Ministério da Cultura apresenta
O historiador e compositor Nei Lopes e o escritor e sociólogo Tulio Custódio (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Nei Lopes: ‘A cultura popular é o próprio conhecimento’

O historiador e compositor celebra o lançamento de autobiografia e revê mais de cinquenta anos dedicados à escrita e à produção intelectual negra no país

05jun2026

O compositor, historiador, dicionarista, pesquisador africanista e sambista carioca Nei Lopes encerrou em grande estilo a programação oficial d’A Feira do Livro de quinta (4), feriado de Corpus Christi. A conversa Samba e afins com Nei Lopes, conduzida, no Palco da Praça, pelo escritor e sociólogo Tulio Custódio, marcou o lançamento de O “robusto” menino de Irajá: doces lembranças, eternas saudades, autobiografia do autor, recém-lançada pela Mórula Editorial.

Durante o encontro, ele relembrou histórias de infância, explicitou sua paixão pelo estudo do direito e defendeu a cultura popular. “A cultura popular é o próprio conhecimento”, afirmou o compositor.

Foi em Irajá, tradicional bairro da Zona Norte, no subúrbio do Rio de Janeiro, que o compositor passou os primeiros anos de vida. Filho de Eurydice de Mendonça Lopes e do pedreiro Luiz Braz Lopes, o autor é o caçula de quinze irmãos. Ainda na infância ele percebeu que poderia dedicar sua vida às artes.

O historiador e compositor Nei Lopes (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Venho de uma família de operários, uma família grande, muito querida, que deu a esse pequeno caçula todas as possibilidades que viviam em mim. E eu procurei trafegar por várias oportunidades já na infância, desenhando, dançando, cantando. Tempos atrás, o fato de ser músico não tinha muito brilho — era aquela coisa de achar que todo músico é vagabundo, que anda com violão embaixo do braço. Percebi muito cedo que isso não era verdade e caminhei dentro disso”, contou Lopes. 

Lopes contou que, antes de se dedicar ao estudo da cultura africana no Brasil, os primeiros anos de formação em direito foram fundamentais para que compreendesse as origens do racismo e os processos de exclusão social da sociedade brasileira. 

Ele foi o primeiro integrante da família a concluir o ensino superior, ainda na década de 60. A visão que tinha do exercício da profissão de advogado foi profundamente marcada pelo golpe militar de 1964. 

“Eu queria criar alguma coisa que mostrasse aos interessados a importância da minha família, ali na virada do século 19 para o 20. Fui o primeiro a conseguir ultrapassar a barreira do ensino. Eu me formei e, dois anos depois, o Brasil caía numa ditadura das mais terríveis, com o silenciamento das vozes populares. O rádio não dizia nada, ninguém sabia o que estava acontecendo, e a gente estava sendo massacrado pela ditadura militar de uma maneira muito terrível”, relembrou.

Dicionarista

Durante a mediação, Custódio ressaltou que um dos aspectos mais consistentes da obra de Lopes é a sua prática minuciosa de catalogar verbetes e criar dicionários. 

A rigorosa atividade de pesquisa etimológica e social é uma das atividades mais longevas do escritor, autor de títulos como Dicionário literário afro-brasileiro (Pallas), Dicionário de africanismos nas Américas e Dicionário da história social do samba, ambos publicados pela Civilização Brasileira, sendo que o último foi escrito com o historiador Luiz Antonio Simas e ganhou o Prêmio Jabuti de Livro do Ano, na categoria de não ficção, em 2016.

O historiador e compositor Nei Lopes (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

É uma forma, define Lopes, de cultivar o prazer da descoberta de si e, consequentemente, do Brasil. “Eu acho que o dicionário é um grande instrumento de trabalho, um dos maiores. Desde muito cedo eu adquiri essa mania, que hoje me conduz a muitas coisas interessantes. Eu tenho vários dicionários e busco a origem de palavras do léxico brasileiro — e muitas têm o seu nascimento na África”, observou. “Vejo uma palavra, me sinto atraído por ela e vou ver de onde ela veio. É sempre dentro dessa perspectiva, principalmente, da ligação com a África.” 

Canção e identidade

Ao revisitar suas composições musicais, Lopes avalia que, hoje, elas são um dos pilares para se compreender a produção cultural dos povos colonizados no continente americano. Ele explicou que a música e as artes produzidas nas Américas fazem parte da identidade nacional dos países. De acordo com ele, o samba é a marca mais importante da cultura e da identidade do país.

“No caso específico da música popular, três focos são fundamentais para a música nas Américas: a música brasileira, a música caribenha, principalmente em Cuba, e a música norte-americana. Por quê? São a cara do povo. O samba é isso — as pessoas raramente compreendem porque não conhecem a história”, concluiu Lopes sob aplausos demorados e reações exaltadas do público.

Antes de terminar, Lopes resolveu transformar a conversa em um breve sarau. Ovacionado pela plateia em diversos momentos, o autor leu um trecho de um dos seus dicionários acerca da origem do jazz, nos Estados Unidos, e logo voltou ao Brasil, cantando versos de “Justiça gratuita” (1999), samba de seu repertório.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Mariana Moreira

É jornalista e roteirista carioca. Atua nas coberturas de cultura, gênero e direitos humanos.