Repertório 451 MHz,
Orides Fontela, poesia, lucidez e Flip
Rita Palmeira, curadora da festa literária de Paraty, fala sobre a autora homenageada deste ano e apresenta os principais destaques da programação
26jun2026 • Atualizado em: 25jun2026Está no ar o 201º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição recebe a crítica literária Rita Palmeira, curadora da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), numa conversa sobre a vida e a poesia lúcida, concisa e precisa de Orides Fontela (1940-1998), autora homenageada da Flip 2026.
Palmeira ainda apresenta os principais destaques da programação do festival literário deste ano, que acontece entre 22 e 26 de julho. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.
Também editora, pesquisadora e curadora literária, Rita Palmeira é doutora em literatura brasileira pela USP. Atuou na construção da identidade curatorial da Megafauna, livraria inaugurada em 2020 no centro de São Paulo, e coordenou a curadoria do Festival Poesia no Centro em 2025 e da segunda edição do Festival Literário do Museu Judaico de São Paulo (FliMUJ). Em 2025, assumiu a curadoria da Flip, que anunciou na quarta (24) a programação do evento deste ano.
No episódio, ela faz um balanço da carreira no setor editorial. “Já editei, já escrevi sobre livros, já dei aula, já fiz curadoria em livraria, já fiz curadoria em festival e agora estou curando a Flip. Então, uma vida em torno dos livros”, resume.
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Segundo Palmeira, sua formação foi influenciada tanto pela universidade quanto pelos festivais literários, que nas últimas décadas se espalharam pelo Brasil. “Os festivais fazem e são guias muito interessantes. A própria ideia da curadoria vem disso: o que está acontecendo que é interessante mostrar para mais gente”.
Retorno a Orides
Ao comentar a escolha de Orides Fontela como autora homenageada da Flip 2026, Palmeira destaca o contraste entre o reconhecimento da poeta entre críticos e escritores e seu desconhecimento pelo grande público. A curadora acrescenta que a imagem de Fontela, mesmo nos meios especializados, acabou marcada por histórias sobre a vida pessoal da poeta e seu temperamento, em vez de seus poemas.
Palmeira atribui parte do desconhecimento sobre Fontela à sociedade machista, que diminui os feitos das mulheres na arte. Ela diz que a poeta foi frequentemente reduzida a uma figura difícil, por causa de sua instabilidade emocional e dificuldades financeiras.
Para Palmeira, homens com o mesmo comportamento foram aclamados, ao invés de ridicularizados. “O homem terrível é só o poeta maldito. Ela [Fontela] acabou sendo vítima de uma série de anedotas que quem conheceu a Orides conta.”
Autora de várias coletâneas de poemas, cinco delas recém-republicadas pela editora Hedra — Transposição, Helianto, Alba, Rosácea e Teia —, Orides Fontela tem uma obra marcada pela depuração e reflexão, diz Palmeira. Interessada por filosofia, religião e poesia, a autora procurava compreender questões profundas da existência, mas sem transformar seus versos em confissões pessoais, explica a curadora, lembrando ainda que a poesia de Fontela é caracterizada por “versos curtos, poemas curtos, versos muito precisos”.
Palmeira ainda afirma que a poeta era uma modernista, “drummondiana de carteirinha”, mas destaca sua originalidade: “o que ela faz, que é muito singular, é muito reflexo de outras leituras que ela teve também e da experiência de vida dela”.
Nascida na pequena São João da Boa Vista (SP), Fontela se mudou para capital paulista aos 26 anos, cursou filosofia na USP, transitou no meio acadêmico — foi próxima dos críticos Davi Arrigucci Jr., amigo de infância, e Augusto Massi — e recebeu elogios de intelectuais como Antonio Candido e Marilena Chaui, leitores de primeira hora. Conviveu com a pobreza praticamente toda a vida e morreu em Campos do Jordão aos 58 anos, vítima da tuberculose e complicações respiratórias.
Rita Palmeira ressalta a importância de um festival como a Flip homenagear a poeta, impulsionar sua redescoberta e levar seus livros a públicos mais amplos. “É bonito ver esse poder que a Flip tem”, diz.
Entre os autores brasileiros, Palmeira destaca o poeta Edimilson de Almeida Pereira, o romancista Milton Hatoum e a filósofa Djamila Ribeiro — que esteve, no início de junho, no 451 MHz e conversou sobre a nova edição de seu livro Lugar de fala (Rosa dos Tempos).
Autores convidados
A curadora ainda fala no episódio sobre seu entusiasmo com a lista final de autores confirmados na Flip 2026, que tem a britânica Zadie Smith, a angolana Ana Paula Tavares, os ucranianos Andrei Kurkov e Maria Reva, o italiano Andrea Bajani e o líbio Hisham Matar como estrelas da programação.
Ela também menciona o médico e escritor Drauzio Varella, a ministra do STF Cármen Lúcia, o crítico literário Augusto Massi — que vai falar sobre a poesia e a vida de Orides Fontela —, e os autores Marília Garcia, Leonardo Gandolfi, Andréa del Fuego, Carmen Stephan, Ernesto Mané e Paloma Vidal. Os três últimos têm livros publicados pela Tinta-da-China-Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um).
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Teia (Hedra, 2026) , de Orides Fontela
- Transposição (Hedra, 2026), de Orides Fontela
- Helianto, (Hedra, 2026), de Orides Fontela
- Alba, (Hedra, 2026), de Orides Fontela
- Rosácea, (Hedra, 2026), de Orides Fontela
- A fraude, (Companhia das Letras, 2025, trad. Camila von Holdefer), de Zadie Smith
- Dentes brancos (Companhia das Letras, 2025, trad. José Antonio Arantes), de Zadie Smith
- Ucrânia: diário de uma guerra (Carambaia, 2025, trad. Marcia Vinha e Renato Marques), de Andrei Kurkov
- Extinção (DBA, 2026, trad. Gisele Eberspächer), de Maria Reva
- O aniversário (Companhia das Letras, 2026, trad. Iara Machado Pinheiro), de Andrea Bajani
- Malária (Tinta-da-China-Brasil, 2026, trad. Claudia Abeling), de Carmen Stephan
- Diga a coisa como ela é (Tinta-da-China-Brasil, 2026), de Tatiana Salem Levy
- Antes do início (Tinta-da-China-Brasil, 2025), de Ernesto Mané
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]
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