Ministério da Cultura apresenta
A escritora Tracy Mann (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘Fiz uma carta de amor à Bahia e às pessoas’, diz Tracy Mann 

A norte-americana, que escreveu memórias sobre convívio com artistas brasileiros, se emociona ao lembrar de Preta e Pedro, filhos de Gilberto Gil

30maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

“Como se aproximar do sol para sentir seu calor, observar suas labaredas, sem se queimar?”. A pergunta feita pelo escritor João Paulo Cuenca, no posfácio que escreveu para O mundo todo é Bahia: memórias do Brasil, de Tracy Mann, ecoou na mesa Enquanto corria a barca, conversa entre ele e a escritora e tradutora nova-iorquina na tarde deste sábado (30), durante A Feira do Livro 2026. Como um vislumbre do que foi, para ela, conviver com grandes estrelas da cultura brasileira, entre as quais Gilberto Gil, Caetano Veloso e Dominguinhos, num período extraordinário para a música e as artes em geral no país. 

Com mais de cinquenta anos de relacionamento com o Brasil, desde que desembarcou por aqui em 1973 como uma jovem estudante de dezessete anos em intercâmbio, Mann repassa no livro os episódios que, como obra do destino, a levaram à Salvador dos anos 70. A chegada foi em São Paulo, onde ela se surpreendeu com as visões conservadoras da elite local. 

O escritor João Paulo Cuenca e a escritora Tracy Mann (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Foi desafiador”, disse, lembrando dos conflitos com a educação liberal recebida da família baseada em Nova Jersey. “Empregada [doméstica] foi uma coisa nova pra mim. Ou pessoas indígenas e negras. Eu tocava nesses pontos e ninguém falava disso comigo.”

Tudo mudou quando ela foi parar na Bahia, depois de conhecer amigos baianos da família da atriz Vera Zimmermann, com quem se hospedou. Em Salvador, Mann aproximou-se de um jovem músico — com quem viveu uma história de amor — líder da banda Bendegó, cujos integrantes tocavam também com Caetano Veloso. 

Numa viagem da banda a Ouro Preto, teve contato com a turma mineira do Clube da Esquina. “A Tracy é o Forrest Gump”, brincou Cuenca, que mediou o encontro e destacou “o poder narrativo” do livro, recém-lançado pela Laranja Original em tradução de Santiago Nazarian, por descrever “vividamente as experiências” da autora.

De nova amizade em nova amizade, Mann conheceu Dominguinhos, que a levou para viver na casa de Gilberto Gil no bairro soteropolitano Boca do Rio. Ao recordar desse momento da vida, ela se comoveu com a lembrança dos dois filhos de Gil que morreram, Pedro e Preta, com quem brincava na época em que eram crianças. “Não tem como não se emocionar”, disse.      

Bahia

A pedido de Cuenca, Mann leu o trecho do livro em que conta como o título O mundo todo é Bahia lhe foi soprado por Gil. Numa visita ao Rio de Janeiro, hospedada em um apartamento onde o cantor também estava, ela o encontrou numa manhã meditando em posição de lótus sobre um tapete oriental no corredor.

“Eu vou de mansinho como uma borboleta me sentar na frente dele, para não incomodar. Sou um amontoado de pele e osso tentando me juntar em algo coerente. No fundo de sua meditação, não tenho certeza se ele sabe que estou aqui, mas sentar pertinho assim já é bom. Ver o subir e descer de seu peito a cada respirada”, disse a escritora, lendo o excerto. 

Depois do fim da meditação, Mann revelou a Gil que estava preocupada com sua situação de imigrante em plena ditadura — ela temia não conseguir renovar seu visto de estudante — e enfrentava o dilema sobre ficar ou deixar o Brasil (e a Bahia). Gil então abriu bem os olhos e lhe disse: “Não se preocupe tanto em deixar a Bahia para trás. O mundo todo é Bahia, Tracy”.

“Na hora eu não entendi — e não sei o que ele quis dizer exatamente”, disse a escritora durante a mesa no festival literário. “Mas Bahia não é um lugar físico para mim. Como adolescente, foi uma porta aberta para o mundo. Tudo o que eu estudo, o que eu quero ser hoje, veio da convivência com pessoas que cuidaram de mim com tanto carinho.”  

Tracy Mann (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“As coisas que a gente vive nessa época são as primeiras vezes — primeira viagem, primeiro amor”, refletiu sobre a juventude. “Essas memórias ficaram tão vívidas que consegui colocar no livro. Recontando, mantenho isso vívido em mim e no mundo”, afirmou a autora, que definiu o livro como “uma carta de amor e reconhecimento a pessoas que contribuíram tanto com minha história de vida”. 

“Houve um período em que eu pensei que o Brasil tinha ficado para trás na minha vida”, admitiu Mann. O destino, porém, voltou a agir. Ela se casou com um engenheiro de som do cantor Sérgio Mendes, radicado nos Estados Unidos, e passou a trabalhar assessorando turnês de músicos brasileiros no país. Ainda escreveu letras em inglês para músicas de Gil, Caetano, Milton Nascimento e Djavan, entre outros — algumas gravações ganharam o Grammy. Nos últimos anos, tornou-se uma espécie de embaixadora do Brasil no festival de inovação SXSW (South by Southwest). 

Com Gil o reencontro foi em Nova York no início dos anos 90, quando o amigo Jon Pareles, crítico musical do New York Times, a levou a um show do cantor na cidade. Mann pensou que ele não se lembraria dela. “Tracy! Quanto tempo, menina”, disse Gil ao revê-la, segundo ela.

Questionada sobre por que decidiu colocar suas memórias no papel, Mann disse que as memórias não pertencem só a ela. “Minha história faz parte do patrimônio brasileiro; é também a história de vocês.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Laranja Original e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista, é editor da Quatro Cinco Um

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.