A FEIRA DO LIVRO 2026,
Risco do ensino de escrita é formar discípulos em vez de autores, diz Roberto Taddei
O romancista, que trabalha com formação de escritores, debateu com a atriz e autora Júlia Portes se é possível ensinar alguém a escrever
04jun2026É possível ensinar alguém a escrever? Foi essa pergunta que os escritores Roberto Taddei e Júlia Portes tentaram responder na mesa Aprender a escrever, no Auditório do Museu do Futebol, na manhã da quinta-feira (4) n’A Feira do Livro.
Taddei brincou que a pergunta feita pela mediadora Luana Chnaiderman tem mais de 2.500 anos — e segue sem resposta. “Não tem como escrever sem aprender, mas como eu aprendo, como é o processo, é outra questão”, afirmou ele, que coordena a pós-graduação Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz e acaba de lançar Ser escritor (Companhia das Letras).
O livro reúne nove textos que investigam a formação de uma voz literária a partir de autores clássicos e contemporâneos. A respeito da proliferação de publicações, cursos e oficinas de escrita criativa, Taddei fez uma ponderação.
“O grande risco do ensino de escrita é você formar não autores, e, sim, discípulos”, observou. “Ter professores que te obrigam a escrever do jeito que eles querem que você escreva. Se a gente trabalhar nesse registro, aí não se ensina a escrever; no máximo, ensina alguém a reproduzir alguma coisa.”
Ditos e não ditos
Portes concordou, mas ressaltou a importância de ambientes que proporcionem a coragem para dizer o que não se diz. “São talvez os mais frutíferos para a escrita acontecer”, afirmou ela, que conduz imersões de criação e escrita desde 2020.
“O que a gente faz nas minhas oficinas é tentar remexer no nosso lodo, nos nossos não-ditos, e criar um ambiente de intimidade para isso.”
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Essa liberdade também foi sublinhada por Taddei como fundamental para o processo criativo, no qual é preciso trabalhar o material. “Como favorecer que cada um consiga olhar para o seu próprio material com o máximo de liberdade possível e que trabalhe com consciência do que está fazendo — [ensinar isso] me parece o suficiente”, afirmou.
“Não preciso de aprovação maciça do público para ser reconhecido como escritor.”
Paradoxos
Taddei apontou um interessante paradoxo do processo de escrita. Segundo ele, talvez seja a única coisa na vida em que se pode fazer o que se quer.
“Quando a gente está escrevendo, podemos fazer qualquer coisa. A cada frase, a cada linha do texto, posso ir para a direita, para a esquerda, para a frente, para Marte. O texto é meu, não tem ninguém me dizendo que depois desta palavra obrigatoriamente tenho que colocar outra.”
Ao mesmo tempo, porém, à medida que se avança em um texto literário da primeira palavra à última, as possibilidades diminuem. “A história vai pedindo coisas e não tenho tanta liberdade. É uma relação bonita”, disse ele.
Portes, que é atriz e estreou na literatura com O céu no meio da cara (Nau), finalista do Prêmio Jabuti 2023, destacou outro paradoxo criativo.
“A gente não é dono da nossa escrita. Se a gente escreve uma coisa, vai no banheiro, volta e molha o papel, não sabe replicar o que escreveu exatamente. Adoro isso. É isso que cria um paradoxo no processo de aprendizagem”, disse ela. “Aprender não é apreender. Não é porque eu aprendi que eu sei, que eu domino. É isso que me dá vontade de escrever o próximo livro — eu não faço a menor ideia.”
Influências e inimigos
Ao comentar as imersões de escrita criativa que conduz, a autora afirmou beber de muitos campos, num amálgama de performance, teatro e literatura. “As pessoas leem em voz alta os próprios textos porque, na imersão, interessa que eu encarne o que escrevi ali e entre em contato com esse tremor.”
Quais os inimigos do processo criativo? Sem hesitar, Taddei deu nome aos bois: “pressa e expectativa de reconhecimento”.
“Pressa, porque acaba atropelando o processo e não prestamos atenção naquilo que estamos fazendo. E expectativa de reconhecimento, que, nessa coisa de qual palavra vem depois da outra, acaba influenciando a decidir para agradar mais”, explicou o autor dos romances Terminália (Prumo, 2013), Existe e está aqui e então acaba (e-galáxia, 2015) e A segunda morte (Companhia das Letras, 2023).
“A escrita literária é muito mais uma pergunta do que uma resposta. A expectativa de reconhecimento acaba forjando uma resposta — você quer botar uma no texto para chegar no público e ele reconhecer. A escrita literária é um convite, não é uma afirmação”, arrematou.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.