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Zadie Smith passeia na Flip por livros, moda e relação ‘complicada’ com pertencimento
A britânica filha de jamaicanos, grande estrela da festa em Paraty, conversou sobre suas obras, desenraizamento e o sentido da arte
26jul2026Grande atração programada para o horário mais nobre da Flip 2026, a escritora britânica Zadie Smith conversou, na noite de sábado (25), no auditório principal da festa literária, com Juliana Borges, ensaísta, ativista antipunitivista e colunista da Quatro Cinco Um.
A mediadora celebrou o fato de a mesa ser realizada no Dia Nacional de Tereza de Benguela e Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Filha de jamaicanos, Smith trata, na ficção e não ficção, da relação entre o que chamou de “meus dois países”: Inglaterra e Jamaica.
A autora do best-seller Dentes brancos e do mais recente A fraude, publicados pela Companhia das Letras, falou de seus romances e ensaios, do sentido da arte, do sentimento de desenraizamento e de seu interesse por moda. A conversa foi um passeio pelos diferentes aspectos da trajetória de Smith, que despontou na cena literária em 2000, quando Dentes brancos se tornou um fenômeno de vendas. Tinha apenas 24 anos.
Smith afirmou ter muita gratidão pelo livro: “Dentes brancos continua a vender bem, o que me permite escrever outros livros malucos. Artistas escrevem o mesmo livro com variações, as mesmas preocupações tratadas de formas diferentes”.
Uma dessas preocupações, ela disse, é a “relação complicada com o pertencimento” e o duplo vínculo com a Inglaterra, onde nasceu, e a Jamaica de seus ascendentes. “Nos países de onde partiu a diáspora, na África, você chega como turista. É um tipo de pertencimento que nunca se completa, porque você não faz mais parte.”
História real
Livro mais recente de Smith, A fraude é um romance histórico baseado em um episódio ocorrido na Inglaterra vitoriana, o caso Tichborne, quando um homem branco pobre se fez passar por um nobre desaparecido.
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“Ele [Tichborne] evidentemente era culpado, mas em um tribunal corrompido, que não dá justiça aos pobres, o verdadeiro culpado é o sistema. Não escrevi sobre a minha escolha de justiça, mas sobre o que aconteceu”, contou. “Mentiras, populismo de esquerda, o contexto da relação entre o Reino Unido e a Jamaica. Saber qual a verdade por trás desse relacionamento foi o impulso para escrever o romance.”
Outro impulso para sua escrita é a vontade de retratar mulheres negras em sua força, mas também sua ambiguidade. “Há muitas personagens negras bem-intencionadas. Admiro nas mulheres negras a gentileza, a sabedoria, a capacidade de cuidar das pessoas. Minhas personagens prediletas são mulheres gentis, com capacidade de perdoar. Mas eu não sou assim, não consigo perdoar tanto.”
Moda e misoginia
Autora do romance Sobre a beleza (Companhia das Letras), Smith também falou sobre seu interesse pela moda. Diversas vezes fotografada em roupas glamourosas (“só tenho dois tipos de roupa: moletom ou vestido de festa”), a escritora usou na Flip um conjunto preto impecável com um turbante bege. “Há uma espécie de misoginia na ideia de que se a mulher é culta, não precisa ser bonita. Para mim, [a moda] é quase uma performance, é muito útil.”
No grande passeio pelos livros e o pensamento de Smith, a conversa ainda tratou do sentido da arte. A escritora já criticou a busca de utilidade para a literatura, mas afirmou que isso não significa acreditar que a arte não serve para nada. “Penso que não pode haver ‘subclasses’ de pessoas no mundo. Quando escrevo ficção, quero comunicar esse argumento. Mas dizer para que serve um livro pode acabar com a obra. O meu desejo é fazer com que as pessoas vivam nas páginas.”
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
