Ministério da Cultura apresenta
O jornalista Fernando Morais e o editor Eduardo Sombini (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘A disputa no PT para a sucessão de Lula será maior em 2030 do que seria hoje’, diz Fernando Morais

Biógrafo lança segundo volume da trilogia que detalha o projeto político do partido e os mandatos do presidente

07jun2026

Ao longo de uma hora, o jornalista Fernando Morais fez uma revisão das mais de três décadas de trabalho dedicadas à escrita da biografia Lula, cujo segundo volume acaba de ser lançado pela Companhia das Letras. E vê uma questão maior para um futuro próximo do partido: a falta de um sucessor claro.

Compartilhando dilemas da vida de biógrafo, passou por diversos momentos da história recente, como o início do Partido dos Trabalhadores e os mandatos do presidente da República. Morais ainda adiantou detalhes do terceiro volume da biografia, que foca as crises enfrentadas e os programas sociais implantados por Lula. O jornalista refletiu também sobre as eleições de outubro e um possível quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O encontro do público com Morais, mediado pelo editor da Ilustríssima, Eduardo Sombini, aconteceu na noite de sábado (6) e fez parte da programação d’A Feira do Livro em conjunto com a Folha de S.Paulo

Biógrafo e biografado

Quando, em 2002, Lula se elegeu pela primeira vez e Morais lhe apresentou a ideia de biografá-lo, o biógrafo pensava em seguir os passos do historiador norte-americano Arthur M. Schlesinger Jr., autor de Mil dias: John Fitzgerald Kennedy na Casa Branca, registro dos três anos de mandato do presidente americano, publicado em 1966.

“Kennedy e Schlesinger eram amigos, tinham uma relação fraterna, e combinaram que o livro teria a ótica do Salão Oval. Mas o combinado acabou que não foi assim”, contou Morais, explicando que a mudança de roteiro foi forçada pelo assassinato de Kennedy, em novembro de 1963.

O jornalista Fernando Morais (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A princípio, Lula se mostrou resistente a ter sua vida retratada, embora Morais fosse alguém em quem confiasse e cujo trabalho respeitasse. Até que cedeu. Em 2011, após a eleição da ex-presidenta Dilma Rousseff, Lula — a quem Morais trata por “senhor” — o convidou para tomar café da manhã. 

“Lula me contou que visitava algum país da África e o repórter Jon Lee Anderson, da New Yorker, quis escrever sobre ele. Lula lhe disse que a fila era longa e que ‘já tinha o Fernando’. Ali ele se deu conta que não era uma obsessão minha, e começamos a trabalhar, gravando”, contou Morais. “Para minha sorte, Lula dorme pouco e fala muito”, brincou, provocando risos na plateia.

Personagem vivo

Lula é um personagem, acrescentou o biógrafo, que demanda a compreensão não só do indivíduo, mas também de uma legião de pessoas do contexto político brasileiro e mundial.

Morais revelou que a proximidade com um “presidente confidente” foi se transformando num conflito ético. Apesar de a escrita se beneficiar da convivência íntima e sem restrições, Morais se fiou nos anos de experiência como repórter para manter a retidão e lidar com um personagem vivo, imprevisível.

“Ele fala tudo. O personagem vivo traz essa dificuldade, mas ser jornalista me ajudou; não se ama nem se odeia o personagem. Não sou autor de não ficção por escolha, mas por ser uma continuidade da minha profissão, e o distanciamento é um dogma”, contou Morais. “Algumas vezes, adverti o presidente da minha imparcialidade; ele respondeu: ‘Você cuida do seu livro, que eu cuido da minha vida’.”

Futuro pós-Lula

O terceiro volume da biografia ainda está em processo de edição e Morais adianta que irá tratar dos acontecimentos que não só marcaram os últimos anos, mas garantiram um legado consistente para dar prosseguimento ao projeto político idealizado pelo Partido dos Trabalhadores em meados dos anos 80. 

Entre eles, Morais destacou a ampliação do acesso à universidade pública por meio da política de cotas e da criação de mais instituições federais de ensino, o enfrentamento das crises, e o amadurecimento da visão política de Lula sobre a complexidade da sociedade brasileira.

“Lendo os dois exemplares, o leitor percebe que o Lula do primeiro volume leva o Lula do segundo a ter uma clareza maior a respeito do grau de conservadorismo da sociedade brasileira. O terceiro volume vai passar, sobretudo, sobre as crises, os ganhos, os programas sociais, como o Bolsa Família, o Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida e também o Mensalão e a Lava Jato. Vai mostrar um pouco a crise que leva ao golpe contra a Dilma, aquela tentativa de fazer do Lula ministro para salvar o mandato dela, e a degola”, detalhou Morais.

A visão pragmática de biógrafo e jornalista não inibe Morais de se mostrar um cidadão otimista e inspirado pelas mudanças das últimas décadas democráticas. Confessou, inclusive, ter votado em Lula em todas as candidaturas do petista, com exceção da primeira, em 1989, quando votou em Ulysses Guimarães. E disse estar seguro de que Lula levará o quarto mandato, apostando inclusive numa vitória no primeiro turno.

Para Morais, a dificuldade não está nas próximas eleições, que ocorrem em outubro deste ano, mas na escolha de um herdeiro político para o futuro, ainda indefinida. Ele chamou atenção para os anos por vir, que serão, segundo ele, mais difíceis que os atuais, apesar de confiar numa nova geração de políticos.

“Em 2030, a disputa no PT para a sucessão de Lula será maior do que seria hoje. Rodando pelo Brasil, vejo uma grande quantidade de lideranças que terão importância política no país e poderão suceder o presidente”, concluiu, esperançoso quanto ao futuro.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Mariana Moreira

É jornalista e roteirista carioca. Atua nas coberturas de cultura, gênero e direitos humanos.