A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘A escrita foi a minha maior interlocutora’, diz Bárbara Belloc
A autora argentina e a paulistana Lilian Sais emocionam plateia em conversa confessional sobre luto e família
04jun2026“A escrita foi a minha maior interlocutora”, confessou a escritora e tradutora argentina Bárbara Belloc, no início da tarde desta quinta feira (4), no Palco da Praça d’A Feira do Livro, em conversa com a escritora paulistana Lilian Sais. A conversa aconteceu na mesa Loucura é um bem de família, que toma emprestado o título do livro da autora platense e foi mediada por Ana Lima Cecilio.
As escritoras compartilharam o processo de escrita de seus livros mais recentes, que abordam a morte dos pais. Belloc, autora de A loucura é um bem de família (Trad. Flávia Falleiros, Numa, 2026), contou que saía para caminhadas silenciosas depois das visitas à mãe com Alzheimer no hospital e, enquanto tentava dar conta da despedida iminente, buscava recantos onde a escrita pudesse surgir quase como um diário.
“A princípio eu não achava que tinha um livro. Mas ele nasceu a partir de uma tragédia dupla: a internação de minha mãe exatamente um mês após a morte do meu pai. Isso tudo durante a pandemia. Quando eu a visitava no hospital, encontrava uma outra pessoa, diferente da mãe que eu conhecia, então precisei reconfigurar meu mundo. Na volta para casa, eu ia a um bar e lá comecei a tomar notas”, relembrou a autora, que ressaltou o aspecto natural de refúgio nos cadernos durante as noites e madrugadas.
Sais recorreu a um outro tempo cronológico e de publicação para recompor as memórias que surgiram quando recebeu a notícia da morte do pai. A maneira de narrar deu forma aos livros Palavra nenhuma (Círculo de Poemas, 2024), A cabeça boa (DBA, 2025), Diario de casa nova (Macondo, 2025) e agora As regras (DBA, 2026).
“Eu sentava para escrever, e meu pai aparecia nas histórias; eu não conseguia escapar disso. Meu companheiro me disse: ‘o seu pai é o seu tema, é a enchente que invade sua prosa e sua poesia’. Eu não sabia como escrever os livros, mas havia caminhos. Escrevi As regras a partir dos jogos a que [eu e meu pai] assistimos juntos. Ele nunca foi de grandes conversas, mas, quando a gente falava de futebol, eu sentia que a gente conversava sobre a vida”, contou.
Ficção versus realidade
Entre confiar no rastro da memória e construir uma narrativa alocada totalmente num âmbito autoficcional, e que faça sentido para os leitores e leitoras, Sais afirma que a tetralogia, encerrada com As regras, abriu espaço para que ela pudesse testar diferentes estruturas, resultado de uma prática experimental.
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Ela explicou que evita pensar em como o livro vai ser classificado e que preferiu, ao menos ao longo da escrita dos volumes da tetralogia, deixar-se levar pela intuição e pela liberdade do fluxo criativo.
“Não é bem ‘aquilo que aconteceu’ ou ‘como aconteceu’, mas ‘como contar’ aquilo que seja do interesse dos outros. Publicar, no entanto, é outra etapa. A gente confunde. No processo, fui gostando e achando sentido naquilo que eu estava fazendo. Percebi que eu estava tentando me comunicar com algo humano através da linguagem”, disse Sais.
Diferente da experiência de Sais, Belloc contou que manteve uma prática diária de anotações e que não pensava em publicar. No entanto, o ritmo das anotações, noite após noite, produziu um efeito narrativo que a argentina comparou ao de uma composição musical. Segundo ela, o ritual para manter a coerência era, antes de recomeçar a escrever, refazer todos os dias uma leitura sempre a partir da primeira página.
“A cada vez que eu voltava, a cada noite, eu lia do início para retomar o ritmo. Escrevi mesmo sem a intenção de publicar. Só quando terminei e pus o ponto-final é que pensei: ‘já não preciso de mais nada’.”
Sem culpa
Ao fim do encontro, a dupla confessou que as publicações marcam mudanças nos tempos de suas vidas e permitem uma nova compreensão da relação com seus pais. Sais avaliou que, entre seus quatro títulos, As regras é a negociação póstuma que conseguiu fazer com o pai.
“Minha mãe faleceu em 2008 e sua morte foi o fim de um processo muito longo de um câncer terminal. Fiz tudo o que pude para estar com ela. Já meu pai foi se afastando, mas eu não sabia o motivo. E um dia chegou a notícia da morte dele. A minha culpa tem a ver com essa sensação de que eu deveria ter estado mais presente. Esse livro é, então, um acerto de contas, porque meu pai era muito quieto e eu sou escritora, trabalho com palavras.”
Belloc diz que viveu períodos bons e ruins com a mãe. A surpresa mais bonita, contou, foi perceber a maturidade e o aumento do afeto entre as duas nos momentos finais que viveram juntas. “A relação com minha mãe, tirando minha infância, foi uma guerra entre duas leoas. Uma das coisas mais lindas, a partir de tudo que se passou, foi que nosso vínculo mudou. E aí não existia mais culpa, só amor”, disse, emocionada.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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