50 anos da Revolução dos Cravos, Repertório 451 MHz,

Adeus, Salazar

Nos cinquenta anos da Revolução dos Cravos, episódio especial reconstitui o dia que inaugurou a democracia em Portugal

25abr2024 - 04h51 • 25abr2024 - 19h59

Está no ar o 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Este 110º episódio é especial e vai falar sobre como nasce a democracia. Ou, ainda, sobre como, há 50 anos, uma revolução popular derrubou a mais longa ditadura da Europa. O dia que inaugurou as cinco décadas de vida democrática e transformou radicalmente a vida das pessoas e o lugar de Portugal no mundo. Quem conta essa história são brasileiros e portugueses que viveram o 25 de Abril e suas consequências culturais, políticas e sociais: os jornalistas Leão Serva, Joana Gorjão Henriques e Ruy Castro, os historiadores Fernando Rosas e Luiz Felipe de Alencastro e a escritora Dulce Maria Cardoso. O episódio foi realizado com apoio do Camões Instituto da Língua Portuguesa e da Fundação Fernando Henrique Cardoso.

O jornalista e escritor Ruy Castro, um dos maiores biógrafos e cronista do país, conta como, aos 26 anos, se tornou quase acidentalmente um dos únicos correspondentes brasileiros a cobrir a queda do regime fundado por António de Oliveira Salazar nos anos 30. Em entrevista ao jornalista Leão Serva, ele conta como a revolução foi radiodifundida, isto é, como o levante militar começou não com um tiro, mas com uma canção no rádio como senha para tomar o poder.

“Os insurgentes sabiam que à meia-noite do dia 24 de abril, o rádio ia tocar uma música chamada ‘E depois do adeus’, que era de um cantor popular de Portugal, tipo Roberto Carlos. E assim que terminasse, se entrasse ‘Grândola, Vila Morena’, era para sair. Era para pegar as armas e sair em direção a Lisboa.”

Ruy foi avisado naquele 25 de abril por uma amiga que a rádio só estava tocando marchas militares. Sem entender direito ainda o que estava acontecendo, decidiu sair de casa e ir até a redação da revista Seleções, onde trabalhava, para descobrir o que estava acontecendo.

“Eu estava com casaco e de repente alguém me espeta um cravo vermelho na lapela, entendeu? E aí, quando olhei em volta, estava todo mundo com cravo vermelho na lapela”, lembra.

“Era uma revolução que tinha trilha sonora, que tinha as ruas ocupadas 24 horas por dia, aquelas ruas vazias em que não acontecia nada cheias de gente o dia todo, passeatas de partidos, de grupos partidários ainda não oficiais que se intitulavam de extrema esquerda, de centro, de centro-esquerda, de esquerda, uma coisa espetacular.”

Autor de Salazar e os fascismos (Tinta-da-China Brasil, 2023), o historiador português Fernando Rosas explica como o ditador conseguiu ficar tantos anos no poder e implantar um regime hoje considerado fascista.

“É uma modalidade de regime fascista, com partido único; com uma polícia política no centro de todo o aparelho repressivo e judicial; com uma milícia fascista chamada Legião Portuguesa; com uma milícia de juventude; com uma organização corporativa do Estado decalcada no Estatuto do Trabalho Nacional mussoliniano e nas leis do corporativismo italiano; e também com uma retórica imperial colonial”, afirma.

Salazar e os fascismos, de Fernando Rosas

A jornalista Joana Gorjão Henriques, que trabalha com a questão do racismo em Portugal e se considera uma filha do 25 de Abril, conta como, até hoje, a popularidade de Salazar é uma coisa que impressiona.

“Em 2007, Salazar foi eleito o maior português de sempre num programa da RTP. Eu sei que já passaram alguns anos, mais de dez, não é? Mas, a verdade é que dez anos também não é assim tanto tempo.”

Já a romancista Dulce Maria Cardoso, autora de O retorno, explica como era a vida em Angola e como foi a grande experiência histórica dos portugueses que voltaram das colônias quando o império se desfez.

“Só há pouco tempo é que eu percebi que eu pertenço a um sítio impossível de explicar, que é colônia. A colônia não é Angola e nem Portugal, a colônia é outra coisa. E o tempo colonial é outra coisa, o espaço e o tempo coloniais são outra coisa. E foi aí que eu cresci. Portanto eu não cresci em Angola, eu cresci numa colônia, o que é completamente diferente. A minha vida na colônia era, do ponto de vista de uma criança, uma vida feliz, mas foi também uma aprendizagem da crueldade e da violência.”

O retorno, de Dulce Maria Cardoso

O episódio tem ainda a participação de outro grande historiador, o brasileiro Luiz Felipe de Alencastro, que conta como essa revolução cultural que começou antes do 25 de Abril teve uma personagem surpreendente: a atriz Sônia Braga, protagonista de Gabriela, Cravo e Canela, novela da Globo que era exibida em Portugal e começou a mexer com a cabeça da população, cansada do moralismo e da repressão de Salazar.

“E aí entra quem? Sônia Braga, Gabriela, Cravo e Canela. E aí explodiu a cabeça dos portugueses, porque era aquela proximidade de uma coisa meio rural e já moderna, uma liberdade de costumes”, recorda.

“Parava tudo em Portugal, não é uma expressão, parava o hospital, o restaurante, você ia, tinha que encomendar antes da novela porque começou a novela os garçons, cozinheiro, o dono do restaurante não atendiam mais ninguém, ficavam lá na frente [da televisão]. Isso foi então uma coisa que acelerou essa revolução cultural.”

O episódio em formato narrativo tem a coordenação do jornalista Leão Serva, que também assina o roteiro junto com o diretor da Quatro Cinco Um, Paulo Werneck. Também colaboraram na preparação a editora executiva Beatriz Muylaert, a produtora Ashiley Calvo e o editor Amauri Arrais.

O especial do 451 MHz é parte da cobertura que lembra os cinquenta anos da Revolução dos Cravos, com publicações também no site e na edição #80 da revista dos livros, que tem como tema “Como nasce a democracia”. A edição traz entrevistas com Ruy Castro, Dulce Maria Cardoso e com o fotógrafo Sebastião Salgado, cujas imagens históricas da festa em Lisboa e dos atos de independência das ex-colônias portuguesas ilustram todo o material.

A Quatro Cinco Um publica o podcast e o material da revista com o apoio do Camões Instituto da Língua Portuguesa e da Fundação Fernando Henrique Cardoso.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Direção geral e apresentação: Paulo Werneck
Coordenação geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Ashiley Calvo
Reportagem: Leão Serva
Roteiro: Paulo Werneck e Leão Serva
Entrevistas: Beatriz Muylaert e Amauri Arrais
Tratamento de roteiro: Ângela Fatorelli
Gravação de locução: Confraria de Sons & Charutos
Edição e sonorização: Cláudia Holanda
Finalização e mixagem: Mari Blue
Produção Musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Bia Ribeiro
Para falar com a equipe: [email protected].br

Especial 50 anos da Revolução dos Cravos

Especial 50 anos da Revolução dos Cravos realizado com o apoio do Camões Instituto da Cooperação e da Língua e da Fundação Fernando Henrique Cardoso