Repertório 451 MHz,

O olhar da crítica

A crítica literária Ligia Gonçalves Diniz e o historiador Júlio Pimentel Pinto falam sobre a construção imaginativa única provocada pelos livros

10maio2024 - 04h51 • 23maio2024 - 16h05

Está no ar o 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Neste 111º episódio os convidados são a crítica literária Ligia Gonçalves Diniz, professora de Teoria da Literatura pela UFMG, e o historiador Júlio Pimentel Pinto, da USP. Os dois estão lançando livros que tratam da experiência da ficção e falam sobre a construção imaginativa única provocada pelos livros, do papel da crítica literária hoje, de autoficção e de suas referências como leitores. O episódio foi realizado com apoio da Lei de Incentivo à Cultura.

Ligia Gonçalves Diniz é crítica literária e professora de Teoria da Literatura na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e já escreveu críticas para a Quatro Cinco Um. Ela está lançando O homem não existe: masculinidade, desejo e ficção pela editora Zahar, livro em que reúne ensaios sobre a experiência masculina na literatura de ficção.

Colaborador de longa data da revista dos livros, Júlio Pimentel Pinto é professor do departamento de História da USP (Universidade de São Paulo) e publicou no começo do ano Sobre literatura e história: como a ficção constrói a experiência pela Companhia das Letras. Nesse livro, traça estratégias para que se possa compreender como a relação entre as duas disciplinas pode acontecer sem que uma se torne mero acessório da outra.

Os dois falam sobre crítica literária e de como ela guarda sua importância na discussão sobre o mundo dos livros nos dias de hoje.



Mais do que sua experiência como crítica ou teórica, Diniz afirma que O homem não existe parte da sua experiência de leitora. “Fui formada por uma série de romances e poemas escritos por homens, tratando de experiências masculinas e por meio desse processo vivia a experiência desses homens, calcei os sapatos deles. A vida da leitora mulher é meio ambivalente.” 

Na coletânea de ensaios, a autora dialoga com várias dessas influências formativas para pensar numa série de experiências tidas como masculinas.

O homem não existe, de Ligia Diniz, e Sobre a literatura e história, de Júlio Pimentel Pinto

Já Júlio Pimentel Pinto descreve, como ponto de partida do seu novo livro, como a história tem ganhado força como uma das narrativas que pode dialogar com a ficção, um espaço antes ocupado pela sociologia. O subtítulo do livro foi parafraseado de uma afirmação do argentino Ricardo Piglia (1941-2017), uma das grandes influências do historiador, que disse que “a literatura constrói a experiência”. 

“O livro é sobretudo um esforço de tentar entender de que forma se dá esse diálogo sem que a história seja um acessório da crítica sobre a ficção e sem que a ficção seja uma ilustração do debate historiográfico”, diz o historiador. “É tentar estabelecer um diálogo em que ambas estejam em pé de igualdade e capazes de uma iluminar a outra.”

Autoficção e a morte do romance

Para que a experiência do leitor seja possível, os dois autores defendem uma maior liberdade imaginativa. Para Ligia Diniz, mais do que a discussão sobre a nova onda de autores que escrevem sobre a própria vida, o importante é que a imaginação do leitor não seja coibida.

“Se o leitor não puder participar com qualquer experiência no momento da leitura, me parece que vai ser muito estéril, que não vai movimentar algo que só a ficção é capaz: essa vivência de uma possibilidade outra”, afirma.

“Quanto mais você tenta prescrever, quanto mais tenta cercear a liberdade do leitor de prosseguir o texto, de reconstruir, de reescrever, menos essa leitura se torna interessante”, diz Júlio Pimentel Pinto, que afirma ainda que a morte do romance já foi atestada várias vezes, mas no terceiro dia ele ressuscita e reaparece sob outra forma. 

O historiador cita o livro Romance: história de uma ideia (Companhia das Letras, 2021), do escritor Julián Fuks, que mostra que essas muitas certidões de óbito correspondem a uma percepção do tempo — o que não impediu o gênero de achar novos caminhos.

Romance: história de uma ideia, de Julián Fuks

Pimentel Pinto também vê com receio o fato de que muitos leitores procuram livros que corroborem o que já pensam. “O livro provoca muito mais quando o leitor desconfia, discorda, contesta, reage. Essa liberdade do leitor é tanto maior quanto menos protocolos de leitura forem estabelecidos.” 

Disfunção erétil e depreciação

Os norte-americanos Philip Roth (1933-2018) e Ernest Hemingway (1899-1961), escritores citados no livro de Ligia Diniz, também são discutidos no episódio. Ambos vêm sendo criticados por leitores que veem machismo e sexismo em suas obras, no entanto, a crítica literária defende a leitura dos dois como forma de viver novas experiências.

“De que outra forma eu como mulher poderia experimentar ter um pau mole se não fosse pela leitura? É muito diferente de ler um texto explicativo sobre o que é a disfunção erétil”, questiona. “Quando o leitor de fato participa de um romance, emprestando o próprio corpo para esses personagens, ele acaba experimentando coisas que de outra forma não experimentaria.”

Grande admirador da literatura policial, Pimentel Pinto falou também sobre como esse gênero é pouco valorizado no Brasil, que publica títulos e autores pouco diversificados. “A leitura da literatura policial é mais do que entretenimento. Essa catalogação faz com que as pessoas vejam com certo ar de depreciação os textos.” 

Crítica literária

Os dois autores também abordam o pouco espaço que é dado à crítica literária hoje. A professora da UFMG conta como, mesmo reconhecendo o mérito de escritores como os franceses Édouard Louis e Annie Ernaux, publicou um artigo criticando o Nobel dado à escritora, em 2022. “Resta pouco espaço sim para a imaginação do leitor. Por exemplo, do desejo feminino. Eu me reconheço naquilo que ela está explicando, mas me falta a experiência imaginativa. Como ela está muito calcada na experiência, o corpo descrito nas páginas já está ocupado”, explica.

Diniz também comenta o debate provocado pela crítica que fez a Salvar o fogo, de Itamar Vieira Junior, publicada na edição #69 da Quatro Cinco Um. Para a crítica, o romance é “pouco generoso com o leitor” por deixar evidente quem está certo ou errado, quem são os personagens bons e virtuosos e os maus e vis. 

Salvar o fogo, de Itamar Vieira Junior

“Minha grande missão como crítica literária é defender que essas instruções da ficção não façam o leitor chegar a uma única conclusão”, afirma. “Se a gente não puder viver essa riqueza de contradições do humano, me parece mais fácil ir para um texto mais mastigadinho que vai me explicar como o mundo funciona.”

Na opinião do professor da USP, a função da crítica não é “endeusar” autores, mas “se distanciar, assumir uma posição de estranhamento” para tentar estabelecer conexões e possibilidades do livro. Pimentel Pinto diz ter aprendido com Borges e Piglia que é preciso dar espaço à imaginação do leitor e que os textos devem acabar em uma certa suspensão.

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Marquez e A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares

“Penso no último parágrafo do Ensaio sobre a cegueira, do Saramago, o último de O amor nos tempos do cólera, do García Márquez, na última frase de A invenção de Morel, do Bioy Casares, que é uma conclamação ao futuro e ao leitor”, elenca. “Criar um outro lugar para onde o leitor desloca sua imaginação e continua, vai dormir pensando no livro e sonha com ele.” 

Mais na Quatro Cinco Um

Colaboradora da revista dos livros, Ligia Gonçalves Diniz publicou em 2023 uma resenha sobre Salvar o fogo, o aguardado segundo romance de Itamar Vieira Junior depois do sucesso de Torto arado, que rendeu um longo debate, envolvendo, além do próprio autor, escritores favoráveis e contrários a seus argumentos. 

“Itamar Vieira Junior dá centralidade a personagens à margem do Estado, mas seu novo romance perde ao recorrer a expedientes gastos da literatura”, diz o texto

Diniz também escreveu sobre Karen, romance da portuguesa Ana Teresa Pereira, vencedor do prêmio Oceanos de 2017 e lançado no Brasil em fevereiro de 2018.

Colaborador regular da Quatro Cinco Um, Júlio Pimentel Pinto já resenhou publicações de diversos autores, entre os quais os argentinos Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges, nos quais é especialista. Em 2017, o historiador resenhou Anos de formação: os diários de Emílio Renzi, primeiro volume de memórias de Piglia, publicado pela Todavia. Já o volume de fac-símiles de Borges, Poemas & prosas breves, foi resenhado em 2018, 

O novo livro de Pimentel Pinto, Sobre a literatura e história: como a ficção constrói a experiência, foi resenhado pelo crítico literário Odorico Leal na edição de maio da revista: “Historiador explora o equilíbrio instável da montagem e remontagem do tempo na narração ficcional”.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz uma sugestão da escritora Daniela Wainer, autora de Órfãs do instante e do infinito, publicado pela Tucum em 2021. Ela indica o livro Nascimento e anos tardios: poemas novos e antigos 1971-2021, de Irena Klepfisz, primeira obra da autora publicada em português, pela Demonia Editora em 2024, com tradução de Rivka. 

Nascimento e anos tardios: poemas novos e antigos 1971-2021, de Irena Klepfisz

“Irena é lésbica, judia, sobrevivente do Holocausto e ativista política socialista. Ela nasceu no gueto de Varsóvia em 1941, sobreviveu à guerra escondida num orfanato, seguindo depois para o interior da Polônia com a mãe. O pai foi um herói do levante do gueto de Varsóvia. Depois da guerra, Irena foi com a mãe para Nova York, onde escrevia em inglês, e depois começou a escrever poemas bilíngues, inserindo ídiche como forma de tensionar a linguagem dominante heterossexual e patriarcal e dialogar com o passado. Seus poemas traduzem toda essa fascinante experiência de vida”, conta Wainer.

Confira a lista completa de indicações do podcast 451 MHz no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+. 

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Ashiley Calvo
Edição: Luiza Silvestrini
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: Pipoca Sound
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger
Para falar com a equipe: [email protected].br