A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘Tem um fim dos tempos em disputa’, diz Bruno Torturra
Trio do Calma Urgente! avalia os efeitos da nova encíclica papal e faz alerta contra a linguagem ‘espiritual’ das big techs
04jun2026no final de maio, tem a ver com o futuro das grandes empresas de tecnologia?
De acordo com o jornalista Bruno Torturra, a economista Alessandra Orofino e o humorista e escritor Gregorio Duvivier, apresentadores do podcast Calma Urgente!, o documento é um sinal do que estará em disputa, pelo menos nos próximos anos, entre os governos e os donos das Big Techs.
Esse foi o tema proposto pelo trio para a versão ao vivo do podcast, que lotou o Palco da Praça e o gramado d’A Feira do Livro em um encontro acalorado e divertido na tarde de quarta-feira (3), na praça Charles Miller, em São Paulo.
Antes que a temática religiosa pudesse causar estranhamento na plateia, Duvivier brincou com o entusiasmo de Orofino com a escolha e disse que ela gosta de ser “Relações Públicas do Vaticano”. “O tempo todo ela tenta emplacar essa agenda. Mas a verdade, vamos lembrar, é que os católicos que elegeram Lula”, brincou Duvivier.
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“Eu falei ‘vai ficar elogiando o Papa numa altura dessas?’. Até que eu li a encíclica papal e, realmente, ela é espetacular! Quem diria que o Papa hoje estaria na vanguarda da luta contra as big techs?”, prosseguiu o humorista, ao explicar o caráter do texto do pontífice norte-americano, Robert Francis Prevost, que estabelece argumentos contra o uso que o capitalismo e o mercado financeiro fazem da tecnologia.
Para Orofino, a mensagem da publicação é relevante, justamente, porque ultrapassa os fiéis dispostos a ouvi-la. A carta se torna compreensível e influente também para outros campos políticos dispostos a criticar as ações extremistas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“É um Papa disposto a se meter na política interna dos Estados Unidos, o que em tempos normais não seria, necessariamente, nem interessante nem desejável. No momento atual, com um tirano no poder e as big techs com cada vez mais poder, é interessante que tenha alguém com o poder do Papa a fim de entrar nessa disputa política interna, porque ela passa a ter consequências para a humanidade inteira”, defendeu Orofino.
Linguagem cristã
Uma das características que favorece a expansão do discurso do Papa, analisa Torturra, é o uso instrumental da linguagem cristã.
O jornalista e podcaster observa que o discurso teológico foi assimilado por empresários e investidores de empresas de tecnologia, como Peter Thiel, um dos fundadores da Palantir (empresa americana de software e IA), e pode afetar a compreensão dos efeitos do avanço dessas tecnologias se não houver regulação.
“Tem um fim dos tempos em disputa. A conversa ganhou um tom teológico e transcendente pelos donos dessas big techs, que se comunicam em termos quase exclusivos das encíclicas. Eles prometem a vida eterna, diga-se, na nuvem”, avalia Torturra.
“Peter [Thiel] é um dos maiores investidores em inteligência artificial e viaja dando palestras sobre a visão cristã dele a respeito da IA. O papa vem defendendo o território da Igreja novamente. O que falta é uma visão mais material sobre o que está acontecendo.”
Matrix e leitura
Essa atmosfera de futuro incerto e conflitos mediados por líderes religiosos, máquinas inteligentes e tecnocratas fez Duvivier relembrar um clássico do imaginário futurista dos anos 2000, segundo ele: o filme Matrix (1999).
Dirigido pelos irmãos Lana Wachowski e Lilly Wachowski, a história narra a saga de Neo (Keanu Reeves), um programador escolhido para salvar a humanidade do domínio das máquinas. Duvivier afirma que o personagem, hoje, representa uma inversão do significado de aprendizagem.
“Aquilo ali era para mim o símbolo de um pensamento dos anos 2000 e de uma utopia futurista. Eles propõem uma panaceia para os problemas da humanidade, que é aprender tudo através de um download, mas é uma utopia péssima, porque o aprendizado está no tempo”, defendeu o escritor, aplaudido com entusiasmo pela plateia.
Duvivier também expressou preocupação com o uso indiscriminado da tecnologia e com a terceirização de tarefas que, segundo ele, são essenciais para a formação intelectual e para a análise crítica.
“Existe um conformismo muito estranho e a gente precisa sair dele. Não é parar de usar inteligência artificial para escrever os nossos textos, mas parar de usá-la para processar o nosso mundo”, afirma Duvivier, que também criticou a forma como usamos IA para tratar de tarefas burocráticas e acabamos despolitizando-as.
“Eu não considero, por exemplo, que um resumo ou um texto sejam isentos de agência. Não tem nada mais político do que a maneira como se resume um texto”, defendeu Duvivier, que após a mesa, encerrou a programação de quarta n’A Feira com Aos pés da letra, palestra-show que é uma adaptação de O céu da língua e que leva o nome de seu novo livro, lançado pela Companhia das Letras.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.