Ministério da Cultura apresenta
Sidnei Nogueira e João Tokunbó Carneiro (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘Café da manhã com os orixás’ é uma forma de ‘reparação histórica’, diz João Tokunbó Carneiro

O autor conversou com o também babalorixá Sidnei Nogueira sobre como a obra resgata a tradição de religiões de matriz africana com mensagens diárias devocionais

04jun2026

O sucesso de Café com Deus Pai, devocional do pastor Júnior Rostirola que há dois anos lidera os rankings de livros mais vendidos do país, inspirou a publicação de uma série de outros títulos com mensagens diárias de fé — e não só cristãs.

Só no ano passado, o selo editorial BestSeller lançou Osho todos os dias, um compilado de frases do guru indiano, e Dalai Lama todos os dias, de Bernard Baudoin, enquanto o selo Academia lançou Café com Exu, de Rubens Oliveira.

Sidnei Nogueira, João Tokunbó Carneiro e Adriana Ferreira Silva (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Um outro devocional recente a tratar da sabedoria afro-brasileira é Café da manhã com os Orixás, da editora Pallas, escrito por João Tokunbó Carneiro. O autor conversou sobre o livro com o escritor Sidnei Nogueira em uma mesa mediada pela jornalista Adriana Ferreira da Silva no Palco da Praça, na quinta (4).

Ambos os participantes da mesa são pesquisadores acadêmicos e babalorixás, sacerdotes do candomblé. O bate-papo foi, assim, entremeado por histórias relacionadas às divindades que representam as forças da natureza na tradição afro-brasileira, os orixás do título do livro.

O escritor e babalorixá João Tokunbó Carneiro (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Tokunbó Carneiro afirmou que seu trabalho é uma espécie de “reparação histórica” em relação ao best-seller cristão. Afinal, ele argumentou, a tradição de consultar entidades divinas pela manhã para saber o que aconteceria ao longo do dia surgiu, originalmente, de praticantes de religiões de matriz africana. 

“Muitos africanos, babalaôs ou não, jogavam búzios e perguntavam ao oráculo como seria o seu dia antes de sair de casa pela manhã. E a depender do que aquela reflexão apontava, nem de casa saíam”, disse. 

“A ideia de consultarmos a palavra, nesse caso memorizada por meio de um jogo oracular, para guiar a nossa conduta diária, era feita por africanos em terras africanas. Só estou devolvendo um conhecimento que é deles”, continuou.

Desconhecimento

Nogueira, por sua vez, chamou a atenção para o desconhecimento acerca das religiões de matriz africana no Brasil. Segundo Nogueira, pela sua experiência, até mesmo a palavra “babalorixá” é encarada como algo exótico pela maioria da população brasileira.

O religioso atribuiu esse desconhecimento à imposição do cristianismo pelos europeus durante a colonização, uma herança que, de acordo com ele, perdura até hoje. “No Brasil, o cristianismo é compulsório. As pessoas não são cristãs por escolha, mas por efeito da colonização”, disse Nogueira, que lançará no final do mês O perigo de uma religião única, escrito com o ogã Hédio Silva Jr., pela editora Planeta. Ogãs são os responsáveis por tocar os atabaques nos rituais do candomblé e da umbanda.

O escritor e babalorixá Sidnei Nogueira (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

O título do novo livro é uma referência a O perigo de uma história única (trad. Julia Romeu, Companhia das Letras, 2019), famosa palestra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que alerta para os problemas de reduzir culturas inteiras a seus estereótipos.

Nogueira afirmou que essa necessidade de simplificar a realidade de forma excessiva é uma característica própria do Ocidente. Para ele, o objetivo é, em última instância, controlar a sociedade.

“A cultura ocidental é da conjunção alternativa, do ‘outro’ excludente. Aqui, ou você é uma coisa ou outra. A cultura do continente africano não é do ‘ou’; é do ‘e’”, disse.

“Esse é o grande erro das religiões hegemônicas: elas querem te higienizar. Querem que você deixe de ser quem você é para poder fazer parte do grupo”, afirmou.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Clara Balbi

Jornalista, foi editora-assistente da Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S.Paulo