A FEIRA DO LIVRO 2026,
Amelinha Teles: Nossa democracia só vai ser alcançada de fato com as mulheres
Com Camilo Vannuchi, a militante torturada pela ditadura destacou participação feminina na luta pela memória
07jun2026A batalha por justiça em lembrança aos perseguidos pela ditadura militar foi ressaltada com dois testemunhos muito pessoais na mesa Lutar para lembrar, no Auditório Museu do Futebol, na tarde de domingo (7), n’A Feira do Livro.
A militante e educadora popular Amelinha Teles, que foi torturada no DOI-Codi em São Paulo, afirmou que a sua vivência lhe ensinou o seguinte: “Nós estamos fazendo história, mas temos que registrar e estudar a história do Brasil, recuperar essa história, para a gente realmente poder consolidar uma democracia”, afirmou ela na mesa, que teve mediação de Juliana Borges, colunista da Quatro Cinco Um.
Teles, que integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, é autora de Contos da cela três (Ema, 2024), memórias escritas originalmente em 1973, quando se tornou presa política no DOPS, depois da passagem pelo DOI-Codi.
Ela conversou com o jornalista e escritor Camilo Vannuchi, que acaba de lançar Nunca mais (Discurso Direto), no qual narra os bastidores da operação secreta montada ainda durante a ditadura por advogados, religiosos, pesquisadores e jornalistas para copiar e analisar 707 processos judiciais contra perseguidos políticos que haviam chegado ao Superior Tribunal Militar (STM).
O autor, finalista do Jabuti com Vala de Perus, uma biografia (Alameda, 2020), é filho de Paulo Vannuchi e primo de Alexandre Vannucchi Leme, estudante de geografia da USP torturado até a morte no DOI-Codi em São Paulo, em 1973 — ele narra essa história em Eu só disse meu nome (Discurso Direto, 2024).
“Sou filho e sobrinho de presos políticos; primo em segundo grau de um morto pela ditadura. Então tem a ver com o lugar de onde eu vim”, disse Vannuchi. “Passei a trabalhar com a ideia de memória e verdade pensando na construção do futuro.”
Tortura
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Teles recordou não só os dias que passou no DOI-Codi, mas também o terrível episódio da morte de Sônia Maria de Moraes Angel Jones, militante assassinada em 1973, no temível endereço da rua Tutoia, na capital paulista. Após uma sessão de tortura, o delegado do DOPS Lourival Gaeta, conhecido como Dr. Mangabeira, ordenou que ela fosse enforcada, para que a morte parecesse um suicídio. Como Sônia não deixou de respirar, o torturador deu ordem para que um rato fosse inserido na vagina da vítima.
Teles hesitou antes de relatar essa história n’A Feira. “Eu fico com pena do público. Ninguém merece ouvir o que foi essa ditadura”, afirmou ela. Ao mesmo tempo, destacou a importância de se conhecer a verdade e não se deixar a versão contada pelos militares ser considerada a definitiva.
Ela também ressaltou a participação das mulheres na luta contra o regime militar e, especialmente, pela democracia: “A nossa democracia só vai ser alcançada de fato com as mulheres. E tem uma razão — somos mais da metade da população e as mais oprimidas em qualquer lugar do mundo”.
Vannuchi fez coro e lembrou de figuras como Eunice Paiva e Clarice Herzog, incansáveis na luta pela verdade a respeito da morte de seus maridos, respectivamente Rubens Paiva e Vladimir Herzog, assassinados pelo regime militar nos anos 70.
Em seu novo livro, o jornalista buscou investigar a operação sigilosa com os processos do STM para além dos nomes mais conhecidos, como Dom Paulo Evaristo Arns, Jaime Wright, Eny Raimundo Moreira, Sigmaringa Seixas e Luiz Eduardo Greenhalgh.
“Queria saber quem xerocou, quem microfilmou tudo e mandou para Genebra para construir um backup, quem leu — eram mais de um milhão de páginas. Tinha muito cacique; queria ver quem eram os operários”, comentou.
Vannuchi arrematou a mesa com um questionamento: “Quem são os jornalistas, os religiosos, os advogados aguerridos que topam defender a nossa democracia em 2026?”.
*A mesa teria a participação da ativista de direitos humanos Railda Alves, que não pôde comparecer.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.