numa coisa que a gente gosta de fazer e quer fazer. Tem o sofrimento de experimentar a situação junto com o personagem e tentar ao máximo emprestar o corpo para ele”, explicou.

Narradoras

Mariana Salomão Carrara deu voz pela primeira vez a seus personagens há vinte anos, ao publicar o romance Idílico, ainda nos tempos da faculdade de direito. Duas décadas depois, ela encarna um narrador homem no recém-lançado Cláudia Vera Feliz Natal (Todavia), no qual narra a história de um juiz indeciso. Para o romance transpõe a experiência cotidiana de observação do ambiente jurídico, no qual atua como defensora pública.  

As escritoras Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Não foi tão diferente, porque os mesmos temas estão lá. Eu só desloquei o olhar — o que volta a falar de nós [mulheres]”, disse, sobre a escolha do narrador. “Claro que era um homem muito peculiar, com mais dificuldade de entrosamento do que o normal, mas eu queria trazer um pouco do que eu sinto em relação à intimidade entre os homens. Isso também vai o deixando mais solitário.”

Nos romances anteriores, segundo Carrara, a voz e os sentimentos dos objetos e seres da natureza guiaram a narrativa e criaram outras sensibilidades. Foi assim em A árvore mais sozinha do mundo (Todavia), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2024, em que a árvore assume a primeira pessoa. 

Solidão

A literatura das escritoras tem temas em comum, como a solidão, a perda, a passagem do tempo e a violência contra as mulheres. Para Madeira, o tipo de narrador interfere diretamente na forma como a história se desenrola. No entanto, a autora confessa que não costuma traçar um cronograma rigoroso antes de escrever. 

“A minha voz vem de uma curiosidade com os personagens”, contou. “Talvez porque eu não seja uma autora de muito planejamento, vou encontrando a história à medida que escrevo. Às vezes, é algo tão brutal que é preciso a mediação da linguagem para conseguir olhar para aquilo e para que o leitor consiga se colocar um pouquinho no lugar daquele sujeito, que, às vezes, é abominável.”

As duas provocaram gargalhadas na plateia ao elogiar o trabalho uma da outra. “Se cada leitor da Carla comprar um livro meu, eu chego em um milhão”, brincou Carrara. “Depois você me conta como faz para ganhar o Prêmio São Paulo de Literatura”, respondeu Madeira.

Literatura feminina 

As autoras criticaram a tentativa de enquadrar uma produção extensa, diversificada e consistente de mulheres escritoras em um universo estritamente feminino. “Por que a gente está toda hora com esse sobrenome na literatura feita por mulheres? É literatura. Vai ser muito bom quando a gente não precisar mais ficar carregando esses complementos”, disse Madeira.

A escritora recorreu à imagem da Terra fotografada da lua pelos astronautas da missão Artemis II, em abril. Para ela, a dimensão da fotografia foi reveladora para a escrita do seu novo romance, Quando, ainda inédito.

“Vi a imagem e pensei: o que eu estava fazendo na hora da foto? Acho que eu estava decidindo se o [personagem] Tito ia bater ou não na porta da mãe dele. Parece uma coisa tão miúda, mas é imenso. O tamanho do universo para fora, muitas vezes, é o tamanho do universo para dentro. Então, por que a literatura do homem é universal e a nossa tem um sobrenome?”, questionou.

Carrara concordou com a colega e acrescentou que criar, desde pequena, histórias de homens, mulheres, objetos inanimados, entre outros seres conhecidos e desconhecidos, é um “exercício de entrega” para outras vidas, todas possíveis de serem encarnadas.

“Criar histórias de pessoas que não sou eu sempre foi a minha paixão. Essas histórias que não são autoficção — não são baseadas na minha experiência e nem em pessoas que eu conheço — acionam o mesmo mecanismo da infância, um lúdico dramático que me interessa muito”, disse. “É um exercício também de empatia para me entregar a vidas que não são a minha.”

Após o papo, o público formou uma longa fila de espera para encontrar as autoras e autografar seus livros.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Mariana Moreira

É jornalista e roteirista carioca. Atua nas coberturas de cultura, gênero e direitos humanos.