Ministério da Cultura apresenta
O escritor nigeriano Chukwuebuka Ibeh (Divulgação)

A FEIRA DO LIVRO 2026, Livros e Livres,

A perda da inocência

Em sua estreia, Chukwuebuka Ibeh constrói um romance maduro, explorando o que jovens gays negociam para pertencer e sobreviver

13maio2026 | Edição #106

Quando a sua forma de existir fere a comunidade da qual você faz parte, há espaço para viver sem se sentir amaldiçoado? Em Bênçãos, Chukwuebuka Ibeh constrói, em sua estreia na literatura, um sensível romance de amadurecimento, tensionando as instituições que controlam as sociedades e ensaiando um futuro de possibilidades apesar do sofrimento.

Ambientado em Porto Harcout, Nigéria, cidade natal do autor, o romance nos apresenta a história do menino Obiefuna, que sente o coração errar as batidas quando Aboy, o mais novo ajudante de seu pai, chega em sua casa para ficar. Morar com um jovem misterioso, atraente e da mesma faixa etária coloca os hormônios do jovem Obiefuna em ebulição. Mas qual chance uma paixão entre dois garotos tem de florescer entre as paredes de uma família conservadora?

Quando Anozie, pai de Obiefuna, flagra os dois rapazes em uma cena para ele indigesta, o protagonista é ejetado de casa para um novo mundo onde os obstáculos parecem ainda mais ameaçadores. Anozie o matricula em um internato religioso para meninos como uma tentativa de salvá-lo da homossexualidade. A partir daí, o autor conduzirá seus leitores por caminhos tortuosos, enquanto narra o quão desafiador pode ser o ato de crescer rodeado por normas que determinam quem devemos ser. 

Para discutir masculinidades, Ibeh nos faz degustar seu prato cheio não pelas beiradas, mas pelo meio mesmo. Desce quente e amargo. Obiefuna se vê encurralado pela tríade família-escola-igreja, instituições que, segundo Pierre Bourdieu, estabelecem um modelo de homem a ser seguido, perpetuando o projeto do patriarcado. Não é difícil imaginar o que o protagonista vai encontrar num internato cristão.

Ibeh é capaz de sondar as motivações por trás das ações dos personagens, sem entregar respostas óbvias

Não obstante, entender a relação entre o significado de bênção e o de maldição com base em algumas das diversas tradições nigerianas pode nos ajudar a entender a escolha do autor pelo título. Entre os igbos, por exemplo, é possível dizer, com base no conceito de ofo na ogu, que a proteção está para aqueles que agem com retidão, e que bênçãos são resultados de se estar alinhado com uma ordem moral. Romper com essa ordem social significa se expor a um desequilíbrio que gera consequências severas. A própria vida se encarregará de fazer chegar uma suposta justiça. 

É nesse cenário que acompanhamos o jovem Obiefuna sobreviver, desenvolver-se e enfrentar os anos do ensino médio (tal qual nos clássicos romances de formação). Com habilidade em desenvolver personagens complexos sem medo de abraçar as contradições do ser humano, o autor insere na jornada de Obiefuna as amizades, paixões, sonhos, desafios, desejos e ineditismos da adolescência, deliciosos de se ler (de viver, nem sempre): a primeira carta de amor, o primeiro beijo, o primeiro ato sexual.

O monitor veterano o guiou para baixo. Ele não estava usando cueca por baixo do short. Cheirava a sabonete de lavanda, Obiefuna aceitou-o na boca […] aguentou firme mesmo quando uma onda salgada encheu sua boca.

Há o alento de acompanhar o ponto de vista de Uzoamaka, mãe de Obiefuna, uma mulher que se debate contra as amarras de uma relação patriarcal em busca de reestabelecer a conexão com o filho “perdido”. O amor por Obiefuna e a forma com que ela enfrenta uma tragédia anunciada podem deslocar uma compreensão maniqueísta da homofobia estrutural para entendimentos mais complexos, como a escassez de recursos de muitas famílias para lidar com as diferenças, apesar do amor. “Você não é o pior dos pais. Ninguém te ensinou a amar um filho que fosse diferente”, diz ao marido.

Ao dar espaço ao drama da mãe, a história deixa de se passar somente no internato e respira outros ares, aprofundando a premissa narrativa.

Uzoamaka estava pensando, sentada na sala de espera do hospital, sobre a branquitude. As paredes do hospital, o teto, o piso de ladrilho, até mesmo os uniformes dos médicos e enfermeiros […], parecia estranha toda aquela pureza, a promessa imaculada de perfeição. 

Riscos

Chukwuebuka Ibeh nasceu em 2000, mas tem uma escrita madura e bastante visual, elogiada pela também nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Capaz de sondar a crueza das motivações por trás das ações de seus personagens, sem entregar ao leitor respostas óbvias, o autor cria boas elipses para sobrevoar clichês e assume riscos — como a última parte, que alguns leitores podem considerar curta para uma satisfatória introdução de tantos novos personagens e tramas. Observo essa tentativa como um exercício menos feliz que o restante do romance, mas ainda assim rico, político e incomum aos romances de formação escolares que costumam terminar sempre no mesmo ponto.

Em um país como a Nigéria, onde a relação entre pessoas do mesmo sexo é criminalizada por lei, a homossexualidade é vista como um desvio da ordem. Esse projeto político-cristão de herança colonial não escapa aos olhos de Ibeh. Na verdade, mordisca as primeiras páginas e vai devorando todo o restante, numa alegoria à forma como pessoas dissidentes se percebem no mundo. Dentro de casa, talvez se possa esconder o desejo aqui e ali, mas do lado de fora as fronteiras determinam com mais intensidade quem herdará para sempre um não lugar. 

Bênçãos quer questionar o que negociamos enquanto nos esforçamos para pertencer e sobreviver. “Bem, acho que, em geral, histórias de amor como a nossa não costumam ter finais felizes”, diz um amigo de Obiefuna. Gosto de como Ibeh assume em sua ficção que não, para pessoas como Obiefuna, não será possível escrever um mar de rosas. As relações homoafetivas não serão puro alento, e talvez não haverá um final feliz. 

Para escrever sobre um sistema que rouba a chance de crianças gays viverem a inocência do amor precoce da adolescência, o autor parece mais preocupado em mostrar que, como na vida, pessoas vêm e vão, portas se abrem e se fecham, amores crescem e desfalecem, mas sobretudo, e apesar de tudo, ninguém deveria ser considerado amaldiçoado por desejar alguém do mesmo sexo. Na verdade, esta é uma verdadeira bênção.

Quem escreveu esse texto

Stefano Volp

Escritor, roteirista e jornalista, é autor de Santo de casa (Record).

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “A perda da inocência”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

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