A FEIRA DO LIVRO 2026,
Demorou para o povo negro ser representado de forma positiva na literatura para as infâncias, afirma Madu Costa
A escritora e a ilustradora Ana Paula Sirino falam n’A Feira do Livro sobre vivências e a herança ancestral por trás do infantojuvenil Trança a trança
04jun2026Para escrever Trança a trança (Intrínseca, 2025), Madu Costa teve pelo menos duas inspirações: a memória de ter os cabelos trançados pela mãe na infância, junto das irmãs, e a ausência da avó, que não conheceu, mas transformou em personagem do seu livro infantojuvenil. Escritora, artista, cordelista e professora, Costa apresentou o livro ao lado da ilustradora Ana Paula Sirino na tarde de quarta (3) n’A Feira do Livro, em mesa mediada pela pesquisadora e professora Cristiane Tavares.
“Éramos cinco meninas com uma mãe que trabalhava fora. O jeito de ficarmos com o cabelo ‘arrumado’ — no sentido eurocêntrico da palavra — era deixá-lo bem trançado”, contou Costa. “Era um momento de ter o calor da mãe ali, pertinho da gente. Mas não dá para romantizar: esse trançado também causava dor e desconforto. Para mim era como um aprisionamento.” A mãe, na tentativa de atenuar a chateação, comprava fitas diversas — xadrez, de bolinha, de cores bem alegres — para enfeitar os cabelos das meninas, lembra a autora.
No livro, é a avó que trança o cabelo da neta, em um gesto de afeto e intimidade que liga diferentes gerações de uma família negra. A autora batizou a personagem de Lica, apelido de sua avó materna, que não conheceu.
As vivências de Costa e Sirino, ambas mineiras, se cruzam. “Minhas pinturas são construídas a partir de fotografias feitas em momento de conexão e intimidade com meus familiares, amigos e pessoas da minha comunidade [o quilombo Torra, em Sabinópolis]. Para o livro, fotografei uma senhora chamada Maria, que às vezes trançava o meu cabelo quando a minha mãe não podia, e uma criança, minha afilhada”, explicou a ilustradora.
Herança ancestral
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Em Trança a trança, Costa utiliza uma linguagem poética, com ritmo e musicalidade, influenciada por sua experiência como compositora e cordelista e pela ancestralidade africana. “Até o nosso ritmo de fala já é meio cantado. Desde criança, tenho essa relação com a palavra como brinquedo. Rimar, fazer trocadilhos e aliterações sempre foi um gatilho para a minha escrita”, diz a autora. Ela também faz referência às mulheres colombianas escravizadas que traçavam rotas de fuga nas tranças, tecnologia que a encantou.
A simbologia conversa com a obra como um todo: ideogramas dos povos Ashanti (da atual região de Gana e Costa do Marfim), um Sankofa desenhado no chão de terra . “É uma história que se pretende infantil, mas é para a infância de quem tiver até cem anos. Porque a criança interior que não acessou esse tipo de representatividade nas literaturas ainda está dentro de nós”, refletiu Costa. Há referências indiretas a orixás como Iansã (búfalas e borboletas) e Nanã (barro primordial), de forma a aguçar a curiosidade sem dogmatismos.
Afeto
O cuidado entre avó e neta está no centro da obra e as convidadas falaram da importância de mostrar o afeto entre pessoas negras na literatura e nas artes visuais. “Demorou para o povo negro ser representado de forma positiva nas literaturas. Na literatura para as infâncias, então, muito mais. Como escritora negra, vou sempre me valer dos valores africanos que me habitam, que é a gargalhada sem medida, o gostar de estar junto, de comer junto, de abraçar e até de celebrar a morte”, disse Costa.
“Há uma necessidade de referências positivas que estamos tentando passar e construir com as crianças da nova geração”, complementa Sirino.
Oficinas no Espaço Rebentos
O espaço voltado para a literatura infantojuvenil recebeu duas oficinas durante a tarde de quarta. Crianças da ONG Alquimia, que atua na zona sul de São Paulo, participaram de uma atividade de criação de capas de livros, realizada com apoio da Pinacoteca.
No fim do dia, um grupo diverso composto por crianças, jovens e adultos criou obras de arte em escala reduzida para serem visualizadas através das lentes de monóculos na oficina conduzida pela artista Maria Mion. O objetivo era explorar a dimensão reduzida e o detalhe, além de resgatar o aspecto analógico em contraste com as telas. Os participantes receberam um kit com moldes e um pequeno acervo de materiais — recortes de revistas, enciclopédias, gibis e dicionários. Segundo Mion, como se tratava de criações diminutas, foi possível experimentar uma variedade de técnicas e ideias em pouco tempo.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.