A FEIRA DO LIVRO 2026,
Falar de memória lésbica é falar de direitos e cidadania, diz Julia Kumpera
A historiadora conversou com Erika Palomino sobre o aspecto político dos espaços de sociabilidade LGBTQIA+
06jun2026A construção da memória de lugares onde pessoas da comunidade LGBTQIA+, mas não só, puderam conviver e se expressar livremente foi tema do encontro entre a historiadora Julia Kumpera e a jornalista e curadora Erika Palomino no Palco da Praça neste sábado (6). Com mediação de Renan Quinalha, editor da seção Livros e Livres da Quatro Cinco Um, as duas falaram sobre espaços seguros de sociabilidade e identidade, n’A Feira do Livro.
“Como é possível não ter uma placa identificando esse lugar?”, se questionou Kumpera, lembrando da primeira vez que localizou o prédio onde funcionou o Ferro’s Bar, reduto lésbico no centro de São Paulo que foi palco de uma importante revolta contra a violência policial em 1983. O levante das lésbicas: uma história do Ferro’s Bar, recém-lançado pela Autêntica, é o resultado da pesquisa em que ela busca recuperar esse capítulo da história do movimento LGBTQIA+ no Brasil.
“Não é casualidade que não haja uma marcação desse lugar e que esse seja o primeiro livro a contar essa história”, disse a autora. “Há um discurso de que falar sobre memória lésbica é algo muito específico, mas é falar sobre direitos e cidadania no Brasil, violência policial, uma série de assuntos. Há um apagamento em uma cidade e em um país que ainda se pensa de forma heterossexual”, acrescentou, sob aplausos da plateia.
Autora de Babado forte: 35 anos de cultura jovem no Brasil (Ubu, 2024), reedição de dez anos de seu estudo pioneiro sobre a noite, Palomino contou que nos anos 90, época da publicação da primeira versão do livro, sair à noite era visto só como ato de hedonismo ou diversão — mas já era um ato político, afirmou.
“O livro não é só sobre a noite, é sobre formas de existir. Sobre pessoas que inventaram um lugar para si, seus amigos, que não o achavam na sociedade”, disse a jornalista, que assinou durante anos na Folha de S.Paulo a coluna Noite Ilustrada, sobre a cena noturna que deu origem a Babado forte.
“Uma das razões de trazer o livro de volta é que essa mensagem estava se perdendo. Queria que fosse um manifesto, um convite para que não houvesse retrocessos, que não perdêssemos um espaço que foi tão difícil conquistar”, completou.
Colagem
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Kumpera, que não chegou a conhecer o Ferro’s Bar, contou como foi o narrar a história do levante, com a qual teve contato durante o mestrado em história. “Esse livro foi uma grande aventura, uma colagem”, disse sobre as fontes que utilizou: entrevistas de mulheres que frequentaram o espaço, um documentário sobre o bar feito pelo coletivo Cine Sapatão e documentos levantados pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.
“Também me apoiei em matérias de jornal para ver o que se falava na imprensa sobre os espaços de circulação de pessoas LGBT pela cidade. Procuro trazer um pouco das músicas, do teatro, das manchetes de jornal. Fui instigada a trazer o cheiro de couro da época”, brincou.
Palomino, que conheceu o Ferro’s Bar, também falou sobre as mudanças de comportamento que testemunhou em cada geração ao responder uma pergunta do público sobre o sempre anunciado “fim da noite”.
“Meu livro também se presta a fazer um documento de como se vivia antes da internet. Era preciso sair de casa para saber o que estava acontecendo. As subculturas se davam em torno de afinidades”, contou.
Para a jornalista, a chegada da internet e dos celulares, com câmeras e redes sociais registrando nossas vidas quase em tempo real, mudou inegavelmente os hábitos. Isso não significa que gerações como a Z e a alfa estejam menos interessadas na vida noturna.
“O clube tinha a mesma função dos aplicativos de paquera de hoje. Mas a cada geração temos necessidade de encontrar o outro, do poder do encontro. Isso segue, vai seguir”, disse.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.