Ministério da Cultura apresenta
O geógrafo Kauê Lopes dos Santos e a antropóloga Paula Sibilia (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Kauê Lopes dos Santos: Brasil inclui, mas de forma desigual

O autor de ‘Parcelado’ e a antropóloga Paula Sibilia falaram sobre consumo, endividamento, bets e o fim da escala 6×1

05jun2026

Em conversa bem-humorada sobre temas sérios n’A Feira do Livro, nesta sexta (5), o geógrafo Kauê Lopes dos Santos e a antropóloga Paula Sibilia discutiram como a lógica do consumo vem substituindo aspectos importantes da vida em sociedade, como a mobilização por direitos. Mediado por Anna Virginia Balloussier, repórter especial da Folha de S.Paulo, o debate passou por assuntos que estão na ordem do dia do debate público, como o endividamento da população, a proliferação das bets e o fim da escala 6×1.

Autor do recém-lançado Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia (Fósforo), Lopes dos Santos contou como seus entrevistados na periferia de São Paulo apontavam as telecomunicações, que os mantêm conectados, como melhoria na infraestrutura das comunidades em que moram, ainda que não tenham acesso a, por exemplo, saneamento básico.

Kauê Lopes dos Santos (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

“O discurso aposta no sujeito individualizado. Se eu tenho um problema na escola do meu filho, a saída mais rápida é pelo consumo; é colocar na escola particular e não se mobilizar para melhorar a escola pública”, disse. 

Nesse cenário, segundo ele, a possibilidade de acesso a objetos de consumo, tema de seu livro, oferece a falsa sensação de mobilidade social. “Se a gente conversa com essas pessoas, entende a dignidade que uma TV de plasma dá a elas”, observou. “Diante da escassez, objetos ocupam um lugar simbolicamente importante.”

Lopes dos Santos ressaltou que, no Brasil, país que tem as maiores taxas de juros do mundo, um dos efeitos desse acesso a bens é mais desigualdade. “A pessoa vai comprar a TV, mas vai pagar juros maiores. A gente inclui, mas de forma desigual. É um pouco isso a nossa forma de sociedade.”

Argentina radicada no Rio de Janeiro, Sibilia analisa, em Eu mereço!: da velha hipocrisia aos novos cinismos, lançado agora pela Ubu, como a cultura do autoempoderamento e o pensamento individualizado quase sempre resultam em ansiedade e frustração. 

“As dinâmicas do mercado ganharam áreas de nossas vidas. Por isso falamos em ‘investir’ num relacionamento, no ‘custo-benefício’ das experiências”, disse n’A Feira a antropóloga, que apontou como, ao mesmo tempo, a crise das instituições e os escândalos de corrupção diminuem a crença em um Estado capaz de resolver os problemas da população. “Isso contribui para que o consumo seja a solução.”

Sociedade do parcelamento

Balloussier questionou os autores sobre os motivos de os bons indicadores da economia do governo Lula não se converterem em popularidade, tema de artigo publicado na Folha de S.Paulo pelos economistas Laura Carvalho e Guilherme Klein. Para Lopes dos Santos, não se trata da situação particular de um governo, mas de um problema crônico. 

“A sociedade do parcelamento vem se consolidando, com instituições financeiras associadas a grandes redes varejistas”, disse. “Isso vai colocando as famílias no limite. Antes se poupava para comprar, agora só se olha o valor da parcela.”

Paula Sibilia (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Sibilia chamou a atenção para como o endividamento se tornou uma condição naturalizada nos dias de hoje. “A dívida já não é o que era. Antes era algo disfuncional, que se quitava e se normalizava. Agora a norma é estar endividado e continuar consumindo”, afirmou. A antropóloga lembrou como essa lógica do endividamento se espraia por todos os aspectos da vida: “Estamos sempre em dívida com séries que temos que ver, livros que temos que ler”. 

Ao discutir o que chama em seu livro de “cinismo contemporâneo”, Sibilia falou sobre o comportamento de grupos misóginos, que vem se espalhando em redes sociais. Para ela, a questão tem ligação com esse pensamento individualizado. “O sujeito está frustrado, mas pensa que a culpa não é dele, já que merece tudo. Então, a culpa é sempre do outro, que pode ser as mulheres, as feministas, os imigrantes.”

Bets

Respondendo a uma pergunta da plateia, Lopes dos Santos abordou o tema das bets, plataformas digitais que viraram motor de endividamento das famílias brasileiras. Para ele, a discussão tem focado mais nos apostadores e influenciadores que promovem as bets e menos em quem as desenvolve, os responsáveis de fato. 

“Quem são as pessoas por trás das bets? A gente não conhece a cara delas. Me parece que esse é um tema maior. Só responsabilizamos o jogador, o endividado, e corremos o risco de moralizar a questão.” 

Lopes dos Santos mencionou também o fim da escala de trabalho 6×1, aprovado recentemente na Câmara, ao responder sobre a popularização do empreendedorismo no país. Para o autor de Parcelado, nem todos os trabalhadores poderão aproveitar o tempo livre que a nova lei proporciona. 

“Embora, em tese, a medida seja para ter mais tempo livre e aproveitar a vida, muitas pessoas vão ocupar esse tempo com mais trabalho. É o que está se anunciando, sobretudo no campo da informalidade. As pessoas não acessam as mesmas coisas da mesma forma.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista, editor da Quatro Cinco Um e mestrando em Teoria Literária na USP