Livros e Livres,
Onde vivem os monstros
Autora de tríptico narrado por mulheres lésbicas, Eva Baltasar diz usar personagens para investigar lado obscuro da maternidade
21ago2026Três mulheres lésbicas que vivem conflitos com a maternidade e buscam uma modalidade quase impossível de liberdade, mesmo que ao custo das poucas relações que estabelecem. Numa leitura rápida, assim podem ser resumidas as protagonistas de Permafrost; Boulder, indicado ao International Booker Prize; e do recente Mamute, que completa a publicação do tríptico da catalã Eva Baltasar no Brasil.
A escritora de 47 anos, que publicou poemas durante uma década antes do primeiro romance, afirma que as personagens são como espelhos dela mesma. Como a narradora de Mamute, sentiu uma necessidade quase primitiva de engravidar — é mãe solo de duas meninas — e, aos 26 anos, com uma criança de colo, deixou um emprego na universidade e a vida em Barcelona para viver isolada na zona rural, numa casa sem energia elétrica.
Com a protagonista de Boulder, que embarca no desejo da namorada de ser mãe, Baltasar conta ter descoberto que tinha um problema de comunicação com sua então companheira, de quem se separou após terminar a escrita. Em Pesces (Peixes), ainda inédito no Brasil, resolveu enredar ainda mais o jogo com uma protagonista escritora.
A identificação, no entanto, não significa uma opção pela autoficção. “Não estou contando minha vida, são pinceladas”, diz. “Com qualquer escritor, isso está mais ou menos evidente, mas atravessa a escrita: algo fica, algo é arrastado, como uma maré.”

Mais que usar as experiências como inspiração, interessa a Baltasar investigar os ângulos mais obscuros de temas como a maternidade. “Pelas personagens, viajo até meu inconsciente, onde vivem os monstros, tudo o que reprimo, julgo”, admite. Esse mergulho em desejos inconfessáveis, ela acredita, pode decepcionar leitores que esperem encontrar histórias de amor queer. “Não são mulheres nem um pouco perfeitas, e é isso que valorizo.”
Em conversa com a Quatro Cinco Um em Paraty, onde foi uma das atrações da Flip, em julho, ela também contou que não diferencia a escrita de prosa e poesia, falou de autoras que a inspiram (Clarice Lispector entre elas) e de como decepções amorosas podem ser valiosas para a literatura.
Mais Lidas
No seu tríptico, agora completo com Mamute, há traços em comum. São romances protagonizados por mulheres lésbicas, confortáveis com a própria sexualidade, mas que parecem desconfortáveis com o mundo. Isso foi intencional?
Não, nunca planejo nada. Fazia muitos anos que eu estava escrevendo e publicando poesia e cheguei à prosa de forma quase casual. São personagens desconfortáveis porque, como leitora, e mesmo na vida real, me interessa esse tipo, os solitários.
A orientação sexual dessas três mulheres lésbicas não é um tema, felizmente, porque meus livros são sintoma de uma época e de um lugar concreto, que é a Barcelona onde escrevo. Tenho a sorte de poder criar personagens que são espelhos de mim mesma e pude viver minhas opções sexuais graças às mulheres e homens que, antes de mim, lutaram para que hoje fosse assim. Então, o conflito está mais no incômodo de viver numa sociedade como a que vivemos. Isso se conecta com qualquer pessoa, seja qual for sua opção sexual ou de vida.
Te incomoda o fato de os três livros serem chamados de romances queer?
Não sei se é certo dizer que são romances queer. Não é o tema central das narrativas. Não costumo etiquetar minha literatura, nem a mim mesma, mas às vezes para falar de livros é necessário classificá-los. Acho importante e bonito que qualquer grupo possa se apropriar dos romances para lhe dar voz. E entendo que, com três protagonistas que se identificam como lésbicas, possamos falar do tríptico como queer. Mas não os sinto assim. São três mulheres lésbicas porque ao escrever eu tinha que me identificar muito com elas, e naquele momento me sentia mulher e lésbica, então essa foi a forma mais fácil de fazer.
‘A orientação sexual dessas três mulheres não é um tema porque meus livros são sintoma de uma época’
Embora as narrativas estejam conectadas com pessoas queer, podem decepcionar quem espera encontrar personagens idealizadas, histórias românticas de mulheres lésbicas. Essas não são as personagens que me interessam. Me interessa ir às sombras, àquilo que incomoda, porque é uma forma de me conhecer também. Pela personagem, viajo até meu inconsciente, onde vivem os monstros, tudo o que reprimo, o que julgo. Preciso dessas personagens para chegar aí de forma segura, onde também há muita riqueza, muita luz. Mas não são mulheres nem um pouco perfeitas, e é isso que valorizo.
Outra questão que parece rondar as personagens é elas sempre terem que escolher entre independência e intimidade. São temas opostos?
Acho que é assim na minha vida. Esse é um espelho importante, porque valorizo a solidão, a independência, e reconheço que tive muitos problemas de comunicação nas minhas relações, que é o que permite estabelecer intimidade. Trabalhei esse tema escrevendo sobre ele. Me dei conta de que tinha um problema de comunicação com a minha esposa enquanto escrevia Boulder. Terminei de escrever e nos separamos. Então, me serviu não só para tomar consciência, mas também para tomar decisões.
São personagens que refletem uma dicotomia muito contemporânea: estamos sofrendo uma epidemia de solidão, mesmo estando hiperconectados por meio do celular. E não sabemos mais ficar sozinhos. Cada vez nos custa mais nos conhecermos realmente. E, se não nos conhecemos, como podemos decidir que vida queremos?
A maternidade é outro tema presente nas três narrativas, mas enquanto em Boulder a protagonista é levada a embarcar no desejo da companheira, em Mamute a personagem quer engravidar a qualquer custo. O fato de essa dupla maternidade ainda ser pouco explorada na ficção te instigou a escrever?
Não, para mim a escrita é algo muito íntimo. Tento explorar o que me interessa, não preencher lacunas de algo sobre o qual não foi escrito.
A maternidade é um assunto que me acompanha a vida toda, inclusive na minha poesia. Fui mãe muito jovem, aos 24 anos — e mãe solo porque quis. No tríptico, quis abordar ângulos mais ocultos e incômodos da maternidade. Tanto a maternidade quanto a paternidade são múltiplas. Não é como em Boulder, em que há Samsa, uma mulher que quer muito ser mãe, e Boulder, que não quer e se sacrifica. Eu mesma, que fui mãe em duas ocasiões, me identifico com Samsa e com Boulder ao mesmo tempo.
Em Mamute, há uma mulher que tem um instinto biológico, primitivo, de engravidar, mas que não pensa em construir-se socialmente como mãe. É algo que eu também vivi. Nas duas vezes que engravidei, tomei a decisão em quinze dias. Uma foi com um homem e a outra por meio de inseminação artificial. Era como um imperativo do corpo. E foi isso que decidi explorar na escrita.
Em Permafrost, há uma mulher que não quer ser mãe porque é incapaz de aceitar que a felicidade, ou infelicidade, de alguém dependa dela. Mas, no fim, a vida a põe numa encruzilhada e, em vez de ser uma tia solteira, ela se torna uma mãe de direito.
O bonito é ver que tantos leitores também se conectaram a essas histórias. Pais e mães já me disseram que amam seus filhos, que não se arrependem de ser pais, mas que também se identificam com Boulder.

Com tantas experiências suas nos romances, pensou em escrever algo autoficional?
Não sei ao certo o que é a autoficção. Sempre parto de minha própria vida no momento de escrever, desde Permafrost. Comecei a escrevê-lo porque minha psicóloga me disse: “Você está muito desestruturada. Escreva a sua biografia em quatro páginas para se estruturar”. Escrevendo minha biografia, percebi que começava a mentir, porque queria que a leitura fosse interessante para a psicóloga. Era um exercício que me seduzia, mas decidi parar a terapia. Queria ver aonde me levava essa voz. E ela me levou a escrever não minha vida, mas outra.
Com Mamute e Boulder foi assim também. Boulder começa na ilha de Chiloé. Eu fiz essa viagem aos vinte anos, embarcada de norte a sul do Chile. A história também passa por uma relação lésbica, e eu também vivi isso. A viagem de Mamute, eu vivi com uma criança de dois anos. Deixei Barcelona, um trabalho na universidade, um apartamento, e fui viver numa zona muito isolada, numa casa sem luz, bem pior que a do livro. Fiquei três anos trabalhando como pastora de ovelhas, fazendo de tudo. Mas não estou contando minha vida, são algumas pinceladas. Com qualquer escritor, isso está mais ou menos evidente, mas atravessa a escrita. Algo fica, algo é arrastado, como uma maré.
A protagonista de Mamute parece tatear algo religioso em seu monólogo interno. Em outra entrevista, você diz que teve uma educação religiosa. Isso se reflete na escrita?
Acredito que sim. Num período da educação primária, estudei numa escola de padres. Hoje não me identifico com nenhuma religião, mas fico satisfeita de ter sido formada numa tradição. Poderia ser católica, como foi o caso, mas também judaica, islâmica, budista. Essa tradição me alimentou de mitologia, de léxico, de iconografia, e isso está comigo. É impossível que não esteja destilado em meus romances. É parte de mim e não vou reprimir.
Você escreveu muitos livros de poemas antes de publicar o tríptico. É diferente de escrever prosa?
Para mim, é a mesma coisa. Me formei como escritora durante anos escrevendo poesia. Penso com imagens e trabalho a linguagem poeticamente, sempre. É buscar o ritmo, a música, criar imagens para dizer com poucas palavras o que podia ter desenvolvido em muitos parágrafos. A minha sensação é que não são dois gêneros diferentes. É uma confluência. Não sinto abandonar a poesia quando estou escrevendo prosa. Mas há uma diferença: escrevi uma poesia muito intimista, confessional, e o fato de escrever em prosa e poder criar uma protagonista que não sou eu, ainda que seja um espelho, foi catártico.
‘Se todas as relações fossem perfeitas, não mudaríamos. Ou seja, um inimigo pode ser muito precioso, não?’
Ainda assim, sigo em contato com a poesia. Minha tradutora de francês me disse que Boulder está cheio de versos alexandrinos. E me dei conta de que em muitas páginas fui fazendo rimas internas, jogos poéticos. É o que me diverte, o que me conecta com a beleza da linguagem. Por isso valorizo o trabalho de tradutores e tradutoras. Meus romances são curtos, mas dão muito trabalho para traduzir, porque não é só converter o idioma; é outra música, outra poética, e encontrar essa música em outra língua é complicadíssimo e pode elevar ou destruir um romance.
Numa entrevista, a tradutora de Boulder para o inglês, a brasileira Julia Sanches, falou exatamente isso. Ela comparou o desafio de traduzir a musicalidade do texto ao de tentar traduzir a música brasileira…
Claro, é isso. Para mim, a Julia é como uma coautora. Uma tradução com esse peso poético é como uma coautoria. Ela tem que aportar essa musicalidade e é algo que nem eu posso ajudar, tem que vir do tradutor. Julia Sanches faz isso muito bem.
‘A dor é o que nos permite aprender, mudar. Isso alimenta minha escrita. Se todas as relações fossem perfeitas, não mudaríamos’
Você já disse que escreveu três versões de Boulder e jogou duas fora. É sempre tão exigente?
Não sei reaproveitar um texto. Para mim, o processo de escrita tem algo de artesanal, tenho que sentir que vou aprendendo enquanto escrevo. Costumo comparar com carpintaria. Um carpinteiro fabrica uma cadeira. A segunda tem que ser igual e, se possível, um pouco melhor. Eu escrevi a primeira versão de Boulder, li e pensei: “Gosto mais de Permafrost, não pode ser”. Então, decidi eliminar, voltei a escrever e aconteceu o mesmo. Na terceira versão, me rendi. Preciso encontrar uma voz que me seduza, que me deixe levar a descobrir a história que ela quer contar. O Boulder que foi publicado, escrevi em seis meses. Foi muito rápido, porque as outras versões fizeram parte do processo de escrita; estão lá, misturadas. Não é um trabalho jogado fora, não é frustrante, é o caminho.
E quando considera um romance terminado?
Eu reescrevo muito. Há romances que revisei inteiros umas duzentas vezes, observando o ritmo, a musicalidade, todo o campo semântico do texto, para que seja coerente. E isso é algo intuitivo. É como com os filhos: como sabemos que estão dormindo, que respiram direito? Há um momento em que você pensa: não posso fazer melhor que isso, está tudo bem. Também tenho uma boa editora, que me ajuda muito a pensar.
Você já disse que, quando está escrevendo mal, para e vai ler os diários de Katherine Mansfield. Quem mais te inspira a escrever melhor?
Muitos. Em catalão, Mercè Rodoreda, que leio e releio. Walt Whitman, Virginia Woolf, Clarice Lispector, de quem agora comprei as cartas em português, porque percebi que dá para entender bastante. Também Marguerite Duras, John Cheever. Carson McCullers é uma autora que também tem personagens solitários, monstruosos, com os quais me identifico — sobretudo nos contos, mas também nos diários e cartas, me reconheço muito em sua forma de se relacionar com a escrita.
Numa entrevista ao El País, você disse: “Meus grandes mestres foram os inimigos ou pessoas que me amaram muito e que, consciente ou inconscientemente, me destruíram”. Decepções amorosas rendem boa literatura?
São grandes experiências que provocam muita dor, e a dor é o que nos permite aprender, mudar. Isso alimenta minha escrita. Se todas as relações fossem perfeitas, não mudaríamos. Ou seja, um grande inimigo pode ser muito precioso, não? (Risos.) Já passei por alguns infernos, como todo mundo. Hoje tento me cercar de pessoas que me nutram de forma positiva. Mas a vida sempre surpreende e, quando menos esperamos, explode uma nova granada que nos faz mostrar nossa humanidade, do que somos feitos de verdade.
Pedro Almodóvar disse que você é uma autora poderosa e muito original e que gostaria de adaptar Boulder ao cinema. O projeto avançou?
Eu soube disso, porque alguém comentou comigo. Então, disse a meu agente literário que, até que tenha algo definitivo, não quero saber de nada. Isso acaba se tornando um ruído que me impede de escrever tranquilamente. Que eu saiba, não avançou. Então, prefiro que nada perturbe minha paz. Não tenho redes sociais, televisão, não leio jornais. Há pouco tempo, na Catalunha, Permafrost foi adaptado ao teatro e me reuni com a diretora um dia antes de assinar [o contrato]; assinamos e pronto. Fui à estreia, me emocionei, foi muito bonito. A qualquer que seja o autor que queira adaptar uma obra minha, ofereço liberdade total, a mesma que tenho quando vou escrever.

