Crítica Literária,

Borges à flor da página

Volume de fac-símiles de manuscritos de poemas e prosas do autor argentino marca nova etapa em sua fortuna crítica

28nov2018 - 16h22 | Edição #19 dez.18/fev.19

Num dos ensaios de Os filhos do barro, Octavio Paz explicita algo que é bastante sabido, mas muitas vezes ignorado: a crítica se confunde com a história. Ambas são ácidos capazes de dissolver a oposição entre o que é distante e o que é próximo, ambas circulam entre os múltiplos estratos do tempo. A vizinhança, quase confusão, com a história, por sua vez, não impede que a crítica também tenha sua própria história — uma história que reúne leituras dissonantes, metodologias e estratégias compreensivas variadas e, aqui e ali, julgamentos em geral tão categóricos quanto provisórios. Portanto, se a crítica se mistura com a história, ela também tem que se combinar com as leituras e interpretações sucessivas de determinado autor ou obra. E poucos autores foram sujeitos a variações tão radicais no tratamento crítico quanto Jorge Luis Borges.

Interessante é que jamais se deixou de reconhecer a qualidade e a contundência do que ele escreveu, nem que ele foi um dos principais escritores do século 20, irradiando, para muito além desse século ou da Argentina, um conjunto de preocupações e proposições literárias decisivas e radicalmente inovadoras. O balanço sobre sua obra, entretanto, oscilou bastante ao longo das décadas. 

Nos anos 50, quando Borges já havia publicado um sólido conjunto de livros de poesia e parte da sua prosa mais conhecida — Ficções e O Aleph à frente —, consolidou-se a interpretação de que ele escrevia fora do tempo, que “expressava a irrealidade” e se mantinha prudentemente afastado de quaisquer tensões e dilemas históricos. A imagem do Borges irrealista avançou pelos anos 60 e 70, ganhando a companhia das reações iradas a suas opiniões políticas e de um convite — formulado por expressivos críticos latino-americanos que, naquele momento, privilegiavam a ideologia à estética — para que “não se lesse” Borges. 

A imagem do Borges irrealista avançou pelos anos 60 e 70, na companhia das reações iradas a suas opiniões políticas

Ao oscilar da constatação do irrealismo à da leitura indesejada, a crítica mantinha um padrão, mas ampliava o esforço de reduzir a obra de Borges a um ambiente restrito, intelectualizado e alienado das (supostas) verdadeiras questões da vida política e cultural.

Já no final da década de 70, porém, começaram a se insinuar duas novas ondas críticas. A primeira abandonou a interpretação ideologizada, mas insistiu na caracterização da dimensão fabulosa do autor, enfatizando a força de seus universos fantásticos e de suas geografias imaginárias. A segunda foi mais longe e provocou uma reviravolta notável na interpretação de Borges. Por caminhos diferentes, autores como Ricardo Piglia, Silvia Molloy, Daniel Balderston, Davi Arrigucci Jr. e Beatriz Sarlo destacaram a historicidade dos escritos borgianos e as formas peculiares de suas referências à realidade e a múltiplos contextos político-sociais e cognitivos. 

Do Borges irrealista passava-se ao Borges histórico; do Borges confinado ao gueto de intelectuais alienados passava-se a um Borges decisivo para que se pensasse a história e para que se avaliassem os rumos deliciosamente erráticos da literatura do século 20. Alguns estudos sobre as práticas textuais de Borges e o manejo da própria obra — como os feitos por Michel Lafon e Annick Louis — intensificaram a guinada interpretativa e prepararam o terreno para a consagração do argentino. Os inúmeros eventos realizados no ano do centenário de seu nascimento, 1999, confirmaram a vitória dessa nova crítica.

Século 21

Mas se a crítica se combina com a história e juntas elas continuam a dissolver qualquer abordagem definitiva, era inevitável que o século 21 trouxesse novos caminhos para os estudos borgianos e aprofundasse a compreensão do Borges histórico que os anos 80 e 90 atestaram. E assim se fez. Exemplar desse outro tempo é o excepcional Borges babilônico, organizado por Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo e lançado no final de 2017: um vasto e variado dicionário crítico e analítico da obra borgiana. Em 2018, o estudo de manuscritos de Borges, com suas evidentes implicações críticas, assumiu o protagonismo da renovação interpretativa. 

Os manuscritos de Borges estão espalhados por Estados Unidos, Uruguai e Argentina e pertencem a coleções privadas e públicas. A mostra Borges, El Mismo, Otro, apresentada no segundo semestre de 2016 pela Biblioteca Nacional Mariano Moreno, de Buenos Aires, expôs parte importante desse material. Nem todos os manuscritos conhecidos, porém, podem ser expostos ou publicados. 

A primeira publicação expressiva que nos chega é Poemas & prosas breves, que inicia um trio de livros de manuscritos editados, transcritos e anotados por Daniel Balderston e María Celeste Martín. A série prosseguirá com um volume dedicado aos ensaios e outro, aos contos, e se junta aos esforços de intensificação da crítica borgiana realizados pelo Borges Center, vinculado à Universidade de Pittsburgh, que edita a revista Variaciones Borges e que já publicou os importantes La senda (2015), de Jorge Guillermo Borges — pai de Borges —, Hidden Pleasures in Borges’s Fictions, de Evelyn Fishburn (2015), e Borges en Cuba: estudio de su recepción, de Alfredo Alonso Estenoz (2017).

Poemas & prosas breves reúne vinte manuscritos pertencentes a acervos norte-americanos e oferece uma visão aprofundada do trabalho de escrita em Borges entre 1919 e 1965; ou seja, desde antes da publicação de Fervor de Buenos Aires (1923), seu primeiro livro, até o tempo da cegueira. Alguns dos manuscritos incluem desenhos de artistas plásticos ou do próprio Borges, que foi excelente desenhista. Balderston — o mais importante estudioso de Borges da atualidade e que, ainda em 2018, publicará How Borges Wrote, também dedicado à análise de manuscritos — cuida das leituras e interpretações. 

Letra de formiga

Martín é a responsável pelo desenho da edição, que inclui sofisticadas estratégias gráficas para transcrever, ao lado da reprodução fac-similar de cada manuscrito, os comentários de Borges nas páginas, os recursos que adotava para indicar mudanças e possibilidades nos textos e, claro, a letra de Borges, que se transformou bastante ao longo das décadas, variando da precisão dos primeiros escritos a uma “letra de formiga” — expressão de Borges — e à hesitação do período de quase cegueira. 

Entre os manuscritos, há textos acabados ou inconclusos, inéditos, semi-inéditos ou conhecidos, escritos de próprio punho e, quando a cegueira impediu Borges de escrever, um poema datilografado (por alguém cujo nome desconhecemos) em papel timbrado da Biblioteca Nacional argentina e outro ditado à sua mãe, Leonor Acevedo. O material mais instigante, claro, é aquele em que Borges anota variantes para uma mesma palavra ou para um verso e os altera — em certos casos, mais de uma vez e com intervalos de décadas entre uma redação e outra. Por meio das marcas que Borges deixou, Balderston esmiúça os mecanismos de sua construção poética e revela, por incrível que pareça, um autor ainda mais rigoroso pela precisão do que se supunha: um autor capaz de surpreender até os especialistas que já conheciam sua obsessão autocorretora. 

Balderston revela um autor que surpreende até especialistas que conheciam sua obsessão autocorretora

O primeiro volume da coleção contribui, ainda, para a revisitação e, principalmente, para a revalorização da poesia de Borges, que em mais de um dos ciclos críticos foi colocada em segundo plano. Sua leitura atenta e detalhada, colocada à luz pelo estudo dos manuscritos, revela que ela foi tão inovadora e decisiva quanto a prosa borgiana. E nos ajuda a avançar para um novo tempo de releituras e para outras aproximações em relação à obra desse autor incrivelmente complexo e fascinante; um autor que compreendeu, como poucos, que o distante e o próximo se confinam, que a referencialidade histórica não precisa ser tratada com alarde e que a crítica, afinal, se imiscui o tempo todo na criação ficcional.

Quem escreveu esse texto

Julio Pimentel Pinto

Professor de história da USP, é autor de A pista & a razão: uma história fragmentária da narrativa policial (Peixe-elétrico Ensaios).

Matéria publicada na edição impressa #19 dez.18/fev.19 em novembro de 2018.