O autor líbio Hisham Matar (Denis Santana/Divulgação)

Flip,

Para Hisham Matar, amor e solidariedade levam as ditaduras ao fracasso

O autor líbio, que participou da Flip por videochamada, conversou com Milton Hatoum sobre romances políticos e o papel dos intelectuais

26jul2026

O horror das ditaduras se esgueirou para dentro do Auditório da Matriz durante a mesa que reuniu o escritor amazonense Milton Hatoum e o líbio-britânico Hisham Matar, na tarde de sábado (25), na Flip 2026. Impossibilitado de deixar Londres por uma questão familiar, Matar participou do encontro por videochamada.

“As ditaduras sempre fracassam porque nossa capacidade de amar, de encontrar solidariedade, é muito profunda”, afirmou o autor de obras que narram o encontro do pessoal com o político. 

Em O retorno: pais, filhos e a terra ao meio (trad. Odorico Leal, Âyiné, 2022), Matar narra sua volta à Líbia em 2012, em busca da verdade sobre o desaparecimento de seu pai, um proeminente opositor do regime do ditador Muammar Gaddafi sequestrado pelas forças do governo em 1990. Já o recente Meus amigos (trad. Giovani T. Kurz, Âyiné, 2026) põe em foco o exílio político de três amigos, com todas as angústias e dissabores.

“Quando você pergunta sobre o papel do escritor, do intelectual, acho que é constantemente encontrar maneiras de derrubar a fachada da opressão”, afirmou Matar, respondendo à questão colocada pelo editor e colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires, que mediou a conversa. Para o autor líbio, também é papel de escritores e intelectuais revelar o que não é dito e o que está por trás do silêncio. “Por outro lado, acho que o escritor deve funcionar não só no seu papel de intelectual público, mas também de artista. As duas coisas estão conectadas em alguns pontos e separadas em outros.”

A visão de Matar dialoga claramente – como a conversa mostrou – com o projeto literário de Hatoum, que busca interpretar o Brasil do século 20, e os atuais ecos desse período, desde o lançamento de Relato de um certo Oriente (Companhia das Letras, 1989) até a recente trilogia O Lugar Mais Sombrio, formada pelos romances A noite da espera (2017), Pontos de fuga (2019) e Dança de enganos (2025), ambientados na ditadura militar.

Milton Hatoum e Paulo Roberto Pires (Denis Santana/Divulgação)

“O intelectual, o artista, a pessoa que tem consciência histórica, que tem uma mínima relação sensível com os que estão sofrendo — essas pessoas têm que dizer a verdade ao poder, seja aqui, seja no Oriente Médio”, disse Hatoum. 

“Seja no Brasil de quatro anos atrás, com o governo anterior, seja no de hoje também, uma possível catástrofe se anuncia. Mas eu não acredito nisso; sou muito otimista sobre as próximas eleições. São momentos em que o intelectual não deve ficar calado, porque o silêncio é cúmplice da barbárie.”

Não militantes

Hatoum brincou que ele e Matar parecem ter se comunicado sem saber ao escrever suas obras mais recentes, que têm protagonistas distantes do militante clássico. “Esses romances [Meus amigos e os da trilogia O Lugar Mais Sombrio] dialogam. No romance do Hisham, o Khaled não é um revolucionário; é um leitor, um escritor — não está na linha de frente para combater a ditadura líbia”, disse o autor amazonense. 

“O Martim [protagonista da trilogia] também não é um militante porque seria muito óbvio. Preferi trabalhar com esse narrador mais hesitante, cujo drama moral apontaria para outra coisa que não a política — um sentimento de perda que eu acho mais forte, a perda da mãe.”

O escritor Hisham Matar (Diana Matar/Divulgação)

Matar citou ainda outro tipo de perda, aquela que se dá quando as palavras não são capazes de exprimir o verdadeiro sentimento. “Quando eu pergunto o que você sente em relação à sua mãe, você diria palavras ruins como amor, afeição — sabemos que são apenas palavras. O que você sentiu não foram as palavras; foi o sentimento interno”, disse o líbio. 

“A literatura lida com essa falha da língua. Quando você entra nesse espaço, você precisa ser livre e se libertar de quaisquer obrigações com quem você ama ou com a política”, acrescentou.

Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.