Listão da Semana,

Alamut e mais 6 lançamentos

Populismo, manipulação e ameaças totalitárias são temas de dois lançamentos nas áreas de ficção e não ficção

25mar2022 - 08h22 | Edição #56

Questões recorrentes no debate contemporâneo, como populismo, manipulação e ameaças totalitárias, são temas de dois lançamentos nas áreas de ficção e não ficção.

O romance publicado em 1938 pelo esloveno Vladimir Bartol mostra como um líder pode manipular crenças políticas e religiosas para instaurar um Estado totalitário. Ainda atual, Alamut inspirou a série de jogos eletrônicos Assassin’s Creed e o filme homônimo, lançado em 2016, com Michael Fassbender, Jeremy Irons e Marion Cotillard no elenco.

Já os dois ensaios reunidos em A República de chinelos, de Luciana Villas Bôas, analisam as estratégias simbólicas do bolsonarismo a partir de imagens replicadas nos meios de comunicação e nas redes sociais. As fotos de um presidente de chinelos na sede do Executivo e de seus eleitores exibindo armas no dia da votação são usadas pela professora da UFRJ  para refletir sobre os mecanismos de representação que contribuem para a ruptura da ordem democrática.

Completam a seleção da semana um estudo sobre o pacto da branquitude no discurso da meritocracia, de Cida Bento, fundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, a ficção científica de Anna Kavan, na qual um triângulo amoroso formado pelos protagonistas tenta escapar de uma catástrofe ambiental, a história sobre a amizade de duas adolescentes indianas escrita por Shobha Rao, um retrato ficcional da desigualdade de gênero na Coreia do Sul por Cho Nam-Joo e o romance inacabado de David Foster Wallace, publicado após a morte do autor.

Viva o livro brasileiro!

Alamut. Vladimir Bartol.
Trad. Alexandre Boide • Morro Branco • 576 pp • R$ 74,90

Publicado em 1938, Alamut inspirou a série de jogos eletrônicos Assassin’s Creed e o filme homônimo com Michael Fassbender, Jeremy Irons e Marion Cotillard, lançado em 2016. Influenciado pela psicanálise e pelo expressionismo, o escritor esloveno reconta a história de Hasan ibn Sabbah, que no século 11 fundou “A Ordem dos Assassinos”, uma tropa suicida de elite alimentada por uma intensa paixão religiosa e pela promessa de paraíso após a morte. Traduzido em dezoito línguas, o romance ambientado em uma fortaleza nas montanhas de Elburz, no Irã, mostra como um líder carismático pode manipular crenças políticas e religiosas e instaurar um Estado totalitário, tal como os de Hitler, Mussolini e Stálin. 

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O pacto da branquitude. Cida Bento. 
Companhia das Letras • 152 pp • R$ 39,90/27,90

Fundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, a psicóloga e ativista paulistana revela a falácia do discurso meritocrático ao analisar a desigualdade de raça no processo de seleção de empregados no mercado de trabalho: pessoas negras com diploma superior são preteridas em relação a pessoas brancas com currículos equivalentes ou inferiores. Um “pacto narcísico” entre os brancos preserva os privilégios raciais e interdita o acesso dos negros a posições de poder, mas nega a existência de qualquer tipo de racismo, embora o negro seja visto como um outro inferior e ameaçador, que deve ser excluído do universo social.

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Gelo. Anna Kavan. 
Trad. Camila von Holdefer  • Pref. Jonathan Lethem • Posf. Victoria Walker •  Fósforo • 208 pp • R$ 69,90

Nesta ficção científica publicada em 1967 – muito admirada por Doris Lessing, Anaïs Nin, Jean Rhys, J. G. Ballard e Patti Smith –, três protagonistas sem nome (o narrador sádico, a loira platinada e o cruel e arrogante guardião), enredados num triângulo amoroso, tentam escapar de uma catástrofe ambiental que destruirá o planeta com uma avalanche de gelo. Ágil como um thriller, este romance onírico mostra uma forte desilusão com a humanidade: todos os personagens são culpados.

Trecho do livro: “A neve começou a cair incessantemente, lançada no meu rosto pelo vento ártico. O frio me queimou a pele, congelou minha respiração. Para manter a neve longe dos olhos, coloquei o capacete pesado. Na altura em que a praia ficou visível, uma espessa crosta de gelo tinha se formado na borda do capacete, tornando-o ainda mais pesado. Através da cortina branca e movediça a casa surgiu indistinta à frente, mas não conseguia identificar se mais adiante havia ondas ou uma enorme extensão irregular de blocos de gelo flutuando. Era difícil andar contra o vento. A neve engrossou, caía implacável, se espalhando ininterrupta, estendendo uma camada de brancura estéril na superfície do mundo agonizante, enterrando os assassinos e as vítimas juntos numa vala comum, extinguindo o último vestígio do homem e de suas obras”.

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O brilho do sol que invadiu a nossa casa. Shobha Rao. 
Trad. Daniela Belmiro • LeYa • 384 pp • R$ 40

Nascida na Índia, a romancista americana (ganhadora do prêmio Katherine Anne Porter) narra a história de duas adolescentes indianas muito pobres que se tornam amigas. Poornima perdeu a mãe aos dezesseis anos e agora precisa cuidar de quatro irmãos mais novos, enquanto o pai tenta lhe arrumar um marido. Savitha, ainda mais pobre do que a amiga, tenta ganhar dinheiro para pagar as despesas da família e guardar um pouco para formar os dotes de suas irmãs. A amizade entre as duas se fortalece e torna-se um obstáculo para os casamentos arranjados. 
 
Trecho do livro: “– Sua tola! – disse a tia. – Quem vai querer se casar com você desse jeito? Graças ao Senhor Vishnu sua mãe não estava aqui para ver isso. Ela teria morrido de vergonha por ter uma filha tão horrível. Você não entende? Não tem nada a ver com você saber ou não cantar, sua boba. Eles querem saber é se você escuta o que dizem. Se vai ser obediente. E agora já sabem. Sabem que você é malcriada. Quando Poornima contou isso a Savitha, no dia seguinte, ela deu risada. – Muito bem! É assim que se faz. – Ela afastou uma mecha de cabelo que havia caído no rosto de Poornima. – Pronto. Vamos ficar bem”.

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A República de chinelos: Bolsonaro e o desmonte da representação. Luciana Villas Bôas.
Posf. Newton Bignotto • Editora 34 • 112 pp • R$ 47

Professora da UFRJ analisa a estratégia simbólica do presidente Jair Bolsonaro e de seus adeptos a partir de duas imagens concretas: o presidente de chinelos no Palácio do Planalto e as armas levadas por seus eleitores para a cabine de votação. A partir daí, ela discute o imaginário bolsonarista e suas investidas para solapar a legitimidade das instituições de Estado, eliminar a separação entre a esfera pública e a esfera privada e promover a ruptura da ordem democrática.   

Trecho do livro: “O desmazelo da imagem de Bolsonaro revela a falácia da encenação populista do político não convencional. Nos três momentos estudados, o uso de chinelos, o pronunciamento da área de serviço e a profusão de grosserias são prerrogativas do candidato ou do presidente. As quebras de protocolo podem até propiciar a identificação do presidente com o homem rude e simples, com o suposto outsider no poder. Mas, na verdade, exacerbam a assimetria de poder, o abuso do arbítrio, o monopólio da obscenidade”.

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Kim Jiyoung, nascida em 1982. Cho Nam-Joo.
Trad. Alessandra Esteche • Intrínseca • 176 pp • R$ 39,90/26,90

O terceiro romance da escritora coreana, publicado em 2016, descreve vivamente as desigualdades de gênero na Coreia do Sul ao expor a imensa diferença de tratamento entre as meninas e os meninos. Ainda pequena, Kim descobre como é desfavorecida em relação ao seu irmão mimado, tanto por seus pais quanto por seus professores. Além de tudo, ao se tornar adulta, sofre muito com o bullying, mas não recebeu compreensão nem apoio do pai. E também sofre com as cobranças do marido, que exige que ela abandone seu emprego para cuidar da filha recém-nascida. Diante disso, Kim começa a se comportar de modo tão estranho que é aconselhada a procurar um psiquiatra, a quem conta sua história.  

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O rei pálido: um romance inacabado. David Foster Wallace.
Trad. Caetano W. Galindo • Companhia das Letras • 608 pp • R$ 114,90

O romance inacabado estava com doze capítulos prontos, mas ainda não ordenados, e os outros rascunhados ou em construção quando o autor de Graça infinita morreu, aos 46 anos, em 2008. Publicada postumamente, em 2011, a narrativa sobre a rotina morosa dos agentes do fisco de uma cidadezinha rançosa de Illinois, num momento em que o Departamento conspira para extinguir os restos de humanidade e dignidade dos funcionários da repartição, expõe o impacto da tristeza, do tédio e da monotonia sobre o espírito humano.

Trecho do livro: “Não que ele fosse grande coisa em termos de aparência. Tinha umas meninas que chamavam ele de Cadáver. Elas precisavam arranjar um apelidinho malvado pra todo mundo. Ou chamavam ele de Tristão de Ataúde. Era tudo físico e só. Mas parecia que o corpo dele nem encostava na parte de dentro das roupas; elas só ficavam ali boiando. Ele andava como um cara de uns sessenta anos. Mas era engraçado, e conversava de verdade com você. Se alguém precisasse conversar sobre alguma coisa, assim, conversar de verdade, ele ia pra salinha de reuniões ao lado da cozinha com a menina e conversava.”

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.