A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘Futuro não é a mesma coisa que inovação’, diz Fernando José Almeida
O educador e a jornalista e pesquisadora Januária Cristina Alves defenderam a formação crítica diante do poder das plataformas digitais na vida dos jovens
06jun2026Na tarde de sexta (5), a pesquisadora Januária Cristina Alves e o educador Fernando José de Almeida colocaram em perspectiva alguns dos principais desafios da relação entre educação, juventude e tecnologia no Brasil. O encontro, na mesa De olho nas redes, aconteceu na sexta-feira (5), no Auditório Museu do Futebol, n’A Feira do Livro.
A jornalista Paula Miraglia, mediadora da conversa, partiu do paradoxo de que o país avança na regulação das plataformas digitais e na restrição do uso de celulares nas escolas, mas segue entre os líderes mundiais em consumo de redes sociais. Para os convidados, é unânime a ideia de que não existem soluções simples para problemas complexos.
Ao abordar a proibição dos celulares nas escolas, a autora de Educação midiática na prática (Edições Sesc), destacou que experiências internacionais já mostram os limites das medidas que excluem o aparelho nas salas de aula.
Citando estudos recentes e exemplos de países como a Austrália, ela afirmou que os jovens continuam encontrando formas de acessar as redes. “A nossa vida é on-line também”, relatou Alves, reproduzindo a fala recorrente de adolescentes com quem conversa em projetos de educação midiática. Para ela, o desafio é compreender que o ambiente digital faz parte da vida social das novas gerações.
Já o autor de Educar as tecnologias: elogio à presença e aos tempos de pensar (Edições Sesc) propôs uma inversão da pergunta que costuma orientar o debate educacional. Em vez de questionar o que as tecnologias podem fazer pela educação, ele provocou: “O que nós podemos perguntar às tecnologias?”. Para o educador, a tecnologia “não foi feita para educar”, mas pode ser apropriada pedagogicamente.
“Nós, educadores, não trabalhamos com a economia do tempo”, criticou Almeida, apontando que a lógica das plataformas é a de prometer acelerar processos de aprendizagem em detrimento da profundidade de conhecimento.
Mais Lidas
Durante a conversa, Alves relatou o caso de uma mãe solo de uma comunidade do Rio de Janeiro que, diante da falta de alternativas seguras para os filhos, exigiu que as autoridades cobrassem das plataformas maior responsabilidade sobre os conteúdos oferecidos. A pesquisadora lembrou que, em muitas regiões periféricas, o celular é a principal ferramenta de acesso à internet e aos estudos.
Ao discutir o papel das famílias, Almeida alertou para o que chamou de “elogio à ignorância”, ideia promovida por parte da cultura digital contemporânea. “Não é mais necessário memorizar informações porque tudo está disponível nos mecanismos de busca, que enfraquecem a construção do conhecimento e da identidade. Agora, se eu perco a memória, eu perco a identidade cultural, pessoal e psicológica”, afirmou.
Otimismo
A crise da leitura e do consumo de notícias entre os jovens mobilizou a segunda parte do debate. Alves disse estar preocupada com pesquisas que apontam a preferência dos adolescentes por influenciadores digitais em detrimento dos veículos jornalísticos. “Os jovens com quem converso dizem ‘eu prefiro que o influenciador que eu sigo comente o que está acontecendo do que acessar a notícia’”, comentou.
“Ainda assim, não é isso que fará o jornalismo deixar de ser relevante. Os seres humanos precisam de histórias para compreender o mundo e a si mesmos”, disse Alves. Para ela, a geração mais nova tem medo de sair da internet e estar “perdendo coisas”, porque não entendem que sair da internet tem outros ganhos.

Ao final, Almeida criticou a associação automática entre inovação e qualidade educacional. “É preciso parar de achar que futuro é a mesma coisa que inovação. Não é”, disse. Para ele, a escola deve formar jovens capazes de distinguir o que é apenas novo daquilo que efetivamente representa avanço social e humano. “O conhecimento é um prazer. Agora, o que as tecnologias podem fazer pela educação? Eu diria que nada”, disse entre risadas da plateia.
Apesar do tom preocupado, os autores encerraram a conversa em uma nota esperançosa. “Me perguntam por que eu sou otimista. Bem, esse é o meu livro de número sessenta, então eu tenho que ter esperança. Desistir não é uma opção”, afirmou Alves.
Enquanto isso, Almeida defendeu que a construção de uma sociedade mais humana depende da capacidade de disputar os rumos dos algoritmos e fortalecer espaços de convivência e reflexão crítica.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.