Flip,
A vida é uma festa e todos têm o direito de decidir como sair dela, diz Drauzio Varella
O médico e escritor e a autora alemã Carmen Stephan falaram sobre doenças tropicais e as experiências de quase morte pelas quais passaram
25jul2026A proximidade da morte, mosquitos transmissores de doenças e até o SUS entraram na conversa entre o médico e escritor Drauzio Varella e a escritora alemã Carmen Stephan, sexta-feira (24), na Flip 2026. Com seriedade, mas sem perder o bom humor, os dois falaram sobre as experiências que tiveram com doenças contagiosas e foram transformadas em livro.
Em Malária: um romance (trad. Claudia Abeling, Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), Stephan escreve, do ponto de vista do mosquito vetor, sobre essa doença, que pegou no Brasil em 2003. Já Varella conta sobre a febre amarela, que contraiu em 2004, na Amazônia, no livro O médico doente (Companhia das Letras, 2007).
“Tive muitas dúvidas se devia escrever uma história de sofrimento. Em 2008, estava sentada na praia, em Ipanema, lendo um jornal, vi uma resenha do livro do Drauzio e pensei que também tinha uma história para contar”, disse a alemã.
Varella também relutou em escrever a história do médico tornado paciente. “Cansei de receber pessoas que passam por uma experiência que acham que é universal e querem escrever um livro, que geralmente é medíocre”. Por insistência de amigos, foi conversar com seu editor, Luiz Schwarcz, antes de escrever. “Perguntei para ele se não ia ficar muito babaca”, lembrou.
Anos depois, quando conheceu o livro de Stephan, sentiu inveja. “Que criatividade ter contado a partir do ponto de vista do mosquito. Por que não pensei nisso?”
Humor
Apesar de a morte ter rondado os dois autores, Stephan e Varella conseguiram imprimir humor em seus livros, como ressaltou a mediadora Laura Capelhuchnik. O tom cômico se manifesta em Malária por meio da voz do mosquito.
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“Não queria que o mosquito narrasse; foi ele [o mosquito] que quis. Quando a ideia chegou, achei um pouco ridícula, tentei outras formas, mas foi o único caminho que funcionou. ‘Quer falar, mosquito? Então fala como você vê o ser humano’”, contou a escritora.
Em O médico doente, passagens que podem provocar risos (mesmo irônicos) são as que descrevem Varella “do outro lado do balcão”, como o paciente frágil que precisa da ajuda de enfermeiros até para se sentar. “Você é tratado de forma infantilizada: ‘passa o bracinho, vem tomar injeçãozinha’. É péssimo, me sentia um idiota, queria dizer que era um homem de 62, tinha um nome a zelar”, brincou o escritor.
Perto da morte
Varella disse que, confrontado com a possibilidade da morte, foi tomado pelo desapego. “Nunca imaginei que a aproximação do desfecho me daria tanto desprendimento.” Ao terminar de escrever o livro, lembrou do povo yanomami: “Eles têm uma crença de que a pessoa que chega à beira da morte e melhora tem contato com os deuses. Quando volta, traz algo dos deuses para os outros”.
Lidar com a proximidade da morte trouxe a sensação de desapego também para Stephan. “Houve um momento muito íntimo e sublime de deixar ir. Quando você não se importa mais, algo te segura.”
Bom contador de “causos”, Varella lembrou de um carcereiro da antiga Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, que lhe dizia: “a vida, doutor, sabendo levar, é uma festa”. “É uma coisa simples, mas com muita filosofia”, comentou o médico, que emendou com uma defesa do direito à eutanásia. “Um dia a festa acaba. Por isso você tem o direito de decidir como quer ir embora da sua festa.”
Nascido em 1943, ele ainda recordou, durante a conversa, a infância no Brás, bairro paulistano então habitado por imigrantes. “Não havia medicina. Os doentes eram internados na Santa Casa para morrer. Depois, um grupo de visionários criou o maior sistema de saúde pública do mundo. O SUS foi uma revolução na medicina, que as novas gerações devem levar às últimas consequências.”
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
