A FEIRA DO LIVRO 2026,
Poemas nascem de um pequeno estranhamento, diz Ana Estaregui
Em mesa com Bernardo Ceccantini, os poetas falaram sobre a influência do caos urbano e dos estados alterados de consciência nas suas produções
02jun2026A poesia de Ana Estaregui e Bernardo Ceccantini tomou o Palco da Praça no início da tarde desta segunda-feira (1º) na mesa Vidas sortidas, que abriu o terceiro dia da programação oficial d’A Feira do Livro. Mediado por Irene de Hollanda, sócia e diretora da livraria Megafauna, o encontro pegou o título emprestado do livro mais recente de Ceccantini, Vida sortida (Editora 34, 2026), e deu conta dos universos dissonantes das produções poéticas dos escritores.
Enquanto Ceccantini se comporta como um cronista do cotidiano em Vida sortida, atento ao barulho de escapamentos de carros, sirenes de ambulâncias e gritos de pedestres, Estaregui forja uma linguagem inspirada em silêncios e nos percursos meticulosos das abelhas em Fazer círculos com mãos de ave (Editora 34, 2025). A poeta disse que o corpo e as palavras servem como objeto inicial dessa observação.
“Os poemas nascem sempre de um pequeno estranhamento, que pode ser pela linguagem, uma palavra, ou pela leitura de alguma coisa que me parece esquisita”, disse. “Pode ser um estranhamento pelo corpo também. Você deita na grama e percebe que não é tão diferente daquilo, e existe uma certa continuidade. O estranhamento inicial que dispara o poema.”
Estrutura
Embora o desconforto impulsione o começo de um verso, Estaregui afirma que não é somente esse fator que serve como estrutura. Depois desse lampejo inicial, disse a poeta, vem a parte do trabalho.
“Eu gosto de deixar decantando um pouco. Penso no Drummond, que tem um poema muito bonito, onde ele conta o que fazer e o que não fazer em poesia. Tem um verso que diz ‘convive com seus poemas antes de escrevê-los, isso que sentes ainda não é poesia’. O fato de você sentir determinadas coisas não é pensar, leva um tempo até chegar no plano escrito”, observa a autora a respeito do poema “Procura da poesia”, que integra A rosa do povo, publicado pelo poeta mineiro em 1945.
Ceccantini, por outro lado, procura os poemas em ambientes mais acessíveis e menos recônditos. “Escrevo os poemas com vontade de me conectar com alguma coisa, seja o outro ou mesmo seres inanimados ou sombras. Isso me emociona”, disse.
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Para descrever as banalidades e surpresas do cotidiano, o escritor busca elementos sonoros e visuais pelas ruas da cidade e ressalta que o estilo e o ritmo de escrita de cronistas são grandes influências. “Sou um poeta que gosta muito de crônica, então nunca sofri pra encontrar motivos para meus poemas, sabia que podia encontrar no cotidiano. A grande dificuldade era justamente encontrar uma forma que traduzisse as minhas experiências.”
Com poemas publicados em diversas revistas literárias, Ceccantini é autor também de Na quina das paredes (7 Letras, 2017). Vida sortida, conta ele, surgiu de uma conversa com um amigo durante a pandemia. A execução da ideia era desafiadora: cada um escrevia um poema a cada dois dias e depois comentava o texto do outro. O trabalho seguiu de 2020 até 2024.
“Tem o mundo de fora, a alteridade, as pessoas na praça, no trabalho, o jardineiro conversando, mas também tem essa coisa de ficar treinando para quando o estalo poético aparece dentro. Todas as formas são arbitrárias, mas é surpreendente como um cara te aborda na rua e te fala dois decassílabos”, brinca o autor, que gosta de surpreender com as métricas inesperadas que costuma ouvir enquanto caminha pelas ruas de São Paulo.
Estados alterados
Além de observar a natureza e se manter em diálogo com elementos sutis para dar voz a uma linguagem própria, Ana Estaregui também recorre a estados alterados de consciência. A autora conta como rituais xamânicos com plantas medicinais das tradições indígenas servem como inspiração. Ela afirma que a incerteza e a insistência são parte do processo.
“Existe uma insistência de que quando você começa um movimento de escrita você quer ver aonde aquilo vai chegar, mas ao mesmo tempo eu acho que escrever poesia tem a ver com esse não saber e se abrir para algo misterioso da própria linguagem, deixar o poema se abrir e confiar também nas contingências”, conta a poeta, também autora de Dança para cavalos (Círculo de Poemas, 2022).
O desejo, afirma, é que a escrita pudesse ser o próprio poema e não apenas uma representação. “Eu quero que a palavra seja a coisa, e não só represente a coisa. O ritual [de ayahuasca] permite empatia para sair de si e trazer uma metamorfose para a palavra.”
O ritual de Ceccantini é centrado em ferramentas mais objetivas e triviais, como a tela do celular disponível no momento em que o verso surge. O autor percebeu uma diferença no processo de escrita do primeiro livro, produzido no ambiente fechado de um quarto, e o segundo, com versos mais sucintos, anotados na hora que surgiam.
“O ritmo vem mais rápido pela cidade e mudou completamente [o formato dos versos]. Eu precisava de uma linguagem que conseguisse levar no bolso. Muitos dos poemas foram escritos no bloco de notas do celular e acho que o formato influenciou o ritmo, eu não conseguia visualizar versos longos.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.