Ministério da Cultura apresenta
O cientista social norte-americano Norman Finkelstein e a jornalista Patricia Campos Mello no Auditório do Museu do Futebol (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘A maior causa do antissemitismo do mundo hoje é Israel’, diz Norman Finkelstein

O cientista social afirmou que é um defensor da verdade e que já não é mais eficaz usar o Holocausto como ferramenta ideológica

05jun2026

O público apareceu em peso para ver a mesa Holocausto e Palestina, na qual o cientista social norte-americano Norman Finkelstein conversou com a jornalista Patrícia Campos Mello na tarde de quinta (4), sexto dia da programação oficial d’A Feira do Livro 2026. A fila para entrar no Auditório do Museu do Futebol era tão longa que chegou à área de autógrafos da Livraria da Travessa, a cinquenta metros dali.

Finkelstein está no Brasil para lançar o livro A indústria do Holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento judaico (trad. Red Yorkie, Autonomia Literária), publicado originalmente em 2000. 

Questionado por Campos Mello se essa obra continua atual duas décadas e meia após a publicação original, ele respondeu que muita coisa mudou desde 7 de outubro de 2023, quando, após ataques do Hamas, Israel deu continuidade ao genocídio palestino em Gaza.

Ferramenta ideológica

Na sua visão, o Holocausto já não funciona mais como uma ferramenta ideológica. “Isso acabou, a época para isso já passou. O Holocausto nazista não será mais uma referência, porque o objetivo dessa arma perdeu a intensidade com o passar do tempo”, explicou. 

Ele disse também que não se define como um porta-voz da Palestina ou dos árabes, mas sim um defensor da verdade e do que é justo. Nesse sentido, procura analisar as evidências do que é difundido como fato, dizendo que desconfia de qualquer coisa que o governo israelense publique como factual.

O cientista social Norman Finkelstein (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Finkelstein também observou uma situação contraditória nos Estados Unidos. Por um lado, segundo ele, está cada vez mais fácil falar mal de Israel, com muitos comentaristas e analistas políticos norte-americanos criticando o Estado israelense — o que ele vê como uma forma de capitalizar em cima do ressentimento contra os judeus. 

Por outro, há um reinado de terror nos câmpus universitários e em outras áreas, no qual se teme ser perseguido, perder auxílios financeiros ou até ser demitido do emprego.

Antissemitismo

Ao ser questionado sobre o aumento do antissemitismo no mundo, Finkelstein se mostrou cético em relação à gravidade desses atos. Segundo ele, ao ler um relatório sobre o aumento da perseguição aos judeus na Universidade Harvard, não encontrou evidências de que houvesse antissemitismo no ambiente universitário. 

O que ele percebeu que era colocado como antissemitismo era um fato mais particular, de que estudantes judeus israelenses, que obrigatoriamente cumpriram serviço militar no país, se sentiam excluídos pelos demais estudantes. Com isso, a universidade passou a adotar políticas mais “pluralistas” para incluí-los, mas Finkelstein discorda dessa diretriz.

Norman Finkelstein e a jornalista Patrícia Campos Mello (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

“No meu ponto de vista, eu não vou ser inclusivo com assassinos de crianças. Para mim não é um slogan. É algo muito pessoal. Não vou trair a memória dos meus pais [sobreviventes do Holocausto judeu] andando por aí com assassinos de crianças. Não vou para um bar com eles, não vou fazer parte da mesma fraternidade. Isso seria uma completa traição do que meus pais suportaram e carregaram consigo até o fim da vida deles. Não vou fazer isso”, declarou.

Finkelstein ainda afirmou que a maior causa do antissemitismo no mundo é o Estado de Israel. “Eu sou judeu, e se alguém quiser me matar é por causa deles [Israel]. Eles deviam parar de se chamar de Estado judeu. Israel é o lugar mais não judeu no mundo”, disse. “E por que está no radar de todo mundo? Por causa de Gaza. Eles deveriam mudar o nome ou se autodestruir, daí não teremos mais problema com isso.”

Opiniões e contradições

“O problema em Israel não é o regime, isso não é verdade. O problema de Israel não é o governo, isso não é verdade. O problema é toda a sociedade, o problema é que aquele lugar inteiro enlouqueceu. Eles são maníacos genocidas”, afirmou, trazendo números de pesquisas de opinião feitas em Israel sobre quanto de força o exército deveria usar em Gaza. 

Como exemplo, Finkelstein contou que 64% dos israelenses disseram que não havia inocentes em Gaza e que apenas 5% da população achava que muita força (“too much force”) havia sido usada naquele território, versus 95% que achava que havia sido usada pouca força (“little forceI”) ou força insuficiente (“not enough force”). 

Sobre a ideia de que em Israel muitos podem não ter acesso a informação do que está acontecendo em Gaza, ele disse: “Vocês [israelenses] sabem o que está acontecendo. Minha mãe dizia que aqueles que querem saber sabem, aqueles que não querem saber, nunca saberão”.

Por fim, fez uma previsão lúgubre para Gaza. “Temos que tratar desse tema como adultos. Poderia fazer um discurso de como temos que lutar, fazer a revolução até a vitória”, comentou. “Mas não vou fazer isso. Não acho que tenha um futuro em Gaza. Nada mais sobrou em Gaza.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).