Repertório 451 MHz,

Quatro paredes e uma janela

Fernanda Torres e Branca Vianna discutem sobre as semelhanças entre 'Anatomia de uma queda' e o caso Ana Mendieta e as difíceis relações de poder num casal

05abr2024 - 01h00 • 04abr2024 - 23h35

Está no ar o 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Neste 109º episódio, as convidadas são a atriz e escritora Fernanda Torres e Branca Vianna, presidente da Rádio Novelo e apresentadora do Rádio Novelo Apresenta. As duas conversam sobre Anatomia de uma queda, o filme da diretora Justine Triet vencedor do Oscar de melhor roteiro esse ano, e sobre a artista cubana Ana Mendieta, que morreu em 1985 ao cair da janela do apartamento do companheiro, o escultor Carl Andre. As semelhanças entre o ocorrido com Mendieta e o enredo do filme chamaram a atenção de alguns observadores mais atentos — como Branca, que escreveu sobre o tema na Quatro Cinco Um de março. O episódio foi realizado com apoio da Lei de Incentivo à Cultura e da Companhia das Letras.



Atriz, escritora, roteirista e apresentadora, Fernanda Torres já esteve na casa de muitos brasileiros por meio dos papéis que interpretou em novelas e séries. Fim, romance que lançou em 2013 pela Companhia das Letras, ganhou, dez anos depois, adaptação para série pelo Globoplay, exibida no ano passado pela TV Globo.

Fim, de Fernanda Torres

Fundadora e presidente de uma das maiores produtoras de podcasts do país, a Rádio Novelo, Branca Vianna narrou em 2020 Praia dos ossos, podcast premiado que contou com detalhes o assassinato da modelo Ângela Diniz. A Branca também pode ser ouvida toda semana no podcast Rádio Novelo Apresenta.

A apresentadora conta que não conhecia a história de Ana Mendieta até a morte do companheiro dela, Carl Andre, em janeiro deste ano. Ao ler o obituário do escultor, soube que ele havia sido acusado e absolvido da morte da ex-mulher, o que despertou sua curiosidade sobre a artista. 

“Fui pesquisar e confesso que fiquei meio obcecada por ela, sua história e sua arte. Acho que teria sido uma grande artista se tivesse vivido mais, ela morreu muito cedo, com 36 anos, e já tinha uma obra importante”, conta. “Era também uma mulher interessante, muito viva, cheia de energia, que teve uma vida muito difícil.”

Relações de poder

Mendieta nasceu em Havana, numa família abastada e católica que apoiou inicialmente a revolução de Fidel Castro. Quando o clima começou a pesar em Cuba, ela e uma irmã foram mandadas sozinhas para os Estados Unidos, e perambularam por orfanatos, instituições para jovens infratores e colégios internos, sofrendo racismo e xenofobia. A mãe e outra irmã só se juntariam a elas cinco anos depois, quando o pai foi preso pelo regime.

Muito dessa violência que sofreu está na obra da artista, especialmente a violência contra a mulher. Ao longo da curta carreira, Mendieta usou barro, areia, pedra, sangue e pólvora como materiais artísticos. Uma arte que, segundo Branca, era radicalmente diferente da do seu companheiro, um escultor de estilo minimalista, que foi acusado de empurrá-la da varanda.

Uma das obras da artista, que mostra uma silhueta de um corpo na neve, despertou a atenção de Fernanda. A cena parece ser quase reproduzida em Anatomia de uma queda, filme que, apesar das muitas semelhanças com a história de Mendieta, apresenta a dinâmica da suspeita com os gêneros invertidos: uma escritora é acusada pela morte do marido, também escritor, encontrado morto após cair da varanda de casa. 

“Se Anatomia de uma queda fosse um filme americano, provavelmente você acabaria sabendo se ela matou ou não, e iria dormir em paz porque o mistério foi desvendado. Só que o interessante do filme é que não importa o mistério”, diz a atriz. “A Branca coloca isso muito bem na Quatro Cinco Um: a questão não é saber se matou ou não. A questão é das relações de poder dentro de um casamento.” 

Absolvição

Outro ponto em comum entre ficção e vida real, Carl Andre foi absolvido da acusação de causar a morte da mulher, assim como a protagonista do filme. Branca Vianna observa que, como o casal de Anatomia de uma queda, os dois haviam tido uma discussão sobre suas respectivas produções artísticas. 

“No caso da Ana Mendieta e do Carl Andre, a gente nunca tem como saber se isso é verdade ou não, mas ele diz que ela teria ficado muito chateada porque eles tiveram uma discussão de que ele era um artista mais exposto ao público do que ela, quer dizer, não um artista melhor, mas mais conhecido — que é mais ou menos a briga de Anatomia de uma queda. E por isso, ela teria se matado”, afirma.

As duas autoras também destacam o forte machismo que envolveu toda a investigação da morte da artista, que teve o teor alcoólico verificado depois de morta (enquanto o do marido não foi medido). Além disso, a violência denunciada na obra de Mendieta e o fato de se interessar por religiões afro-cubanas foram usados no julgamento para justificar um suposto suicídio.

Experiências humanas

Ao comentar sobre Fim, seu romance de 2013 que foi adaptado recentemente em uma série pelo Globoplay, Fernanda Torres afirma que a história também aborda as difíceis relações de alguns casais de amigos ao longo de algumas décadas. “Os problemas do macho de Copacabana com suas mulheres não estão muito longe dos problemas nos Alpes. É muito difícil ser casada, as relações humanas não são simples.”

As convidadas também discutem sobre a existência de uma experiência feminina nas artes. Branca cita a italiana Alba de Céspedes, autora de Caderno proibido, que narra a rotina de uma dona de casa que queria ser escritora, durante os anos pré e pós-Segunda Guerra. “A gente passou a vida inteira lendo a experiência do homem como universal, e a Alba de Céspedes é o exemplo feminino disso. Não é que seja uma arte feminina ou masculina, mas uma experiência diferente de vida, universal, de ser humano.”

Caderno proibido, de Alba de Céspedes

Fernanda conta ter despertado para outro momento importante de construção dessa arte feminina ao ver a mãe, Fernanda Montenegro, interpretando Simone de Beauvoir no teatro. Segundo ela, a teórica francesa escreveu o clássico O segundo sexo após ter sido provocada pelo companheiro Jean-Paul Sartre a escrever sobre a realidade dela como mulher. 

“Ela achava que tinha de acontecer uma mudança no mundo, tipo vir o comunismo, para que todo mundo fosse igual. E quando ela descobriu o feminismo americano, entendeu que não tinha que esperar o comunismo acontecer, que a própria luta da mulher era a que estava engajada.”

O segundo sexo, de Simone de Beauvoir

Mais na Quatro Cinco Um

Além de Fim, Fernanda Torres é autora do romance A glória e seu cortejo de horrores (2017) e de Sete anos (2014), coletânea de crônicas publicadas ao longo de sete anos na imprensa, todos pela Companhia das Letras. A atriz e escritora também colaborou com a Quatro Cinco Um em 2018, quando resenhou Reflexões sobre Shakespeare, de Peter Brook.

“O ponto de partida é a pergunta que volta e meia retorna: afinal, quem escreveu Shakespeare? Há os que acreditam que só um nobre possuiria a cultura necessária para criar uma obra tão vasta; outros levantam a hipótese de que por trás do nome se esconderia um coletivo de autores. Para Brook, a prova de que Shakespeare existiu é o fato de Mozart ter existido”, escreveu. 

Branca Vianna publicou “Anatomia de uma outra queda”, artigo em que reflete sobre o caso Ana Mendieta, o filme premiado e as relações de poder entre casais, na edição #79 da revista dos livros, de março. 

“A ficção de 2023 repete muitos dos temas do caso real de 1985: a dinâmica de gênero em um casal heterossexual, questões de poder, ambição, inveja, vocação, talento, ciúmes e morte. Mais uma vez, há uma absolvição. E, mais uma vez, isso nos basta?”, questiona. 

A podcaster também escreveu, em novembro de 2018, sobre as distorções geradas por preconceitos de gênero aos quais até o campo da pesquisa científica está sujeito, ao resenhar Inferior é o car*lho, da inglesa Angela Saini, e Testosterona rex: mitos de sexo, ciência e sociedade, da britânica Cordelia Fine. Leia a íntegra da resenha.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz uma sugestão do escritor Silviano Santiago, autor de Grafias de vida — a morte, publicado pela Companhia das Letras em 2023. Ele indica a produção literária do francês André Gide, em especial Os moedeiros falsos, publicado em 2009 pela Estação Liberdade em tradução de Mário Laranjeira. 

Os moedeiros falsos, de André Gide

“Tive a grande sorte de encontrar no Rio de Janeiro um manuscrito de André Gide, que me levou a me interessar de maneira profissional pela obra dele e me formei lendo essa obra. Tenho que recomendar esse mesmo caminho porque a obra de Gide teve enorme importância. Dentre os livros dele, destaco três: Os alimentos da terra, O imoralista e a obra-prima Os moedeiros falsos”, conta o autor.

Confira a lista completa de indicações do podcast 451 MHz no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Ashiley Calvo
Edição: Luiza Silvestrini
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: Pipoca Sound
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Bia Ribeiro
Para falar com a equipe: [email protected].br