A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘Vou fazer a trilogia da desordem’, diz Natércia Pontes
Escritora cearense e a uruguaia Inés Bortagaray conversam sobre processo de escrita, infância e o fascínio em comum pela Barbie
06jun2026Uma escritora nascida em Fortaleza e outra em Salto, na fronteira do Uruguai com a Argentina, se encontram na tarde de sábado (6), no Palco da Praça d’A Feira do Livro. Com mediação de Vitor Pamplona, editor da Quatro Cinco Um, as escritoras Natércia Pontes e Inés Bortagaray conversaram sobre o processo de escrita de seus romances mais recentes, Vida doçura (Companhia das Letras, 2026), de Pontes, e Um, dois e já (Cambalache, 2026), de Bortagaray.
Pontes contou que a primeira versão de Vida doçura foi escrita quando tinha uns vinte e poucos anos. Ao retornar ao romance, acrescentou novos elementos. “Minha escrita é um processo de colagem: tomo notas, alongo os textos e os colo em cartolina.” Tanto em Vida doçura quanto em Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021), seu romance anterior, a escrita emula a desordem da vida dos personagens. “Vou fazer uma trilogia da desordem”, disse a escritora.
A bagunça do primeiro romance da trilogia se passa no apartamento onde vivem um pai acumulador e suas duas filhas adolescentes. Já em Vida doçura, a desordem do apartamento da protagonista, Jocasta, contrasta com a vida aparentemente organizada de Jovana, uma youtuber por quem Jocasta desenvolve uma obsessão. “Percebi que escrever livros é colocar em jogo sua maneira de viver.”
O nome da protagonista tem significado especial: “Usei o nome porque Édipo rei foi a última peça dirigida por minha mãe antes de se suicidar. Foi uma forma de mantê-la viva”, explicou Pontes, que comparou seu romance a uma sopa de tragédia grega.
Barbie
Um, dois e já, de Bortagaray, não é tão fragmentado — o breve romance se desenrola basicamente dentro de um carro, onde pai, mãe e dois filhos viajam de férias —, mas seu processo de criação também teve um pouco de caos. “Minha escrita é muito intermitente, tem a ver com problemas de disciplina, com a minha dispersão”, disse a uruguaia.
O romance de Bortagaray apresenta uma família sem grandes tragédias, mas faz pensar sobre conflitos familiares. “A infância é quando se toma consciência das perdas que virão. É uma fase da vida sem correspondência direta com os anos. Ela aflora ou não. Para mim, é natural que essa voz infantil respire na escrita”, disse Bortagaray. Pontes contou que, ao observar as filhas brincando, pensa: “O que elas fazem é o mesmo que faço quando escrevo”.
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As duas escritoras compartilham um fascínio pelo mesmo personagem: a boneca Barbie. “A Barbie era o Labubu da minha época; era muito cara. Eu me considerava incrível, porque tinha duas. Eram o símbolo sexual da minha infância: ficavam de calcinha, peladas, às vezes transavam uma com a outra”, revelou Pontes.
Também foi um objeto de desejo caro na infância de Bortagaray, que teve imitações da Barbie. “Na casa de bonecas se aprende sobre o futuro e se faz projeções do futuro. É mais profundo do que se possa imaginar”, concluiu.
Figurinhas
Em vésperas de Copa do Mundo e em frente à Mercado Livre Arena Pacaembu, que pouco antes tinha sido palco do Futebol dos Autores n’A Feira do Livro, o tema futebol chegou à mesa.
“O que meus filhos mais querem é que eu leve figurinhas da Copa para eles”, disse Bortagaray, que tem um conto na coletânea Mundos do futebol: 11 contos e 1 crônica (Cambalache, 2025). “Meu conto tem mais a ver com educação sentimental, mas futebol é educação sentimental.”
Pontes disse não ter relação com o esporte: “Detesto futebol. E detestei que escalaram o Neymar [para a Copa]”.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.