Ministério da Cultura apresenta
(Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Horror convida a pensar traumas da América Latina, diz Cristhiano Aguiar

Autor ressaltou, com o chileno Andrés Montero e o colombiano Mario Mendoza, a força do sobrenatural para expressar o não dito

31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

O chileno Andrés Montero, o colombiano Mario Mendoza e o brasileiro Cristhiano Aguiar mostraram, na mesa Latinidades em conversa, por que a América Latina tem sido um terreno fértil para as narrativas de horror. Mediado pela jornalista Paula Carvalho e com tradução simultânea de Ramon de Barros e Lucien Beraha, o encontro no Auditório do Museu do Futebol, neste domingo (31), trouxe à tona os traumas coletivos do continente e ressaltou a força do sobrenatural para expressar o não dito.

“O Brasil — e acredito que os países da América Latina não são diferentes — é forjado através de uma experiência traumática: a colonização. Ela estrutura uma série de questões que ecoam do século 16 até o século 21. Em seguida a gente tem outro trauma histórico, que fomenta um horror social, no caso do Brasil: a nossa organização social é totalmente articulada ao redor da escravidão. Depois temos, no século 20, outro trauma social: a ditadura civil-militar”, afirmou Aguiar.

O escritor Cristhiano Aguiar (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“O trauma gera o recalque e é preciso que esse trauma seja libertado e narrado”, disse o paraibano, autor de Gótico nordestino (Alfaguara, 2022). Ele lembrou que a literatura brasileira narrou esses traumas de maneiras diferentes. Durante a ditadura, a ficção se apropriou das ferramentas do jornalismo. Agora, há “um convite da estética do horror e da ficção científica para pensar os traumas históricos que são estruturantes do continente”.

Montero também se referiu a um episódio histórico — o golpe militar de 1973 no Chile, cujo legado divide os chilenos mais do que nunca: “Nos meus livros, o horror não está relatado de forma tão direta, mas aparece, por exemplo, o tema da memória. Há três anos tivemos os cinquenta anos do golpe militar no Chile. Como ocorreu no Brasil e na Argentina, há pessoas que não encontram seus familiares. Mas há quem diga que são cinquenta anos, temos que seguir adiante, não podemos ficar presos no passado. É muito difícil dizer isso para alguém que não sabe onde está seu pai, seu filho, seu avô”.

O escritor Andrés Montero (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Em O ano em que falamos com o mar (trad. Silvia Massimini Felix, Pinard, 2026), Montero narra o reencontro de irmãos gêmeos na ilha Chiloé, região fortemente marcada pela mitologia mapuche, o principal povo indígena chileno. “A realidade do escritor, de alguma maneira, é colocar algo em circulação; isto me parece importante. Eu retrato, se não o horror, a memória do horror. Isso é o que mantém viva a comunidade e, portanto, a esperança”, disse Montero.

Ele citou o Trauco, figura mitológica famosa no Chile, que atrai as mulheres com a voz e, em seguida, abusa delas. “Crianças que não conhecem o pai são chamadas de ‘filhos do Trauco’. Temos que seguir falando do Trauco, porque o sobrenatural é uma forma de dizer o que não se pode dizer. As mulheres, as mães, as avós, sobretudo antes, não podiam dizer o que tinha acontecido. Enquanto o Trauco seguir existindo, sabemos que há um problema nessa ilha que temos que resolver. Escuto com muita atenção o sobrenatural, o mítico, porque eles dizem muito mais sobre a realidade do que parece”, afirmou o chileno.

Partindo de um crime real ocorrido em Bogotá para narrar a presença do mal no cotidiano, Mendoza escreveu Satanás (trad. Maria Alzira Brum Lemos, Tusquets, 2025), romance publicado originalmente em 2002. Em 4 de dezembro de 1986, um homem assassinou 29 pessoas em diferentes pontos da capital colombiana. Não se tratava de um serial killer típico, porque não havia padrões entre as vítimas — anos depois, esse comportamento seria classificado como spree killer, um assassino-relâmpago.

“Me interessa muito a multiplicidade narrativa, as vozes que se desdobram”, contou ele. “Como uma cidade é penetrada por essas vozes que, de alguma maneira, são as vozes de uma doença, que somos todos [nós]. Sobretudo agora, depois da pandemia, está claro que todos estamos muito mal. Ninguém pode dizer que está 100% lúcido, que está perfeito, que não está desequilibrado. Isso não é verdade. Todos estamos transtornados; somos personagens amnésicos, catatônicos.”

Mario Mendoza (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Ao discutir um complexo de inferioridade que latino-americanos têm em relação a cidades do Primeiro Mundo, Mendoza lembrou que, depois de Paris e Nova York ocuparem o imaginário dos séculos 19 e 20, respectivamente, chegou a vez da “cidade terceiro-mundista, caótica, desenfreada” — e, como exemplo, citou Rio de Janeiro, São Paulo e Cidade do México. “Não estamos indo rumo à utopia; demos a volta e rumamos para a distopia”, afirmou.

“Como narrador, saber isso é muito importante, porque te dá uma segurança que talvez os antigos escritores latino-americanos não tivessem. Eles tinham esse complexo de ter que ir a Paris para poder ser um escritor. Isso eu nunca tive”, finalizou Mendoza.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Planeta, Companhia das Letras e Pinard e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.