A FEIRA DO LIVRO 2026,
Gregorio Duvivier estica e dobra a língua portuguesa para fazer rir e pensar
Celebrando o lançamento de Aos pés da letra, humorista adapta seu espetáculo em palestra-show que lotou A Feira do Livro
04jun2026O ator e escritor Gregorio Duvivier ofereceu um passeio pela língua portuguesa ao público que lotou o Palco da Praça e o gramado da praça Charles Miller na noite de quarta (3) para assistir à palestra-show Aos pés da letra. O espetáculo apresentado n’A Feira do Livro é uma versão do livro homônimo, recém-lançado pela Companhia das Letras, que por sua vez é um desdobramento da peça O céu da língua, que já soma mais de 300 mil espectadores.
Munido de um retroprojetor, um canetão e algumas transparências, Duvivier apresentou palavras e expressões, contou histórias sobre o nosso idioma e fez aquilo que sabe fazer melhor: arrancar gargalhadas da plateia.
Como quando protestou contra a queda do hífen em tomara que caia, que perdeu o sinal após a última reforma ortográfica: “Era ele que impedia a peça de cair. Cai o hífen, caiu a palavra toda”. “Queria que a gente chamasse um desafeto de ‘tomara que morra’, uma palestra de ‘tomara que acabe’. Em Portugal é bem menos poético, ‘tomara que caia’ é ‘cai cai’”, observou.
No próprio livro, ele brinca com seu descontentamento em relação ao Acordo Ortográfico que no Brasil entrou em vigor em 2009 e limou hífens e acentos variados. Na página de créditos do livro Aos pés da letra, um asterisco após o aviso de que a grafia foi atualizada informa: “Pra desgosto do autor”.
A energia do palco transbordou para o gramado da praça, onde o público, já entrando em clima de feriado, conseguiu acompanhar a performance através do telão. Após a apresentação, Duvivier ficou mais de uma hora e meia assinando autógrafos para os fãs, que fizeram uma longa fila para celebrar o artista.
Diálogo português
Em vários momentos do show, Duvivier cita palavras que do outro lado do Atlântico assumem uma roupagem diferente ou usos típicos dos lusitanos, como o da segunda pessoa em “falhaste”. “A segunda pessoa do pretérito perfeito é duríssima, para nós ela é bíblica. Ninguém merece ouvir isso, quanto mais uma criança de cinco anos.”
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Esse diálogo com Portugal já havia aparecido no espetáculo Um português e um brasileiro entram num bar, que Duvivier apresentou com o humorista e escritor português Ricardo Araújo Pereira, autor de Coisa que não edifica nem destrói (Tinta-da-China Brasil, 2025). Essa peça foi encenada pela primeira vez em 2017.
Diversas figuras da literatura e da poesia também foram lembradas, como Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Alejandro Zambra e Shakespeare. Mas a principal delas talvez tenha sido Clarice Lispector.
“A poesia em Clarice acontece por um problema de dicção”, brincou Duvivier, ao recordar a entrevista na qual a autora de A hora da estrela fala, com seu sotaque carregado, “Eu morri no Recife, eu morri no Nordeste”, para se referir ao local onde morou.
“Por mais que Clarice tenha chegado ao Brasil muito cedo, com dois anos de idade, seu olhar para a língua parece sempre o de uma criança descobrindo — e estranhando — as palavras”, comentou.
Foi com esse olhar de descoberta e estranhamento — e muito riso — que Duvivier conduziu o público d’A Feira do Livro por ditongos, paroxítonas e acentos circunflexos, palavras do francês e do tupi, passagens da Bíblia e letras de Chico Buarque e Caetano Veloso. Do céu da língua aos pés da letra.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.