A FEIRA DO LIVRO 2026,
Política e literatura brasileira são destaques do feriado n’A Feira
Ana Maria Machado, Nei Lopes, Carla Madeira, Daniel Munduruku, Norman Finkelstein e Stefano Mancuso participaram do festival literário paulistano
06jun2026O sexto e o sétimo dia d’A Feira do Livro celebraram grandes autores da literatura nacional, como Ana Maria Machado, Nei Lopes, Carla Madeira, Daniel Munduruku, Mariana Salomão Carrara e Lilian Sais. Autores internacionais, como o italiano Stefano Mancuso e o norte-americano Norman Finkelstein, também integraram a programação oficial para plateias cheias, tanto no Palco da Praça quanto no Auditório do Museu do Futebol.
O festival literário paulistano recebeu na quinta (4), feriado de Corpus Christi, e na sexta (5) grande público, que aproveitou os dias ensolarados para passear pelos estandes das editoras e conferir as atrações dos palcos e tablados na praça Charles Miller.

Um dos encontros mais concorridos foi entre as escritoras Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara, na mesa É sempre a hora, que teve mediação da jornalista Iara Biderman, editora da revista Quatro Cinco Um.
“A escrita é uma experiência corpórea; é o corpo que escreve”, afirmou Madeira durante o encontro, diante de uma plateia silenciosa e atenta, que acompanhou cada fala das duas autoras.
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Madeira leu um trecho e conversou sobre a escrita de Véspera (Record, 2021) e de outros romances, e Salomão Carrara falou a respeito do recém-lançado Cláudia Vera Feliz Natal (Todavia).
A dupla debateu a relação entre realidade e ficção nas respectivas obras, refletiu sobre as possibilidades da linguagem e criticou a limitação de se falar em uma “literatura feita por mulheres”. Após o papo, o público formou uma longa fila de espera para encontrar as autoras e pegar autógrafos.

Outro grande nome da literatura brasileira que apareceu n’A Feira foi Ana Maria Machado, que conversou com Hubert Alquéres, curador do Prêmio Jabuti. Instada a opinar sobre a literatura infantojuvenil produzida no Brasil hoje, Machado se dividiu entre a admiração e a crítica.
De um lado, ela celebrou a diversidade crescente das obras que chegam às livrarias, assinadas por autores de diferentes etnias, classes e regiões do país. De outro, criticou o que considera um didatismo excessivo não só das publicações voltadas às crianças, como também daquelas voltadas aos adultos.
“O problema da literatura hoje é que ela acha que tem que ensinar coisas o tempo todo. Mas a literatura é arte, é linguagem, não é um projeto pedagógico.” A vencedora do prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura para crianças e jovens, foi aplaudida de pé pelo público.

Já o escritor Daniel Munduruku abordou o apagamento da memória indígena latino-americana ao lado da escritora mapuche chilena Daniela Catrileo, em mesa que teve mediação do jornalista Leão Serva.
Na conversa, Munduruku afirmou que os brasileiros negaram a sua ancestralidade por décadas, fosse por vergonha dos estereótipos associados a ela, fosse pelos riscos de manifestá-la. “Não à toa, quando eu era criança, eu queria deixar de ser índio, queria ser branco, loiro”, relatou.
Palestina e autoritarismo
Grande público também compareceu para ver a mesa Holocausto e Palestina, na qual o cientista social norte-americano Norman Finkelstein conversou com a jornalista Patrícia Campos Mello. A fila para entrar no Auditório do Museu do Futebol era tão longa que chegou à área de autógrafos da Livraria da Travessa, a cerca de cinquenta metros.

Finkelstein está no Brasil para lançar A indústria do Holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento judaico (trad. Red Yorkie, Autonomia Literária), publicado originalmente em 2000. O cientista social afirmou que é um defensor da verdade, que já não é eficaz usar o Holocausto como ferramenta ideológica e que a maior causa do antissemitismo do mundo hoje é o Estado de Israel.
A ameaça autoritária no Brasil foi tema da mesa Como desarmar o autoritarismo, em que Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani Sales e Nina Ramos conversaram sob mediação do jornalista Antonio Mammi. Eles debateram o papel do Supremo na defesa da democracia, após os ataques de bolsonaristas em 8 de janeiro de 2023, e o que está em jogo nas eleições deste ano.
“A gente precisa parar de falar que o Supremo salvou a democracia — muita gente salvou. Ele participou do processo de ajudar a democracia a sobreviver a um momento de tensão”, afirmou Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional e um dos organizadores, com Romani Sales e Lucas Petroni, de Como desarmar o autoritarismo no Brasil, publicado pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um).

Romani, que participou da mesa junto de Nina Ramos, secretária-adjunta de políticas digitais da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, ressaltou ser fundamental “separar os críticos legítimos do STF e da democracia, que querem criticar para melhorar a instituição, daqueles que fazem a crítica só para tentar destruir o STF ou a democracia brasileira”.
Memória e literatura
As histórias de família como material literário também foram abordadas em algumas mesas do festival.
A escrita de autoras negras que tematizam as origens familiares foi assunto da mesa Laços de família, composta pela francesa Estelle-Sarah Bulle e a paulistana Bianca Santana, com mediação da jornalista Adriana Ferreira Silva. A conversa tocou ainda em temas como a busca da voz narrativa e da identidade mestiça.

A infância em tempos difíceis foi tema de Infâncias sob ditadura, em que, ao lado do veterano Chico Mattoso, a estreante Maria Brant, especialista em direitos humanos, relembrou os momentos iniciais da escrita de seu primeiro romance, O ano do cometa (Fósforo, 2026).
O romance mais recente de Mattoso, O hipopótamo (Todavia, 2025), foi escrito no mesmo período que o de Brant, durante a pandemia de Covid-19, e também tem como protagonista uma criança vivendo os anos logo após o fim da ditadura civil-militar.
“A escrita foi a minha maior interlocutora”, disse a escritora e tradutora argentina Bárbara Belloc na mesa Loucura é um bem de família, ao lado da paulistana Lilian Sais. Mediadas por Ana Lima Cecilio, as duas autoras compartilharam o processo de escrita de seus livros que abordam o tema da morte dos pais.
Escrita e edição
O processo de escrita e de produção de um livro não ficou de fora das conversas do evento. Na mesa Aprender a escrever, os escritores Roberto Taddei e Júlia Portes tentaram responder à pergunta: É possível ensinar alguém a escrever?.
“O grande risco do ensino de escrita é você formar não autores, e, sim, discípulos”, afirmou Taddei, que é romancista e coordena uma pós-graduação de formação de escritores.
Portes, atriz e escritora, concordou que não se ensina alguém a escrever, mas ressaltou a importância de ambientes que proporcionem a coragem para dizer o que não se diz. “São talvez os mais frutíferos para a escrita acontecer.”
Outra mesa que abordou a produção editorial, com ênfase na história do objeto livro, foi Design na página, que reuniu a editora argentina Ana Mosqueda, da casa editorial Ampersand, e o designer paulista Gustavo Piqueira, com mediação da historiadora Marisa Midori.
Mosqueda falou sobre os desafios e as particularidades da edição de livros, enquanto Piqueira revelou as razões de querer estudar a história do livro como objeto.
A edição de livros e textos jornalísticos foi debatida pelos editores da Quatro Cinco Um e da Tinta-da-China Brasil na mesa Sobre edição. A conversa, realizada no Espaço Motiva Tablado Literário, reuniu Iara Biderman e Amauri Arrais, da revista dos livros, e Sofia Mariutti, da editora, ambos projetos da Associação Quatro Cinco Um.
Samba e orixás
Ovacionado pela plateia em diversos momentos de sua fala, o compositor, pesquisador africanista, dicionarista e sambista carioca Nei Lopes encerrou em grande estilo a programação do feriado de Corpus Christi, no Palco da Praça.
A conversa Samba e afins com Nei Lopes, conduzida pelo escritor e sociólogo Tulio Custódio, marcou o lançamento de O “robusto” menino de Irajá: doces lembranças, eternas saudades, a autobiografia do autor, que foi coeditada pela Mórula Editorial e pela Expressão Popular.
Durante o encontro, ele relembrou histórias da infância no bairro, no subúrbio do Rio de Janeiro, comentou a paixão pelo estudo do direito e defendeu a cultura popular.

A cultura negra também embalou o encontro entre os escritores, babalorixás e pesquisadores João Tokunbó Carneiro e Sidnei Nogueira, que conversaram sobre Café da manhã com os orixás (Pallas, 2025), de Carneiro.
Na mesa, mediada pela jornalista Adriana Ferreira da Silva, Tokunbó Carneiro disse que seu trabalho é uma espécie de “reparação histórica” em relação ao best-seller cristão Café com Deus Pai. Afinal, argumentou, a tradição de consultar entidades divinas pela manhã para saber o que aconteceria ao longo do dia surgiu, originalmente, em práticas religiosas de matriz africana.
Plantas e o Antropoceno
As plantas foram tema central na conversa A Fitópolis de Stefano Mancuso, mediada pela jornalista Maria Guimarães. Nela, o botânico italiano defendeu uma transformação profunda das cidades para enfrentar a crise climática, dando menos espaço para carros e mais para árvores, parques e áreas de convivência.

Ao relacionar urbanismo, saúde e evolução humana, Mancuso argumentou que os seres humanos mantêm uma ligação biológica profunda com as plantas e citou estudos sobre os benefícios da presença do verde para a recuperação de pacientes hospitalizados, a aprendizagem e o bem-estar.
A Amazônia também foi tema de debate n’A Feira. Para o economista Ricardo Abramovay e o ambientalista Luiz Villares, resolver problemas relacionados a esse bioma é um desafio complexo e mesmo práticas apontadas como inovadoras, como a bioeconomia e a agroecologia, talvez não sejam suficientes para solucioná-los.
A dupla participou da mesa Antropologia e Antropoceno, mediada pela jornalista Alexandra Ozorio de Almeida.
A era digital
Em uma conversa bem-humorada sobre temas sérios, na sexta (5), o geógrafo Kauê Lopes dos Santos e a antropóloga Paula Sibilia discutiram como a lógica do consumo vem substituindo aspectos importantes da vida em sociedade, como a mobilização por direitos.
Mediada por Anna Virginia Balloussier, repórter especial da Folha de S.Paulo, a conversa, que aconteceu na mesa Eu mereço: consumismo na era digital, passou por assuntos que estão na ordem do dia do debate público, como o endividamento da população, a proliferação das bets e o fim da escala 6×1.

Já a jornalista e pesquisadora Januária Cristina Alves e o educador Fernando José de Almeida discutiram os impactos das tecnologias digitais na educação e na formação dos jovens, assim como na vida em sociedade.
Ao abordar temas como a proibição de celulares nas escolas, a influência das plataformas, o papel das famílias, a crise da leitura e o avanço da inteligência artificial, os convidados defenderam que a educação midiática e o pensamento crítico são caminhos essenciais para enfrentar os desafios do ambiente digital.
Futebol e quadrinhos
A menos de uma semana do início da Copa do Mundo de 2026, o futebol subiu no palco d’A Feira do Livro para uma conversa que mostrou como o jogo vai bem além das disputas esportivas, refletindo a política e, no caso latino-americano, a diversidade cultural e geográfica do continente.
A mesa Os libertadores da América reuniu, no Auditório do Museu do Futebol, o escritor e cronista argentino Alejandro Droznes, autor da coletânea de crônicas Libertadores da América (Pinard, 2026), e o professor da Unifesp e da USP Fabio Luis Barbosa dos Santos, autor do ensaio Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol (Elefante, 2026).
Eles discutiram o que o esporte mais popular do planeta diz sobre as relações internacionais e a história da América Latina. “A nacionalidade modela a maneira como nos aproximamos do jogo”, afirmou Droznes, enquanto Santos criticou a Fifa por descumprir o próprio estatuto e realizar a próxima Copa em um país em guerra, os Estados Unidos.

A ilustradora iraniana Marjane Satrapi (1969-2026), morta na quinta (4), foi a grande homenageada da mesa Minas de HQ, com as pesquisadoras e quadrinistas Dani Marino e Gabriela Borges.
“Persépolis foi um fenômeno tão relevante porque é uma mulher narrando a história”, disse Borges, organizadora, com Marino, da coletânea Quadrinhos, diversidade e insurgência: Mina de HQ 10 anos (Kipuka).
A obra compila HQs assinadas por cerca de duzentas quadrinistas brasileiras, mulheres cis, transgênero e não bináries. O projeto é a versão impressa da plataforma criada por Borges em 2016, chamada Mina de HQ.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

