Memória,

Outro fim para a pequena sereia

Um passeio pelo Canadá de Alice Munro, escritora que, como suas heroínas, não submergiu ao mundo reduzido que lhe era oferecido

17maio2024 - 17h46 • 29maio2024 - 04h30 | Edição #82
(Jerry Bauer/Divulgação)

O discurso de aceitação do prêmio Nobel é feito, tradicionalmente, em uma cerimônia em Estocolmo, com direito a anúncio de trompete, prataria e roupas de gala. Em outubro de 2013, quando Alice Munro ganhou o Nobel de Literatura, ela tinha 82 anos e preferiu se poupar. No lugar do discurso, a escritora morta no último dia 13, aos 92 anos, gravou uma entrevista informal na sala da casa de sua filha, em Victoria, capital da província de British Columbia, no Canadá. Sentada numa confortável cadeira de vime e envolta num casaco de lã cinza, que parecia querer ocultar uma blusa preta mais ousada, Munro contou que começou a escrever ainda criança porque queria dar um final diferente para a história d’A pequena sereia, de Hans Andersen.

No original, para se tornar humana conforme queria, a sereia tinha passado por muitas provações. A cada passo que dava com suas pernas recém-adquiridas, sentia uma dor agonizante subir pelo quadril. Na história da pequena Munro, a sereia teria o direito de realizar seu desejo. Ela se casaria com o príncipe que amava e viveria com humanos, não com peixes. Esse final era o que lhe parecia justo, depois de todos os tormentos sofridos. Em particular, a pequena sereia não morreria, como na versão de Andersen.

Leste-Oeste

Alice Ann Laidlaw nasceu e cresceu em Wingham, em Ontario, e se mudou para Vancouver aos vinte anos, depois de se casar com James Munro. Na década de 50, não se esperava nada muito diferente de jovens adultas. Além de dona de casa e, em breve, mãe de três, ela publicou alguns contos esparsos e conseguiu chamar a atenção do público. No entanto, afastada do centro literário de Toronto, nãe teve uma recepção das mais encorajadoras. O Vancouver Sun, em 1961, publicou a manchete: “Dona de casa encontra tempo para escrever contos”.

Sua primeira casa em Vancouver foi o porão de um prédio de três andares na Arbutus Street, de frente para a praia de Kitsilano. No conto “Cortes Island”, Munro narra a história de uma jovem que se muda para Vancouver aos vinte anos, recém-casada. A umidade e a falta de luz que ela descreve, hoje, parecerem quase inverossímeis ao andar pela região. Na orla, mulheres de vinte anos fazem jogging, tomam smoothies veganos, beliscam muffins de mirtilo orgânico em cafés e, às vezes, não precisam de mais do que fones de ouvido como companhia.

A Munro’s Books, livraria legendária fundada pelo casal Munro em Victoria (Maira Matthes/Acervo Pessoal)

Em Kitsilano, hoje um bairro hipster e um pouco mais afluente do que os demais da cidade bastante igualitária, mulheres de sessenta ou setenta anos tampouco precisam de companheiros em sua agitada lida diária: vestem-se com roupas esportivas, andam de bicicleta, dirigem carros e cuidam de jardins. O cenário contrasta com o das personagens femininas narradas por Munro, cuja liberdade parece sempre evocar a dor da sereia ao ganhar pernas ou o fantasma de ter que se pagar um preço por elas.

O casal Munro não ficou muito tempo em Vancouver. Com os três filhos, seguiram para o oeste e se mudaram para Victoria, onde fundaram uma livraria. A Munro’s Books fica numa das ruas principais da pequena cidade pesqueira na costa do Pacífico. É uma síntese improvável entre o modelo de livraria europeu (aconchegante, mas apertado) e o americano (espaçoso, mas árido). Os tetos altos, o cheiro de livros novos e o espaço abundante para folheá-los faz lembrar o conforto da sala em que Munro deu sua entrevista para a Academia Sueca — um bem-estar austero, de classe média, típico do Canadá.

A Munro’s Books faz lembrar o conforto da sala em que a autora deu sua entrevista para Academia Sueca

Victoria é uma cidade turística. Visitantes vêm ver baleias, tomar sorvetes e usufruir da calmaria local — o mais próximo de violência urbana é a cena de um corvo destroçando, impiedosamente, uma minhoca. Lá, em 1968, Munro publicou sua primeira coletânea de contos, Dance of Happy Shades. Foi um sucesso. Ganhou o Governor General’s Literary Award, prêmio equivalente ao Pulitzer no Canadá, o qual ela ganharia mais duas vezes. Enquanto acumulava reconhecimento nos círculos letrados do país, o provincianismo local achou por bem alertar seu público, em 1969, no Victoria Daily Times, que: “Fama literária pega mãe despreparada” .

Se o reconhecimento nacional chegou cedo e rápido, o internacional veio aos poucos, a partir dos anos 70, quando seus textos passaram a atravessar a fronteira com o país vizinho e a ser publicados na norte-americana The New Yorker. As reviravoltas que sacodiram a década também mexeram com Munro, que desfez seu casamento, voltou para Ontario, passou a usar minissaia, encontrou um novo parceiro e tentou ser professora, mas desistiu. De volta à terra natal, reconstruiu seu mundo real e ficcional. E passou a se identificar como “escritora”, em vez de “dona de casa”, nos censos populacionais do país.

Profundamente realista

As histórias de Alice Munro são profundamente realistas. Realistas no sentido formal da construção literária — seus personagens são verossímeis e localizáveis — e realistas no sentido moral — não há pretensão de torná-los melhores do que são. Muitos têm sombras que tentam esconder, mas nem sempre conseguem. Têm mágoas que dão norte e sentido a suas vidas, sem que percebam ou admitam. São traídos bruscamente, sofrem por amor e mentem para si mesmos (ou, de modo ainda mais desolador, como no conto “Corrie”, constroem suas vidas se ajustando às mentiras dos outros). Além disso, são marcados pela precariedade da vida. Doença e morte aparecem com frequência nas narrativas e as empurram em direções inesperadas. No conto “Free Radicals”, da coletânea Too Much Happiness, a protagonista é diagnosticada com um câncer fatal, mas é seu marido, cujos exames médicos indicavam uma saúde de ferro, quem morre nas primeiras páginas.

Como a pequena sereia no mar, ansiosa e querendo saber quando e onde sua vida começa, a maior parte das protagonistas femininas estão insatisfeitas com o mundo reduzido que a sociedade lhes oferece. Essa insatisfação é um tema recorrente, e um centro que condensa tudo ao redor. Mas não se traduz em um senso de inferioridade em relação aos homens. Munro não acreditava que a vida que as mulheres levavam ao longo do século 20 (e, em muitos sentidos, ainda levam) era pior em relação à disponível para os homens. Na entrevista ao representante do prêmio sueco, ela diz que, na infância, embora muitas outras atividades fossem exclusivamente masculinas, eram as mulheres que liam e contavam histórias. Não seria aceitável, na região em que cresceu, um homem ler, escrever ou fabular. Ou seja, eram as mulheres que podiam se dedicar ao que importava para a autora.

Seus personagens têm mágoas que dão norte e sentido a suas vidas, sem que percebam ou admitam

O mundo psíquico das suas heroínas é, portanto, um mundo habitável, cheio de espaço para observação e construção de sentido, não um subproduto da opressão masculina e da exaustão doméstica. Essa profusão de vida íntima talvez tenha impelido a escritora a criar um novo jeito de escrever histórias curtas. Um jeito que abarca vastas amplitudes emocionais e profundidade psicológica em poucas páginas. Muito já se falou que esses traços fazem seus contos parecerem romances. E é verdade, na atmosfera, na densidade e em outro fator: na construção da temporalidade. Anos inteiros são condensados em pequenos parágrafos. Eventos isolados no tempo ocupam o narrador por várias páginas. O tempo é uma festa.

No seu conto mais famoso, “The Bear Came Over the Mountain”, os dois primeiros parágrafos descrevem um jovem casal feliz no casamento. No terceiro, no entanto, Fiona, a protagonista, está se preparando para ir morar em um asilo. Descobrimos que ela sofre de um estágio avançado de demência e que essa é a narrativa do seu declínio, não do seu auge. Na casa de repouso, Fiona reencontra um antigo conhecido da juventude, que tinha agora “algo da beleza de um cavalo velho, poderoso e desanimado”. Ela se apaixona. O marido, Grant, que no passado tinha tido vários casos, se vê usando o talento da conquista para ajudar Fiona a ser feliz. Tenta seduzir a mulher do antigo amigo (e novo amor) de Fiona, com o objetivo de convencê-la a compartilhar o seu companheiro, deixar Fiona vê-lo e ter o conforto da sua presença.

O que Munro queria para a pequena sereia — assim como para Fiona e muitas de suas personagens memoráveis — não era que não sentissem dor, mas que, apesar da dor, junto da dor, pudessem ter a vida que quisessem, ao lado de quem escolhessem.

Quem escreveu esse texto

Maíra Matthes

Doutora em filosofia pela universidade Paris Cité, mora em Vancouver.

Matéria publicada na edição impressa #82 em junho de 2024.