Ernesto Mané e Ève Guerra (Denis Santana/Divulgação)

Flip,

Ernesto Mané e Ève Guerra examinam a perversa herança do colonialismo na África

O escritor paraibano-guineense conversou na Flip com a franco-congolesa sobre a repatriação da história pessoal por meio da literatura

27jul2026

A ausência – ou a presença – de um pai à sombra do colonialismo marcou a reflexão dos escritores Ernesto Mané e Ève Guerra na mesa “a porta está aberta”, na manhã de domingo (26) no Auditório da Matriz, na Flip 2026

Em Antes do início, publicado pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, o paraibano-guineense narra seu périplo pela Guiné-Bissau em busca de respostas sobre seu pai, ausente desde a infância do autor, quando se divorciou da mãe deste.

“O ser humano é bastante complexo e o meu pai também tinha suas complexidades. Essa busca para entender a figura paterna é para entender a dimensão dessa complexidade”, afirmou Mané à jornalista Adriana Ferreira Silva, que mediou a conversa.

Ernesto Mané, Ève Guerra e Adriana Ferreira Silva (Denis Santana/Divulgação)

“Durante séculos de colonialismo e estruturas que racializam pessoas africanas, a humanidade dessas pessoas foi tirada. Parte desse exercício de escrita tem a ver com a restauração da condição humana dessas pessoas.”

Já a franco-congolesa investiga os perversos efeitos do colonialismo sobre a figura do pai da protagonista de Repatriação (trad. Diogo Cardoso, Companhia das Letras, 2025). 

Depois de receber a notícia da morte dele nos Camarões, Annabella precisa repatriar o corpo para a França, onde o pai nasceu, mas isso se revela muito mais difícil do que imaginava. Não se trata apenas da repatriação de um corpo, mas da história pessoal — a obra guarda semelhanças com a vida da autora.

“O que eu quis mostrar era um homem com sua porção de luz e sombra. Não é apenas o colonizador ou o colonizado”, explicou Guerra.

“Ele chega com essa consciência superior por ser ocidental, mas ao mesmo tempo ele não é ingênuo — entende que não tem o status dos outros franceses expatriados.” Ou, como resumiu a autora, “ele sofre a violência, mas a reproduz duplamente”.

Viagens

Por esse mesmo caminho, Mané (que se chama Ernesto Mané Júnior) disse que, para entender quem ele era, precisava entender quem foi Ernesto Mané. A viagem à Guiné-Bissau, onde conheceu a família paterna, se deu em 2010 e resultou em um diário no qual o autor registrou, a quente, suas impressões.

“Meu pai veio para o Brasil nos anos 1970, na esteira do processo de independência da Guiné-Bissau. Ele nasceu quando ainda era colônia portuguesa — a ocupação durou mais de quatrocentos anos. Tudo aquilo que a Ana Paula Tavares [poeta angolana que também participou da Flip 2026] falou sobre os assimilados eu vi na minha família — meus avós, meus tios, meu pai”, observou Mané.

O autor Ernesto Mané (Walter Craveiro/Divulgação)

A ideia de publicar o diário, porém, veio apenas durante a pandemia de Covid-19, cerca de dez anos depois: “O medo de morrer foi o que me convenceu de que eu tinha de tirar essa história da gaveta”.

Mané lembrou ainda o episódio da leitura feita por um primeiro editor, que não viu material para um livro. “Ele disse: ‘no máximo você pode compartilhar isso com sua família, seus amigos’. É engraçado que hoje eu estou aqui na Flip e vejo que vocês são parte da minha família e dos meus amigos”, afirmou o autor, seguido de aplausos do público.

O poder de nomear

Guerra e Mané debateram também a relação de cada um com sua ancestralidade africana e como isso aparece na obra de ambos.

“Eu me perguntava qual era a minha relação com a África”, disse a franco-congolesa. “Será que era de condescendência, por ter nascido na África e também ser francesa? Os franceses não são somente brancos, há muitos mestiços — essa é a beleza da França. Mas agora sei que sou profundamente africana. Quando vejo uma paisagem de floresta, isso me emociona. Sou francesa, gosto muito da França, mas sou sobretudo africana.”

A autora Ève Guerra (Denis Santana/Divulgação)

Guerra contou ainda da emoção de estar em Paraty: “Vir ao Brasil foi muito forte para mim; reencontrei a floresta que eu não via desde criança”. E Mané disse enxergar como um privilégio a oportunidade de encontrar sua ancestralidade africana.

“Foi um privilégio porque mais da metade da população brasileira não teve oportunidade de localizar geograficamente na África de onde vieram seus ancestrais. Foi uma decisão do Estado de apagar os registros, apagar a memória”, afirmou o escritor.

Ele lembrou como era chamado de branco por crianças na Guiné-Bissau. “Me declaro como preto, mas minha mãe é branca. Me vejo como preto por questão fenotípica, mas a rigor sou mestiço, um pardo de pele mais escura. Um grupo de pessoas tem o poder de nomear quem é quem e se a gente não se apropriar da nossa própria história, outras pessoas vão fazer isso por nós.”

Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.