24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Sara de Santis/Divulgação)

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Com público recorde, Flip cria teia poética em torno de Orides Fontela

24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty celebrou a imaginação e debateu a política atual

28jul2026

A Flip que bateu o recorde de público, com estimadas 40 mil pessoas, foi também uma das mais poéticas. Sob as bênçãos de Orides Fontela, a poeta homenageada, a programação criou uma teia em que poesia, política e imaginação foram debatidas e celebradas — no palco do auditório principal, nas casas parceiras e até em missa, oficiada pelo poeta-cardeal português José Tolentino de Mendonça. 

Público no Palco da Praça na Flip 2026 (Sara de Santis/Divulgação)

Autores convidados e público foram instigados a encarar os próprios abismos por meio dos versos, mas também a reconhecer a literatura que restaura vidas. Esse exercício começou já na conferência de abertura, na quarta (22), com uma fala do professor e crítico literário Augusto Massi e uma performance da poeta Marília Garcia.

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Os dois entrelaçaram memórias, reflexões sobre os versos de Fontela, e Garcia projetou imagens — desde cenas difusas de um apocalipse a gravuras de Mira Schendel, algumas usadas em antigas edições de livros da homenageada, trazendo Fontela, uma poeta que tinha ficado um pouco esquecida, para a contemporaneidade.

O silêncio e o tumulto causados pelo poema foram tema da primeira mesa da programação, na quinta (23), que reuniu os poetas José Tolentino de Mendonça, de Portugal, e o mineiro Edimilson de Almeida Pereira. “Poetas tentam devolver ao silêncio a gramática da vida”, disse o português, que acabou de lançar no Brasil a antologia Os enigmas singulares (Círculo de Poemas). 

Edimilson de Almeida Pereira, José Tolentino de Mendonça e Sofia Mariutti (Walter Craveiro/Divulgação)

Ele e o poeta mineiro, que teve sua obra reunida em Poesia & agora (Mazza, 2025), leram vários trechos de seus poemas, que emocionaram a plateia, especialmente quando, no meio de uma leitura de Tolentino de Mendonça, por coincidência ou força maior, os sinos da igreja matriz de Paraty, ao lado do auditório. 

“Nem sempre as mesas de poesia despertam tanta emoção”, disse a curadora da 24ª Flip Rita Palmeira, destacando também a conversa dos cariocas Leonardo Gandolfi, autor de O pote de mel e outros poemas (Editora 34, 2025) com a escritora Mateus Baldi, que acaba de lançar Caetano Veloso: Transa (Cobogó), uma investigação jornalística-poética sobre o álbum do músico baiano. A curadora também celebrou a “mesa belíssima” da poeta angolana e prêmio Camões Ana Paula Tavares, mediada pelo poeta Tarso de Melo.

Ana Paula Tavares e Tarso de Melo (Walter Craveiro/Divulgação)

Ouça no 451 MHz: Rita Palmeira, curadora da festa literária de Paraty, fala sobre a vida e a poesia lúcida, concisa e precisa de Orides Fontela (1940-1998)

Travessias

Tavares lança no Brasil o livro de crônicas O sangue da buganvília (Pallas) e falou das relações entre Angola e Brasil, entrando em temas da geopolítica atual, que também estiveram na mesa dos ucranianos Andei Kurkov, autor de Ucrânia: diário de uma guerra (Carambaia, 2025), e Maria Reva, autora de Extinção (DBA, 2026); e na do líbio-britânico Hisham Matar, que lança Meus amigos (Âyiné), com o amazonense Milton Hatoum.

Maria Reva, Andrei Kurkov e Laura Capelhuchnik (Walter Craveiro/Divulgação)

Impossibilitado de viajar, Matar participou do encontro por videochamada. “As ditaduras sempre fracassam porque nossa capacidade de amar, de encontrar solidariedade, é muito profunda”, afirmou o autor de obras que narram o encontro do pessoal com o político.

As relações entre países africanos e a Europa ou o Brasil foram abordadas nos livros e na mesa do paraibano-guineense Ernesto Mané e da franco-congolesa Ève Guerra. Enquanto Mané narra, em Antes do início (Tinta-da-China Brasil, 2025), seu périplo pela Guiné-Bissau em busca de respostas sobre seu pai, Guerra investiga os perversos efeitos do colonialismo sobre a figura do pai da protagonista de Repatriação (Companhia das Letras, 2025).

Ernesto Mané, Eve Guerra e Adriana Ferreira Silva (Denis Santana/Divulgação)

A geopolítica desta Flip também foi marcada pela forte presença de autores de editoras de menor porte, encabeçadas pela Hedra, que publica Orides Fontela, que se juntaram aos escritores de grandes grupos editoriais.

Musas de Paraty

Entre as conversas com forte teor político, uma das que causaram mais repercussão foi a da ministra Cármen Lúcia. Única mulher a ocupar uma das cadeiras do Supremo Tribunal Federal, foi aplaudida de pé após uma fala em que criticou duramente ataques aos direitos femininos e à democracia e divertiu a plateia com “causos” sobre sua vida fora do tribunal.

Citando Nelson Rodrigues, a ministra disse que temos que ter “a mesma ousadia dos canalhas”.“Esses são os que atravessam a história e tentam tomá-la em benefício próprio. É preciso ter a força necessária para não permitir — não se compadecer com nenhum tipo de aventura antidemocrática”, disse. 

Carmen Lúcia é aplaudida de pé na Flip (Walter Craveiro/Divulgação)

Cármen Lúcia acaba de lançar, com as historiadoras Heloísa M. Starling e Nayara Corrêa Henriques Pinto, Pela mão do povo: voto e democracia no Brasil (Bazar do Tempo), coletânea da qual é coautora e coorganizadora. Nas ruas de Paraty, atendendo a inúmeros pedidos de selfies, a ministra foi apelidada de Musa da Flip.

Outra mulher de destaque foi Angela Davis, que esteve em programação paralela no Sesc Caborê. A ativista norte-americana falou da ascensão do fascismo em seu país e instou brasileiros a não permitir que “o filho daquele” seja eleito. Ela não citou os nomes de Bolsonaro e Trump propositalmente: “Há uma tradição africana que diz que o ato de nomear alguém dá poder. Então me recuso a nomeá-lo”.

Angela Davis (Helio Melo/Sesc RJ/Divulgação)

Na ficção, o nome mais esperado foi o da escritora britânica Zadie Smith, que conversou com Juliana Borges no horário mais nobre da Flip, na noite de sábado (25). 

A autora de Dentes brancos e A fraude, publicados pela Companhia das Letras, falou de seus romances, ensaios, de modae de sua empatia tanto quando escreve ensaios quanto na ficção: “O meu desejo é fazer com que as pessoas vivam nas páginas”

Zadie Smith e Juliana Borges (Denis Santana/Divulgação)

A imaginação no poder

Nos palcos espalhados por Paraty, autoras e autores também falaram sobre a literatura como forma de restaurar vidas, memórias e heranças. 

“Lemos romances porque eles restauram a vida em nós”, disse o franco-argelino Kamel Daoud, autor de Língua interior (DBA, 2025), romance em que narra as atrocidades da guerra civil na Argélia a partir do relato de uma sobrevivente para a filha que leva no ventre. Alvo de mandados de prisão e ameaças de morte em seu país, o escritor, que vive na França, dividiu a mesa com a luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida. 

Djaimilia Pereira de Almeida e Kamel Daoud (Walter Craveiro/Divulgação)

A colunista da Quatro Cinco Um falou sobre O livro do meu pai (Todavia, 2025), no qual imagina o romance que o pai contou estar escrevendo a vida inteira, mas que, após a morte dele, descobriu não ter uma única página escrita. “Percebi que um livro não existe só quando é escrito”, disse.

Autora de Os imortais (Fósforo, 2026), romance que narra a saga de um clã de neandertais tentando sobreviver a todo tipo de intempéries, a brasiliense Paulliny Tort defendeu, na quinta (23), que fabular deveria ser tratado como comer, dormir e outras atividades vitais. “A gente tem a imaginação como algo sem valor, que deixamos para trás na infância, mas esse exercício de inventar mundos é a vida em si.”

Mesa com Pauliny Tort e Andréa del Fuego (Walter Craveiro/Divulgação)

“Acho que imaginação é um jeito de lamber, tocar, cheirar o mundo até de uma forma mais íntima”, disse Andréa del Fuego, que dividiu a mesa com Tort. As duas também criticaram o uso de inteligência artificial na criação literária. “Acho inconcebível trocar uma experiência cerebral fulminante por um prompt”, disse Del Fuego.

As línguas, as pátrias e o poder da ficção foram debatidos na mesa que juntou o guatemalteco Eduardo Halfon, autor de O boxeador polonês (Autêntica, 2026), e a escritora Paloma Vidal, nascida em Buenos Aires e residente no Brasil desde os dois anos. 

Paloma Vidal, Eduardo Halfon e Gabriela Mayer (Walter Craveiro/Divulgação)

Para Vidal, que acaba de lançar O lado de lá (Bazar do Tempo), a ficção não deve estetizar o trauma, mas procurar imagens. “Isso faz parte desse trabalho coletivo de memórias.” “Linguagem é como um escafandro que você coloca para respirar”, disse Halfon. 

A imaginação de criar um mosquito para narrar a história da malária, usada pela escritora alemã Carmen Stephan em Malária (Tinta-da-China Brasil, 2026), foi elogiada pelo médico e escritor Drauzio Varella: “Que criatividade, ter contado a partir do ponto de vista do mosquito. Por que não pensei nisso?”, disse Varella, que escreveu sobre sua experiência com a febre amarela em O médico doente (Companhia das Letras, 2007). 

Drauzio Varella e Carmen Stephan (Walter Craveiro/Divulgação)

Na conversa, os dois também falaram da proximidade da morte, da importância do SUS e do direito à eutanásia. “Um dia a festa acaba. Por isso você tem o direito de decidir como quer ir embora da sua festa”, defendeu Varella.

Livro em debate

O recorde de público foi motivo de celebração, mas também de preocupação para a organização da festa literária. Na tarde de sábado (25), um princípio de tumulto ocorreu diante da pousada onde se apresentaram a ministra Carmen Lúcia, Conceição Evaristo e a jornalista Miriam Leitão. Um público bem maior do que a capacidade da casa ficou de fora e protestou. Ao citar o episódio em entrevista à imprensa no domingo, o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, disse que o evento não foi realizado em uma casa parceira.

O grande número de casas realizando atividades, com autoras e autores queridos do público se apresentando, provocou longas filas para acompanhar também a programação paralela — e a inevitável ansiedade de estar sempre perdendo algo. 

Na Casa da Fundação Itaú, um encontro sobre as perspectivas de feiras e festivais literários discutiu a importância desse tipo de evento. “Precisamos sair dessa cilada de que a democracia é algo só eleitoral. A circulação de livros também garante a democracia”, disse Paulo Werneck, diretor da Associação Quatro Cinco Um e idealizador d’A Feira do Livro

A centralidade do livro nas democracias também foi debatida na mesa que reuniu a deputada estadual Marina Helou (PSB-SP) e a atriz marajoara Isabella Miranda na Casa Delas, na quinta (23). “A imaginação ajuda a construir coletivamente o país que a gente quer ser”, disse Helou, que estreia como autora com Quem está formando os nossos filhos?, publicado pela Tinta-da-China Brasil

Marina Helou e Isabella Miranda (Divulgação)

O selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, além dos autores que participaram da programação no auditório principal, levou a Paraty outros autores da casa. Autor de textos e coorganizador de Como desarmar o autoritarismo no Brasil: uma agenda para a desradicalização (2026), o professor de direito e diretor do LAUT Conrado Hübner Mendes apresentou o projeto em debate na Casa República.

A romancista e crítica literária Tatiana Salem Levy lançou em Paraty Diga a coisa como ela é, coletânea de ensaios que aborda um vasto repertório literário pela perspectiva de uma grande escritora, em conversa com Paloma Vidal, autora de Não escrever [com Roland Barthes] (2023). Salem Levy também debateu a violência contra a mulher na literatura e conversou sobre a recepção de autores portugueses e brasileiros dos dois lados do Atlântico. 

Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista, editor da Quatro Cinco Um e mestrando em Teoria Literária na USP.

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).