Augusto Massi e Marília Garcia na primeira mesa da Flip 2026 (Walter Craveiro/Agência Sairas/Divulgação)

Flip,

Ensaio performático abre a Flip de Orides Fontela

Marília Garcia e Augusto Massi apresentam a poeta homenageada da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty

23jul2026

“Festa boa é festa cheia”, disse Rita Palmeira, curadora da 24ª Flip, para a plateia lotada do Auditório da Matriz na abertura do festival, na quarta (22), em Paraty.

Após confessar estar “um pouco mais nervosa do que o habitual”, Palmeira deu o tom do que seria a mesa seguinte: uma combinação de memórias pessoais com um breve panorama, tanto em relação à organização da festa literária, no caso da curadora, quanto à trajetória e obra da homenageada desta edição, Orides Fontela, nas apresentações da poeta Marília Garcia e do crítico literário Augusto Massi.

“Orides já estava rondando a Flip”, afirmou Palmeira, que estreia na curadoria do festival, do qual participa há anos. Palmeira contou frequentar a plateia desde 2004 e participar como mediadora desde 2017.

A curadora Rita Palmeira na abertura da mesa (Walter Craveiro/Agência Sairas/Divulgação)

A mesa começou com um vídeo de Davi Arrigucci Jr., crítico literário responsável pelo reconhecimento da poeta no mundo acadêmico e editorial.

Em seguida, a poeta Marília Garcia apresentou uma espécie de ensaio poético. A performance incluiu papéis jogados aos poucos no chão (conforme as etapas de sua fala) e vídeos com imagens variadas — de cenas difusas de um apocalipse a gravuras de Mira Schendel, algumas das quais usadas em antigas edições de livros de Fontela.

Espelhamentos

Garcia já havia apresentado uma performance no mesmo estilo, em que entrelaça a história de sua mãe, de uma amiga e de Schendel — agora transformada no livro Lia, Mira, Maria (WMF Martins Fontes). Na abertura da Flip, entremeou suas memórias na reflexão sobre Fontela e seus poemas, também projetados na tela. 

A poeta Marília Garcia (Walter Craveiro/Agência Sairas/Divulgação)

“[A poesia de Orides Fontela] tem um efeito de espelhamento. É uma narrativa em abismo, vertigem”.

Entrando nesse jogo de espelhos, Garcia contou ter encontrado no exemplar de um livro de Fontela que estava lendo a anotação: “Passe adiante”. E concluiu sua fala: “Passem adiante Orides Fontela”.

O professor e crítico literário Augusto Massi, que dividiu a mesa com Garcia, também evocou memórias pessoais, como do primeiro encontro com Fontela, em uma entrevista jornalística, ou da edição que fez de sua obra na coletânea Trevo (Duas Cidades, 1988), na qual são usados desenhos de Schendel — mais uma vez, os espelhamentos.

O professor Augusto Massi (Walter Craveiro/Agência Sairas/Divulgação)

Massi contou que, apesar de a poeta ter estranhado, a princípio, a escolha dos desenhos, acabou se sintonizando com o trabalho da artista visual. “A Mira Schendel é mais louca que eu”, disse, segundo o crítico, a autora dos versos “A lucidez/ alucina”. 

De pé, quase como dando uma aula, o professor resgatou a trajetória poética da homenageada. Passou pelos cinco livros publicados pela autora (Transposição, Helianto, Alba, Rosácea e Teia, reeditados pela Hedra), apontando experimentações, referências filosóficas, temas e a linguagem poética se abrindo como um leque. 

Os espelhamentos continuaram após o término da mesa. Do lado de fora do auditório, a artista da dança Carolina Canteli convidou o público a acompanhar seus movimentos segurando pequenos espelhos enquanto ela declamava versos da poeta homenageada.

Como escreveu Fontela, “O espelho aprofunda/ o enigma”.

Performance de Carolina Canteli do lado de fora do auditório (Sara De Santis/Divulgação)

Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).