Edimilson de Almeida Pereira, José Tolentino de Mendonça e Sofia Mariutti (Walter Craveiro/Divulgação)

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Na Flip, os sinos dobram por José Tolentino de Mendonça e Edimilson de Almeida Pereira

Mesa teve homenagem aos analfabetos que transmitem a literatura e lembrança de que ‘a poesia devolve o silêncio que a sociedade nos tira’

23jul2026

A primeira mesa da programação principal da Flip, nesta quinta-feira (23), reuniu os “sedentos de palavras”, na expressão de José Tolentino de Mendonça. O cardeal e poeta português conversou com o poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira sobre o silêncio e o tumulto causados pelo poema. E, a partir de uma pergunta da mediadora, a também poeta e editora da Tinta-da-China Brasil Sofia Mariutti, sobre a profanação que ela enxerga na obra dos dois.

“Profanar não é destruir, é dar outro uso”, disse Tolentino de Mendonça citando o filósofo italiano Giorgio Agamben. “A poesia serve para profanar o silêncio, usá-lo de outra forma. Poetas tentam devolver ao silêncio a gramática da vida”. 

Mais do que isso, acrescentou Pereira, é o que silencia provocando o ruído. “A poesia devolve o silêncio que a sociedade nos tira”, disse. Não à toa, o nome da mesa era “Saber de cor o silêncio”, título de um poema de Orides Fontela, a homenageada da Flip 2026. 

Também não foi por acaso que Mariutti perguntou sobre a relação entre a prática espiritual e a escrita de poesia. Tolentino de Mendonça, além de cardeal, esteve na “shortlist” de sucessores do Papa Francisco e é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano. Na noite de quarta (22), celebrou uma missa, bastante concorrida, no centro histórico de Paraty. 

O cardeal e poeta português José Tolentino de Mendonça (Walter Craveiro/Divulgação)

“O ato artístico é sempre espiritual. A fé é a disponibilidade para o nomadismo interior”, afirmou. Tolentino de Mendonça ainda contou que, em seu trabalho, passa horas escrevendo relatórios nada poéticos. “Mas ir ao osso desses textos sem adjetivos é uma escola de poesia, porque o poema se constrói com substantivos, não com adjetivos”. 

E, como toda arte para ele, nasce da dor: “Experimentar na carne a ferida, não só a cicatriz, a lembrança do que dói, é também a expansão, o parto, essa coisa cósmica de um passar a dois, o encontro daquilo que se abre”.

O poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira (Walter Craveiro/Divulgação)

Para Edimilson de Almeida Pereira, nas culturas populares, a ideia de ferida não se instala. “Para algumas comunidades, talvez ferida seja algo muito concreto e letal. O contraponto da ferida é a consciência de que a vida é, a um só tempo, momentânea e infinita”.

Transformação tradicional

Os dois poetas também falaram sobre a convivência de tradição e experimentação em suas obras. “Na perspectiva das culturas afrodiaspóricas, não há dicotomia entre o que é tradicional e o que é transformação. São comunidades que vivem deslocamentos, não só geográficos, mas de visão de mundo. O paradoxo entre modernidade e tradição está nos poetas populares, e temos trabalhado nessa perspectiva”, disse Pereira. 

O poeta-cardeal Tolentino de Mendonça, conhecido por seu interesse na cultura pop contemporânea (entre outros, é fã da cantora Rosalía e do cineasta Pier Paolo Pasolini), disse buscar a ponte entre a tradição oral e a escrita, entender como os poemas passaram de orais para escritos. “Minha avó, que era analfabeta, foi minha primeira biblioteca. Quando fui trabalhar na biblioteca do Vaticano, quis recordar minha avó e todos os analfabetos que têm sido, por séculos, responsáveis pela transmissão da literatura.”

(Walter Craveiro/Divulgação)

Em vários momentos da conversa, os dois fizeram leituras de seus poemas. Em uma dessas ocasiões, o sino da igreja matriz de Paraty tocou enquanto Tolentino de Mendonça recitava. “A poesia é uma só. A dos sinos, das palavras, de tudo”, disse a mediadora. “O espanto é o umbigo do mundo. Quando somos capazes de espanto, estamos vivos. A poesia tem que ser a iniciação para o espanto”, emendou, muito poeticamente, Tolentino de Mendonça.

Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).