Ministério da Cultura apresenta
O designer paulista Gustavo Piqueira e a editora argentina Ana Mosqueda (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘Construo narrativas a partir da estrutura do livro’, diz Gustavo Piqueira

O designer paulista e a editora argentina Ana Mosqueda conversaram sobre design e história do livro

04jun2026

O Auditório do Museu do Futebol recebeu, na tarde da quinta-feira (4), n’A Feira do Livro, uma conversa entre a editora argentina Ana Mosqueda e o designer paulista Gustavo Piqueira sobre produção editorial e a história do objeto livro objeto. 

Mosqueda, além de editora e diretora da casa editorial Ampersand, é também pesquisadora e autora de Cartas sobre la mesa: correspondencias editoriales en la Argentina moderna (1900-1935) (Eudeba, 2021) e De re impressoria: cartas prologales del primer editor (Ampersand, 2022), ambos ainda sem edição no Brasil. 

Ana Mosqueda (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A conversa começou com Mosqueda contando que há vinte anos tinha muito interesse em estudar a história do livro, mas não encontrava na Argentina nenhum curso universitário especializado no tema de forma aprofundada. “Me parecia uma história comum, universal, uma história de que todos temos que saber”, disse. Nessa busca, foi estudar na Espanha e, ao final de seu doutorado, fundou a editora Ampersand, na Argentina. 

Ela falou também sobre os desafios e as particularidades da edição de livros, falando de sua experiência diversa com a editora Ampersand, que tem no catálogo de sua muitos livros técnicos e também muitas traduções. 

Cultura do livro

Gustavo Piqueira, que está lançando Warja Lavater: desenho como escrita como desenho (Lote 42), falou sobre o que o fez querer estudar a história do livro como objeto. Ele explicou que, de início, trabalha com o livro de três maneiras separadas: como designer, como ilustrador e, depois, como escritor. “Na época, eu considerava escrita o verbal. Hoje, quando eu falo ‘escrita’, estou considerando que qualquer coisa que eu faço num livro é escrita.”

O ponto de virada veio quando, depois de trabalhar com essas três frentes em paralelo, ele decidiu misturá-las. “E aí foi uma desgraça, porque o livro foi um fracasso”, contou. “Não sei se vocês já viralizaram nas redes sociais, mas não tentem. É horrível, eu fui avacalhado pela elite cultural.” A experiência ruim fez com que ele ficasse dois anos sem produzir nada. “Até que decidi tornar isso o tema do meu trabalho. No fim, foi o que me levou para a cultura do livro.” 

Gustavo Piqueira (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Ao estudar a história do livro, Piqueira disse que foi entendendo por que o sistema verbal é escolhido para expressar pensamentos mais profundos, por exemplo, ou por que o livro com imagem foi limitando-se ao universo da literatura infantil. “Toda a estruturação desses gêneros e de suas linguagens é fruto de um desenvolvimento editorial; não foi uma acomodação natural das coisas.” 

Como exemplo, Piqueira citou o colonialismo europeu no século 15 e 16. “A supremacia do alfabeto era também um programa de construção de valor de civilizações, umas sobre as outras”, disse. “A gente não percebe as estruturas que constroem o livro. E elas são diversas, definem os gêneros de livro e como cada linguagem deve se comportar nesse gênero.”

A partir disso, o designer hoje subverte o processo em seus livros. “Não é que eu faça um design diferente. Eu estudo os processos para usar outros elementos que constituem um livro como escrita; por exemplo, a produção gráfica”, explicou, mostrando um livro seu que parece uma caixa de formato triangular. “Estou construindo uma narrativa partindo das estruturas do livro”, concluiu.

Parceria

Ao ser provocada se a Ampersand tem espaço para publicações experimentais, como as de Piqueira, Ana Mosqueda revelou que os dois já estão planejando fazer algo juntos.

“Sou da linha acadêmica, mas, quando conheci o Gustavo, pensei que uma coisa é inovar por inovar e outra é inovar com um artista como ele. “Vamos ver se brigamos muito ou não”, brincou.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Beatriz Souza

Jornalista e produtora do podcast 451 MHz.