Podcast,
Transcrição: Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #208, uma conversa com duas das escritoras mais lidas do Brasil sobre a atração por histórias e personagens diferentes delas e a escrita de seus novos romances
11set2026Nesta edição, gravada n’A Feira do Livro 2026, as escritoras Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara contam que a criação de histórias e personagens diferentes delas é o que mais as atrai na literatura e falam sobre processos de escrita e seus novos romances — Quando (Record), que Madeira acaba de lançar, e Cláudia Vera Feliz Natal (Todavia), recém-publicado por Salomão Carrara. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi. Está começando o episódio 206 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Carla Madeira [CM]:
Eu acho que a ficção experimenta a ação das possibilidades da condição humana. Então, não importa se é verdade ou se não é verdade, importa que é possível, que tem a ver com a condição humana, que você compreender a partir dessa condição, que nós somos capazes ou que não somos capazes.
Mariana Salomão Carrara [MSC]:
Eu acho que é um exercício de empatia, eu me entrego para vidas que não são as minhas. Inclusive, parece um pouco a atividade jurídica, nós temos que enxergar no outro diversas histórias que nos chegam como casos e é importante ter esse olhar.
PW:
Essas vozes que você acabou de ouvir são da Carla Madeira e da Mariana Salomão Carrara. Eu já vou te falar mais sobre elas, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com o apoio da Lei Rouanet.
PW:
A Carla Madeira é autora dos best-sellers Tudo é rio, A natureza da mordida e Véspera, todos publicados pela Record. E hoje, 14 de agosto, bem no dia em que a gente publica esse episódio, ela está lançando o seu muito aguardado novo romance, Quando, que também sai pela Record.
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A Mariana Salomão Carrara você também já conhece, ela é autora de seis romances, entre eles Se deus me chamar não vou (Nós), Não Fossem as Sílabas do Sábado (Todavia) e A árvore mais sozinha do mundo (Todavia), ambos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura. Em maio desse ano, a Mariana publicou o seu novo romance Cláudia Vera Feliz Natal (Todavia).
Como você deve imaginar, o encontro entre essas duas foi um dos mais aguardados e lotados lá n’A Feira do Livro esse ano. A Carla e a Mariana conversaram com a Iara Biderman, jornalista e editora aqui na revista Quatro Cinco Um, sobre os seus processos de escrita e os seus novos romances. Elas também fizeram críticas ao rótulo que frequentemente recebem de “literatura feminina”.
E depois dessa conversa, a poeta e atriz Luiza Romão conta pra gente qual foi o livro que marcou a sua vida acadêmica. Pois é, no nosso novo quadro Livro Marcador, grandes autores e leitores em geral estão contando tudo sobre a formação literária deles. Então fica aí até o final para ouvir a Luiza.
Agora vamos para a primeira parte da conversa da Iara Biderman com a Carla Madeira e a Mariana Salomão Carrara.
Iara Biderman [IB]:
Queria começar com cada uma lendo um pequeno trecho. Eu vou pedir para a Mariana ler um trecho de Cláudia Vera Feliz Natal e para a Carla ler um trecho de Véspera, que eu escolhi e tem a ver com as perguntas.
MSC:
Apenas num filme era possível a cena em que um homem descasca a sua cenoura e corta em meticulosos pequenos pe- daços a cebola e o alho, sente o cheiro bom do refogado, des- peja na panela o restinho dos grãos de arroz que sobraram na embalagem, a porção individual exata, preenche com água na medida que já aprendeu de olho, tampa parcialmente a panela e vai lavar a louça do dia anterior, a sua pouca louça, e essa cena é lenta e bastante longa para indicar que todos os dias são iguais, esse homem nessa cozinha, nessa casa sem animais depois de mandar uma pessoa à prisão, divorciar um casal e assinar uma porção de folhas que já não lê com a atenção dos primeiros meses, esse homem que antes do jantar já telefonou para a mãe que está bem e sem novidades, mas também pode vir a sofrer de um câncer de modo que esse homem deveria ter planos para o futuro em vez de cozinhar o seu arroz nessa cidade, é preciso que isso seja um filme para que um homem possa ser tão inobservado, ainda que na cidade seja uma das figuras mais notórias, é ali na cena um homem que nunca é visto por ninguém, e esse gesto repetido de guardar a louça antiga e lavar a nova verificando periodicamente o arroz é um gesto que não existe, só faz sentido se houver ali uma câmera, então ensaio o meu personagem com todo o seu vazio, deixo a câmera focar bem enquanto esse homem que não é possível que seja eu pega o pato de plástico e molda o arroz pronto em formato de pati- nhos, apenas para si, tira do micro-ondas as outras comidas e senta-se diante dos patos, finalmente observado pelo diretor que capta muito bem a existência de algum sentimento, apenas uma câmera e um diretor de um filme podem garantir que exista aqui algum sentimento, e é um filme inverossímil pois não é possível que haja uma solidão que seja tão absoluta que o homem sentado diante dos patos de arroz não tenha certeza se de fato ainda existe.
CM:
Vedina soltou as mãos do volante e estalou os dedos, um mau hábito com bons efeitos sobre seu corpo atormentado. Ao longe, os sons do filho pulando, já solto no banco de trás. A onomatopeia da luta dos Power Rangers na mão do menino era repleta de texturas sonoras. Dentro de Vedina, os gritos eram ainda mais altos. O corpo pequeno de Augusto, em pleno ritmo, golpeava o ar: chutes nas galáxias, cambalhotas heroicas. Os pensamentos de Vedina em rotação acelerada ensaiavam o rompimento com Abel tomados por sons mais agressivos que os de naves espaciais velozes e sabres fosforescentes. O menino em outro planeta tão distante quanto a mãe. Lá, para ele, não havia gravidade, para ela era só o que havia. Ele podia voar, ela não. E no golpe decisivo, aquele que acabaria com os monstros invasores, Augusto chuta a cabeça da mãe. Vedina mete o pé no freio até o fundo. A parada é brusca. Augustinho voa.
Voa e bate no console do carro. Bate e explode numa gargalhada. Aquilo foi uma manobra radical, o monstro fora para sempre humilhado. A gargalhada agride. Vedina abre a porta e sai. O passo é cego e firme, todas as articulações tomadas de determinação. Ela puxa o filho para a calçada e em seguida joga no chão, aos pezinhos dele, a mochila colorida. Sem uma palavra, entra novamente no carro e arranca. Vai se foder, Abel, vai se foder.
IB:
Esse trecho que a Mariana leu é desse livro sobre um juiz que tem que decidir sobre a vida dos outros e o problema é que ele tem uma indecisão crônica, além de falar sobre a solidão desse homem. E o livro começa com uma carta que esse juiz escreve para tentar evitar um processo administrativo por atraso num julgamento, por causa de sua indecisão.
E é hilário porque ele mistura nessa carta toda aquela linguagem jurídica, com ele falando coisas da intimidade, tem um efeito muito engraçado. E na verdade é um livro que fala sobre solidão e alguns temas recorrentes também nos livros da Mariana. Mas o livro é muito engraçado e lendo, dá a impressão que você se divertiu muito escrevendo. Você se diverte escrevendo?
MSC:
Com certeza, esse foi o livro mais engraçado mesmo, apesar dos temas da justiça, que são trágicos. Então, invariavelmente dá aquela emocionada. Eu tenho um contato muito próximo com os temas e certamente no meio do humor tem aquele abalo, mas foi muito divertido de fazer. Eu também me diverti muito com o narrador Espelho, da Árvore mais sozinha do mundo, que eu também acho que tem mais humor. Então, esses dois foram mais suaves. Mas, realmente, também fui junto com ele para a parte do drama da solidão, de estar nessas cidades, ser deslocado de São Paulo de repente e não ter uma facilidade de engajar em novas companhias.
IB:
Bom, daí vocês leram o livro da Carla, e não dá para falar em se divertir. Você sofre escrevendo, Carla?
CM:
Pô, está desigual aqui. [Risadas] Então, na verdade, não sei se a palavra é “divertir”, ou no caso, “sofrer”, mas acho que fico muito envolvida. E esse envolvimento, para mim, tem um gozo, tem uma alegria, no sentido de… É muito bom quando estamos completamente envolvidos em uma coisa que gostamos de fazer, que queremos fazer.
Então, escrever, para mim, tem esse lugar. Tem um sofrimento de experimentar a situação junto com o personagem e tentar ao máximo emprestar o corpo para ele, para que ele caminhe na história. Mas tem uma outra camada, que é essa camada da adesão, de estar com muita adesão àquele momento e ao ato de escrever. Então, acho que tem uma intensidade muito forte.
IB:
A gente falou dessa coisa de diversão, de sofrimento, de tragédia, de humor. Mas, na verdade, vocês têm muitas diferenças formais de tema, mas também têm temas comuns na literatura de vocês duas. Maternidade, solidão, abandono, luto. Mariana, em Cláudia Vera [Feliz Natal], pela primeira traz um narrador homem. Você já brincou com os narradores na Árvore mais sozinha do mundo, que o narrador é uma árvore, é uma caminhonete, é um espelho, mas o narrador homem ainda não tinha aparecido. Como foi tratada essas questões do ponto de vista de um homem e por que você escolheu isso?
MSC:
É legal. Eu já até tinha feito um exercício, que foi o meu primeiro livro, quando eu escrevi no colégio e publiquei no comecinho da faculdade, que chamava Idílico, ele era narrado por um homem. De lá passaram vinte anos e, realmente, eu fui até para árvore, espelho, roupa, mas não fui para um homem. Mas eu acho que não foi tão diferente para mim no sentido de que os temas estão lá, os mesmos. Então, o olhar dele… Eu só desloquei o olhar, o que volta a falar de nós.
Então, o tempo todo que ele tenta, seja conhecer mulheres, seja julgá-las, suas questões, como no caso que tem a mulher da Bolívia que vai ficar presa e se dá conta de quantos anos vai ficar sem ver a criança. Enfim, ele vai se envolvendo com temas que nos dizem respeito, então nós vamos só deslocar o olhar e fica mais ainda exposta.
Por exemplo, tem uma promotora, que é de uma vileza extrema, porque a gente convive com pessoas das quais a gente discorda profissionalmente muito intensamente e gera uma vilania ali. E ela está comendo alface direto do saquinho porque falou que engordou no concurso e está emagrecendo, e duas semanas depois ele fala: “notei que já funcionou”. Comenta para a gente, não para ela. E por mais que seja essa mulher ruim, a gente está ali com ela. Enfim, os temas continuam e o olhar está deslocado.
Eu também queria muito explorar a amizade masculina, essa tentativa de intimidade. Claro que ele é um homem muito peculiar, um homem com mais dificuldade de entrosamento do que o normal, mas eu queria trazer um pouco do que eu sinto da diferença de intimidade entre os homens daquela que nós construímos entre nós. Então isso também vai deixando ele mais solitário, eu queria chegar nisso.
E esse livro, eu não acharia aconselhável ser narrado por uma mulher, porque eu traria uma mulher indecisa, uma juíza incapaz de tomar decisões, e que, em uma defesa prévia — um item formal de defesa na corregedoria — ela perde a cabeça e conta toda a trajetória dela desde a primeira comarca, falando intimidades, perdendo a cabeça porque foi representada, que é uma coisa não tão grave. Então, eu estaria só reforçando uma coisa que talvez até seja um estereótipo.
A gente ainda não chegou lá para poder brincar tanto assim com as nossas personagens. Eu não me sentiria confortável como me senti com esse homem, que, na verdade, estava só mostrando vulnerabilidades que achamos muito interessantes de ver. Um homem se expondo, mostrando as inseguranças que ele tem em relação aos outros atores da justiça, homens ou mulheres. É um olhar que consigo complexificar sem temer reforçar uma coisa que é generalizada. Por isso, também, nunca pensei que seria uma narradora mulher, mas não parei de falar de “nós” o tempo todo, apesar de ser com a voz dele.
IB:
Carla, quando a gente estava falando de temas que eu vejo em comum na literatura de vocês, que tem toda essa questão da solidão, das perdas, e nos seus livros está muito forte também a questão da violência contra a mulher. E tem uma voz nos seus livros, que é uma voz de mulher. Como foi desenvolver essa voz ao longo dos seus livros? Como você foi amadurecendo essa voz e o que você encontrou nela, dessa mulher?
CM:
Bom, eu acho que a escrita, por mais que a gente imagine qualquer personagem, ela parte de uma experiência corpórea, então é um corpo que escreve, um corpo impactado pelas suas experiências. Então, eu acho que isso, talvez, em alguns momentos, seja mais difícil você habitar o corpo do outro ali quando você está contando a história. Igual a Mari fez, um ponto de vista de um homem, ou de uma árvore. Quer dizer, você tem que realmente tentar ouvir a outra perspectiva para você não fazer alguma coisa em que você não julgue aquele sujeito, ao invés de estar na pele dele. Eu acho que esse é sempre o desafio. Eu acho que essa minha voz vem de uma curiosidade.
Eu tenho muita curiosidade com os personagens, talvez porque eu não seja uma autora de muito planejamento, eu vou encontrando a história na medida que eu escrevo, eu não vou fazer uma estrutura antes, entender o que vai estar em cada lugar, eu parto muito do lugar onde eles vão me levando, tentando perceber o que vem antes, o que vem depois, e tentando não julgar. Não julgar porque eu estou na perspectiva dele, não sou eu, Carla, escrevendo, eu estou emprestando o meu corpo, a minha sensibilidade, para tentar ouvir aquela voz e me colocar no lugar dele. Eu venho fazendo dessa maneira, embora eu ache que as vozes dos meus três livros são muito diferentes.
O quarto livro que eu vou lançar agora é outra voz também. Eu tenho muito interesse nessa coisa da textura, essa mediação da linguagem. A Mari falou do humor, esse meu livro novo também tem muito humor na linguagem, embora tenha muita tragédia. Assim como às vezes tem poesia, às vezes tem humor, às vezes tem uma ludicidade na textura.
E eu fico pensando que esses recursos de linguagem nos ajudam a olhar para aquela coisa indizível, que estamos diante dela, nos acontecimentos que estão sendo narrados. Então, é uma coisa, às vezes, tão brutal que você precisa da mediação da linguagem para conseguir olhar para aquilo, e para que o leitor também consiga se colocar um pouquinho no lugar daquele sujeito, que é completamente diferente dele — às vezes, abominável, mas um sujeito diante de uma condição humana, de uma circunstância, de um jeito de lidar com a vida. Então, eu acho que é nesse lugar aí que eu vou tentando encontrar essas vozes.
IB:
Eu não quis dizer a mesma voz nesse sentido, mas que há, talvez, aquela voz que transborda, que está em todos os livros. E como eu também acho que, mesmo mudando o narrador, tem uma voz da Mariana, foi nesse sentido que eu quis dizer.
CM:
Sim.
IB:
Já que falamos do novo livro, Quando, queremos saber se você vai dar aqui algo exclusivo para A Feira do Livro, um spoiler desse novo romance.
CM:
Posso dar, Ana [Lima Cecílio]? A minha editora está aqui, e está liberando. Quando é o nome do próximo livro, é um “quando” sem pontuação, não é pergunta, não é resposta, é o tempo capturado ali. Pode ser o “quando” do passado, “quando” do presente e o “quando” do futuro, o “quando” pergunta ou o “quando” resposta. É a história de uma mãe — uma história bem levinha — que denuncia um filho de dezessete anos. E o livro começa na espera dessa mãe, provavelmente o dia que ela vai reencontrá-lo, vinte anos depois dessa denúncia, desse acontecimento. Então, eu vou ao longo do livro, tentando entender o que veio antes dessa atitude radical dessa mãe, ou seja, qual foi o ato também da ordem do extremo desse rapaz.
E o leitor vai sendo implicado numa situação em que ele não sabe muito bem onde se colocar. Pelo menos eu estou tentando fazer isso com vocês. Vocês não saberem exatamente a distinção ali do quanto a gente carrega de uma mistura entre um desejo de vingança, entre um desejo de restauração, entre uma pergunta que eu me faço, porque esse menino tem dezessete anos, então a pergunta que eu me faço é: “a gente vai desistir dos meninos de dezessete anos? Como vamos lidar com isso?”. E aí eu dei esse livro para minha filha ler e a única coisa que ela disse foi: “mãe, não dá para você escrever uma história mais levinha, não?”. Mas ele tem muito humor. Então, acho que isso vai ajudar.
IB:
Você pode conversar com a Mariana depois, como que a justiça lida com esses meninos. Como vamos julgar esse menino.
CM:
É, é, isso mesmo.
IB:
Então, a Carla falou um pouco do processo de escrita dela. Eu já conversei sobre isso com a Mariana, mas as pessoas adoram saber, a Mariana escreve muito rápido, ela escreve um prêmio atrás do outro, que nem nós vimos aqui. As pessoas ficam muito impressionadas, então a pergunta é: como você concilia a escrita com as demandas da defensoria pública? Porque ela é escritora e continua a ser defensora, que é uma atividade que você abraçou, que você valoriza muito. Como você concilia? E você falou que tem um branco entre um romance e outro, então como surge a ideia do romance? E como você faz para escrever sendo defensora pública full-time também?
MSC:
O processo achei bem parecido com o que a Carla estava descrevendo. Não planejo quase nada, com exceção da Árvore mais sozinha do mundo, que exigiu dois anos de pesquisa, eu tive que desenhar um pouco melhor o tempo do plantio do tabaco, uma série de detalhes. Porém, normalmente é muito mais espontâneo e a linguagem vai fazendo brotar o narrador, que vai me conduzindo, depois voltamos à linha. Então, é muito gostoso e menos acadêmico, inclusive. Então, eu realmente encaixo em tudo, em todos os momentos.
Eu gosto mais de pegar um momento de “seguidão”, então a maioria dos romances eu escrevi de férias, uma boa parte dele eu li em umas férias, deixei quatro ou cinco meses dormindo e no recesso forense eu voltava a ele. E é bom que, com esse tempo que passa, você já consegue ler com certa distância, como se você fosse um leitor quase. E depois retomo, vou fazendo em blocos. Foi a mesma coisa com esse último.
Nos primeiros anos de defensoria eu fiquei sem escrever praticamente, eu escrevia só contos sobre defensoria porque eu estava esmagada, tanto em termos de tempo como de mentalidade — era realmente muito pesado. Depois eu fui me adaptando e os outros romances foram saindo também de golpes. E acredito que vai ser assim por muito tempo. A não ser que… Eu gosto de fazer mesa com a Carla porque, além de ela ser muito agradável, deu para perceber que se, cada um leitor da Carla comprar um livro meu, a gente muda essa métrica. Então, vamos sair daqui com essa meta. [Risadas]
CM:
Depois você me ensina como ganhar o Prêmio São Paulo.
MSC:
Vamos fazer essa troca. Mas, como você disse, a defensoria talvez tenha, realmente, me abraçado primeiro, dentro do direito sempre foi a minha única porta. Desde que eu estava na faculdade e criaram a defensoria, eu falei: “se eu ficar no direito, é aí”. E eu sempre escrevi, desde muito nova, então eu já sabia que ia ser em paralelo. Eu vou encaixando a escrita e isso não é um custo, mas é um descanso, é um momento de entrega e de espairecer, inclusive. É mais difícil conciliar eventos do que a escrita em si. Eu preciso, na verdade, criar um clima, um momento para sair do pragmático e entrar em uma sensação mais melancólica, mesmo com um livro engraçado. Eu sinto que é preciso estar em um estado de melancolia para sair desse pensamento muito intenso de trabalho, e escrever, de modo que fique encaixado em momentos para caber isso. E vem funcionando.
IB:
Então, Carla, a mulher de um milhão de livros, eu queria saber como é viver de literatura e como você vê a situação atual do mercado de literatura no Brasil.
CM:
Primeiro, eu tive uma agência de comunicação por quarenta anos, está muito recente a minha vida só de escritora. Eu também fui uma pessoa com uma agenda muito pesada de trabalho, porque era uma agência grande, com mais de cem pessoas. Então, era uma rotina muito puxada de dia a dia e eu escrevia muito de noite, quando chegava do trabalho e final de semana.
Mas, outro dia eu estava conversando com o Valter Hugo Mãe sobre o meu primeiro livro, Tudo é rio. A voz naquele livro estava tão alta, porque eu escrevi em oito meses, foi muito rápido, e eu tinha ficado catorze anos incubando aquilo, então veio em um jorro, eu escrevi muito rápido. Eu cheguei a escrever em set de filmagem com aquela barulheira ao meu redor e eu escrevendo. Aí nos outros livros, eu fui notando a cada livro que a voz estava ficando mais profunda, mais difícil de ouvir então comecei a precisar de mais silêncio.
E esse livro agora foi muito caótico, tem quatro anos que eu estou escrevendo e ele veio no meio de uma sequência de lutos — eu vivi três lutos muito pesados. Ao mesmo tempo, eu precisava da literatura como um recurso para lidar com o real. Então, foi muito intenso. Estou naquela fase de reler, reler, reler, que eu acho que é a fase que eu mais gosto, que é ler o livro que eu escrevi. Eu ainda não estou dando conta de parar de ler o livro que eu escrevi. A editora tem que me desculpar, porque está difícil largar esse livro, porque ele está me sustentando em um monte de lugares.
Então, essa ideia de viver só da literatura é uma coisa que, nesse momento, estou brincando que estou igual a Clarice, que fala que é melhor não tirar o defeito, vai que cai o edifício inteiro. Eu estou meio sem saber se, sem o trabalho, sem a loucura, será que eu vou ter tumulto suficiente para escrever bons livros? Porque eu acho que tem que ter uma… Isso que Mari chamou de melancolia, eu acho que o corpo tem que estar precisando produzir sentido, eu tenho muita convicção na minha experiência disso.
Dei essa volta toda para contar esse caso do meu momento de ser só escritora, que está se iniciando agora na minha vida. Mas eu acho que o mercado de literatura, o que estamos vivendo — embora algumas pesquisas digam de perdas de leitores — eu acho que estamos vivendo essa maravilha que estou vendo aqui. Olha esse auditório cheio, essa praça linda cheia quase todos os dias, a quantidade de festivais que temos participado no Brasil inteiro, sempre muito prestigiados, as cidades desejando isso, as pessoas desejando isso, a quantidade de clubes de leitura, a quantidade de curadorias que estamos vendo.
Eu fico muito otimista diante desse desafio que são as redes sociais, a informação fragmentada, a falta de tolerância, em comparação com a profundidade, com ter tempo para se aprofundar num livro, essa coisa que a literatura exige que o leitor faça parte. Então eu fico na torcida, testemunhando algumas coisas que eu acho muito bonitas e fortes, mas também sabendo de alguns números que acusam uma situação difícil. Ao mesmo tempo, vendo a mulherada brilhar de uma maneira incrível, que está sendo muito bom ver.
IB:
E você, Mariana? Como você está vendo o mercado hoje? Você faz parte de uma nova leva de escritoras que estão surgindo com muita força. Como você está vendo isso?
MSC:
Eu tenho muita dificuldade de separar o que é a sensação da bolha, que é maravilhosa, porque a gente vai vendo esses dados que não parecem com a nossa experiência. Então, tudo bem, a gente já vive em tantas bolhas, vamos abraçar mais essa, porque parece que está todo mundo lendo. Inclusive, o meu algoritmo do Google só tem notícias de literatura. “Nossa, como o mundo está interessado em nós”. [Risadas] Então, eu fico com essa impressão.
Eu comecei também a ser publicada em editoras maiores, ao mesmo tempo que já tinha rodado a campanha de “Leia Mulheres”, vários movimentos, ações afirmativas para ler mulheres. Hoje em dia eu já sinto algo mais orgânico porque as pessoas se interessaram pelos temas. Existe uma novidade secular, vamos dizer, porque nós lemos muitos homens fantásticos ao longo dos séculos, mas o que se traz agora é diferente, então parece mais orgânico. O “Leia Mulheres” continuam fazendo muito efeito para nós, mas eu sinto que pegou o interesse mesmo.
Então, a sensação é… Voltando só um pouquinho para aquilo que a Carla comentou, que: depois os outros livros têm uma necessidade do silêncio. Eu acho que, sim, dá uma sensação, mas nós que trabalhamos com outro ofício e vamos usar o lazer para escrever, eu, pelo menos, tenho muita dificuldade de perder. Perder, para mim, é uma coisa horrorosa. Eu fico mortificada de todo mundo sair para um lugar e eu ficar em casa escrevendo. Eu fiz isso várias vezes, milhões de vezes, mas me deixa angustiada. Para mim, o ideal é que todo mundo vá lá em casa, todo mundo fica quietinho, eu fico vendo o que está acontecendo, eu boto aquele fone, e vocês podem se divertir, mas não muito, fiquem me olhando.
Isso porque eu não tenho filhos. Eu sei que as escritoras-mães falam muito da culpa que dá se você tem um trabalho e também escreve, porque no seu lazer, a criança está te olhando e você está escrevendo. Que mensagem você passa para essa criança da sua escrita? É uma sensação que deve ser muito difícil se você tem um segundo ofício, porque não dá nem para dizer que é o tempo do trabalho.
Então, acho que o mercado, para mim, só seria melhor se nós tivéssemos realmente uma garantia de poder ter esse ofício. A Maria Carmem do Se deus me chamar não vou diz: “eu recebi o papel da prefeitura, sou escritora, cadê o meu salário?” Então, isso talvez fosse a apoteose.
IB:
Em 2024, a Carla deu uma entrevista para a Adriana Ferreira Silva na revista Quatro Cinco Um. Você disse que vender muito no Brasil é quase uma insinuação que há alguma coisa errada e também falou que talvez haja um certo machismo na forma que a crítica especializada fala da sua obra. O que eu queria saber é se você acha que alguma coisa mudou dessa sua entrevista de 2024 para agora.
CM:
Eu acho que eu mudei. Nós escrevemos, as pessoas leem, as pessoas amam, as pessoas não amam tanto. Eu acho que isso faz parte de um movimento muito maior, essa questão da mulher escrever. Eu vejo, às vezes, “a literatura feita por mulher”, por que nós estamos toda hora pondo esse sobrenome? É literatura. Ótimo que… Estou falando aqui do lado de uma pessoa que lida com questões muito mais desafiadoras. Mas o que eu quero dizer é que vai ser muito bom quando não precisarmos mais ficar carregando esses complementos.
Porque é literatura. Por que a do homem é universal e a nossa tem que ter um sobrenome? “Literatura feita por mulheres”, “as mulheres na literatura”, não, literatura. Literatura boa, literatura que as pessoas estão lendo e está se tornando ocasião de muitas conversas de muita reflexão. Então, eu acho que eu vou compreendendo com um pouco mais de maturidade, a maturidade dá essas coisas para a gente. Eu, por exemplo, não tenho nenhum problema de todo mundo sair e eu ficar escrevendo. Saiam, por favor! Então, eu acho que é isso que vai acontecendo, você vai ficando maduro.
Outro dia eu me vi diante da imagem da Terra vista pela Artemis 2, e fiquei pensando: “gente, eu estou lá naquela foto!” Depois, de brincadeira, fiquei refletindo o que será que eu estava fazendo na hora que essa foto foi feita? Eu acho que eu estava decidindo se o Tito, esse meu personagem, ia mesmo bater ou não na porta da mãe dele. E fiquei pensando que isso não teria relevância nenhuma, quando você olha a Terra de fora, parece uma coisa tão miúda.
Mas depois eu percebi que não, isso é imenso, isso é uma coisa imensa para mim, e era a coisa mais importante naquele momento para mim, era aquele instante de decidir se ele ia ou não bater na porta. Porque o tamanho do universo para fora, muitas vezes é o tamanho do universo para dentro. Então, eu acho que está tudo certo, eu acho que estou aprendendo isso.
O mais importante para mim hoje, na idade que eu estou, diante das minhas questões, não é para onde a literatura me leva. É claro que eu quero que dê tudo certo, que eu quero que seja superlido, que eu quero continuar vendendo muito, porque significa estar sendo lida, mas o mais importante do que para onde a literatura me leva é de onde ela me tira. E, nos últimos quatro anos, salvou minha vida. Foi uma coisa muito forte.
IB:
Mariana, você fala de mulheres, agrotóxico, processos jurídicos, várias outras coisas, mas tem um tema, presente também nos livros da Carla, que é: você fala do outro. Qual é o seu interesse de falar do outro?
MSC:
Eu acho que ficcionalizar sempre foi minha paixão, desde pequena, criar histórias e pessoas que não sou eu. Essas outras histórias, que não são autoficção, não são baseadas na minha experiência e nem em pessoas que eu conheço, acionam o mesmo mecanismo da infância, um lúdico dramático que me interessa muito. Também é um exercício de empatia, eu me entrego para vidas que não são as minhas.
Inclusive, parece um pouco com a atividade jurídica em que nós temos que enxergar no outro diversas histórias que nos chegam como casos, e é importante ter esse olhar. Eu vejo ali um exercício semelhante, por isso que eu gosto muito que os juristas leiam cada vez mais, porque a gente se entrega mais a sentir a vida do outro, experimentar e julgar de outra forma quem precisa julgar e não julgar quem não é para julgar. Então, acho que tem afinidade aí.
E eu acho que o fato de que a gente começou a ser lida por ações afirmativas também tem o outro lado, como talvez tenha sido a entrevista da Carla em 2024, que muita gente nem sequer lê, porque presume que só está sendo lida porque é mulher, como afirmativo. Então, tem essa sensação mesmo, mas tudo bem, porque o saldo é positivo, e uma hora essas pessoas chegam também a esses livros, se for importante para elas.
Também tem uma questão dos temas, porque a Carla comentou “qual a importância”, a gente vai dando zoom out e tudo vai ficando inútil. Nisso, sobram os livros que algumas pessoas acham relevantes — porque falam da guerra, falam de história —, livros que parecem ter uma grande eloquência política. Mas, se estamos falando de uma vida criada dentro de um quarto e a relação dessa pessoa com a mãe, essa pessoa é que pode crescer e fazer a guerra. Tudo começa ali e tudo é importante. Se a gente enxergar o detalhe que fica do crescimento de cada um, é material literário importantíssimo, relevantíssimo.
Às vezes, eu sinto que esbarra nisso. As pessoas estão procurando histórias reais que, na verdade, não entregam ficção exatamente, porque o resto é menor, ou que dando o zoom out não fica relevante. Eu acho que é justamente o contrário. Embora não queira polarizar, porque existem pessoas que fazem autoficção que dialogam com todo mundo. O universalista traz uma coisa que você sente. Como você fez isso com o material da sua própria vida? E eu jamais conseguiria produzir isso da minha vivência. Então, acho que são talentos diversos e que geram igual importância literária.
CM:
Às vezes, passamos muito tempo escrevendo um livro que vai ser lido em uma sentada. Então, não precisamos entrar nessa… Eu digo que tem lugar para todas essas explorações, essas possibilidades. Eu, do meu ponto de vista, acho que a questão da condição humana, essa questão de… Eu tenho uma questão forte com a maternidade, porque eu acho mesmo que é o primeiro lugar no mundo que a gente está, e ele determina muita coisa do mundo. Essa experiência de criança tem um poder ao longo da vida inteira da gente.
E também porque eu me pergunto hoje muitas vezes: o que é hoje assunto só de mulher? O que é? Filho é assunto só de mulher? Violência contra a mulher é assunto só de mulher? Então, é nesse lugar que eu considero uma certa… Como se os homens estivessem falando uma coisa mais inteligente, por exemplo. Então, acho que é isso que a gente precisa derrubar.
IB:
Falando de temas, eu queria falar sobre um tema que é muito caro também à Mariana, que são as relações familiares, as organizações familiares e as organizações afetivas, que também estão no seu livro de formas diferentes. No Cláudia Vera [Feliz Natal], o juiz indeciso e solitário tem uma chave de mudança quando ele começa a ver outras formas de organizações familiares, de afeto que ele não entende ainda. No livro, ele não consegue ainda entender. Estou dando muito spoiler?
MSC:
É difícil falar desse caso sem falar do livro. Acho que dá para dizer que existe um caso que ele não consegue decidir, porque ele não consegue descobrir a verdade. De fato, é impossível achar a verdade. E precisa de outros atores da justiça, outras personagens, para mostrar que não é só a verdade que vai ser uma resposta nesse caso. E aí cai na questão das famílias, a formação das famílias, que não precisa necessariamente seguir o que a lei prevê para nós. Às vezes, nós vamos formar famílias de outra forma.
IB:
É um assunto que você tem falado bastante também.
MSC:
Sim, eu gosto muito desse tema e acho que é a primeira vez que eu trago junto com a justiça. A lei não abraça totalmente o nosso dia a dia. Às vezes, a gente se expande para além do que alguém lá atrás desenhou para gerir o nosso dia a dia. Então, depende da habilidade do julgador, do judiciário, de compreender a nossa capacidade de amar de outras formas. E não quer dizer que não podemos fazer, é que alguém precisa ir lá e reconhecer isso para nos proteger. Então, também foi a primeira vez que eu trago nesse desenho.
Mas eu sempre falei desse tema, no Não fossem as sílabas do sábado para mim, as duas mulheres ali estão formando uma família com essa criança, com base na amizade, com base nos anos passando. Uma delas não percebe, não se entrega totalmente, mas é disso que eu quero falar também, da não entrega à amizade, que é uma coisa que eu sempre trago, que poderia ser o nosso vínculo prioritário, e às vezes a gente esquece por aí, no caminho de outros grandes vínculos da nossa vida.
E acho que agora deu para falar de uma maneira que mistura meus dois ofícios. Esse é um livro que eu não conseguiria ter escrito dessa forma se eu não tivesse quinze anos de defensora. Mesmo que eu fizesse a pesquisa, tudo chegaria nos temas, mas as rusgas, a forma como eles discutem, é uma coisa muito de quem está dentro da sala. Eu quis focar nisso também para aproveitar e trazer essa visão para quem não está ali dentro, e também para quem está dentro brincar, dar um pouco de risada ou se comover com o retrato disso.
E aí, trazendo esse tema que me é tão caro, porque acho que as reformas legislativas, as novas decisões vão ter que abarcar isso. Em dado momento, vamos começar a falar também de adoção entre amigos ou de fertilização só com os amigos, sem vínculo conjugal. Vamos falar disso. Mas, como já estamos sentindo essas outras formas de amor, falamos, pelo menos, literariamente.
IB:
Agora, ao mesmo tempo, você procurou se distanciar, porque você é defensora, mas você escolheu um juiz para ser o narrador.
MSC:
Vai na mesma lógica de não trazer para a própria vivência, porque acho que ela é limitadora, no meu caso. Eu me ateria muito ao que já vi como defensora e acabaria, talvez, não criando tanto. E também eu queria explorar essa história da decisão, a necessidade de decidir tudo o tempo todo em uma pequena comarca, e já ter essa figura de “ali vai o juiz”, ou seja, qualquer tema que cair ali é meu, eu que decido, é o “Roberto Carlos com poderes decisórios”. E isso era diferente para mim, era uma coisa que eu queria experimentar e brincar um pouco de sentir.
E também, isso abre para eu buscar uma verdade maior do que a verdade que eu vivi, que é a verdade que eu estudo, pesquiso, faço uma pesquisa íntima, pesquisa com os outros, até chegar a um lugar que eu não vivi e que pode ser que seja mais verdadeiro do que o meu olhar sobre a defensoria, ou sobre como é ser defensor. Então, nunca passou pela minha cabeça fazer isso da perspectiva de um defensor.
IB:
Carla, você fala de cada família infeliz que é infeliz da sua maneira. Tem relações doentias, são trágicas, tem coisas trágicas. Para falar disso, eu vou fazer uma pergunta que está no final do Véspera. A verdade precisa sempre ser negociada?
CM:
Eu achei maravilhoso esse tema. Ainda não li o Cláudia Vera [Feliz Natal], mas é muito legal a premissa de um juiz indeciso. Eu acho maravilhoso, porque se a gente for pensar na introdução do Véspera, você não sabe se é um homem ou se é uma mulher falando. Ele parte da pergunta “como se chega ao extremo?”, para ter uma coisa meio essa figura de Deus. Porque a única possibilidade de justiça sem chance de erro… Não só a justiça que diz que “você fez isso, está confirmado, você tem que ser condenado”, mas uma justiça mais ampla que percebe a circunstância daquela pessoa, para que seja justa mesmo, desde quando ela nasce, do que ela viveu, até o ato, que é a véspera da véspera do acontecimento. Então, é nesse lugar.
A verdade tem sempre que ser negociada, porque somos humanos. Então, só Deus é onisciente, onipotente, onipresente. Então, só ele pode ser completamente justo, porque ele viu atrás, ele verá na frente, ele vê no presente, então ele percebe não só o ato, mas toda a circunstância. E aí, nós pensamos em uma justiça divina, não em uma justiça humana, que é dentro do possível. As regras, as leis, o que é feito ali, dentro do que nós conseguimos como pacto civilizatório.
Mas essa frase vem neste lugar. A verdade tem sempre que ser negociada, porque o narrador ou narradora de Véspera, que é essa voz, a gente não sabe o quanto ele ou ela inventa, o quanto a gente inventa que o outro é, o quanto a gente inventa que o outro fez. E aí, nessa perspectiva, é que entra essa ideia de que a verdade é alguma coisa que a gente está sempre negociando, porque existe a gente, existe o eu, mas existe o outro. E aí precisa negociar.
IB:
Então, é justamente o drama desse juiz.
CM:
É justamente. E é muito legal essa perspectiva, porque, de uma certa forma, é o reconhecimento de uma humanidade dele.
MSC:
Você falou de justiça divina, mas a justiça humana é muito frustrante para quem chega nela, tanto para quem vai buscá-la e descobre o que é, como para quem chega pela primeira vez para trabalhar com ela. Porque, mesmo que você saiba a verdade de muitos casos, principalmente no criminal, vamos começar por onde eu comecei, você chega e a pessoa confessa: “de fato, eu fui pego em flagrante, eu furtei esse monte de comida aqui, eu furtei fio de cobre, deixei a cidade sem luz, sim, estava traficando.” Aí a sua resposta é: “está bom, então vamos condenar, essa é a pena”. Você segue o que está lá, e percebe que você não deu resposta nenhuma. Nenhuma. Essa pessoa vai chegar lá e vai sair daqui a pouco, vai voltar para onde… Você pergunta o histórico de vida, vai sabendo de onde ela veio, para onde ela vai voltar. É muito frustrante.
E mesmo depois, no cível e família, na defensoria, você passa, às vezes, uma hora e meia com um casal discutindo os destinos da criança, porque ou vai ser duzentos ou 250 reais a pensão alimentícia. E aí você consegue um acordo, conversa um pouco com essa mãe para melhorar a relação, é o máximo que você conseguiu. Não dá para chamar de justiça o lugar para onde você devolve essas pessoas.
Então, essa frustração também é uma coisa que eu trabalhei muito no livro, porque todos ali estão de alguma forma frustrados e começam a alfinetar um ao outro. Se torna mais fácil culpar o seu colega — que vai tornar a sua vida um inferno, o inferno são os outros ali — do que perceber que o seu próprio ofício não vai te levar onde você sonhou. Ou, no caso desse juiz, você nem parou para pensar onde estava indo.
É esse clima que gera um pouco de belicosidade na vida vida real que eu busquei trazer para o livro, que traz uma comicidade das pessoas discutindo dentro dos ritos e com empolamento do respeito um ao outro, mas se odiando e querendo chorar no fim do dia, mas também traz esse drama que é não conseguir resolver nada.
IB:
O seu livro acabou de sair, mas essa exposição desse ridículo que tem em todo o meio jurídico, como foi as reações dos seus pares?
MSC:
Os defensores são os que menos me deram ainda retorno, eu recebi muita mensagem de juízes que eu não sei até agora direito como é que vai ser entre eles. Porque, realmente, quem me escreve são pessoas muito libertárias, alguns até outsiders que ou já saíram da carreira ou estão tentando concurso para entrar.
Tem gente que lê com comoção mesmo porque se envolve com o drama do juiz, e vai ter gente que lê mais de fora achando um pouco risível, até porque é patético ele se questionar o tempo todo, não conseguir e ficar torcendo o tempo todo para que os grandes dramas não caiam com ele, caiam na outra cidade, vão ser federalizados. Enfim, é uma sensação que você fica com um pouco de pena, um pouco de raiva e um pouco de apego. Então, eu não sei ainda, estou ansiosa para receber essas trocas.
A ideia surgiu a partir de uma conversa com um defensor, que era meu colega de São Miguel, e comentou que foi defensor em Cláudia, no Mato Grosso, e depois voltou para São Paulo. Ele falou que tinha Vera, Feliz Natal, enfim, daí surgiu. Eu ouvi muitos depoimentos dele e fui expandindo para outros depoimentos até eu formar vários casos e compor personagens que existem, são aglomerados de coisas horríveis ou boas que pessoas de fato fizeram. Eu acho que vai ser bacana.
É gostoso a gente ver o nosso dia a dia retratado com a linguagem mediando isso e trazendo um pouco de deslocamento, porque é diferente você receber uma notícia ou ouvir uma história em uma linguagem que é literária, você se desmancha um pouco para receber isso. Então, acho que vai ser legal. Aguardo ansiosamente os retornos.
IB:
E essa questão que eu estava falando, o drama do juiz de falar a verdade e a ideia de que ele tem que achar a verdade para fazer justiça, não cumprir a lei… Carla, você acha que a ficção é o jeito de a gente chegar na verdade? É mais verdade a ficção?
CM:
Olha, eu acho que a ficção experimenta a ação das possibilidades da condição humana. Então, não importa se é verdade ou se não é verdade, importa que é possível, que tenha a ver com a condição humana, que você compreenda, a partir dessa condição, do que nós somos capazes ou que não somos capazes. Não é uma investigação da realidade, ou alguma coisa tentando trazer respostas, ou dizer como tem que ser um manual de boas práticas, mas é sobre entender do que a gente é capaz e topar a viagem.
Por exemplo, acho que isso que está colocado é a dúvida, a dúvida em um juiz é uma coisa que a gente não pensa. Um juiz ter dúvida, que não sabe direito, eu acho que isso é sensacional. Igual a Andrea del Fuego fez A pediatra, uma pediatra que não gosta de criança, olha que premissa maravilhosa. Olhar para um lugar que pode não ser, mas não importa, é explorar esse campo das possibilidades com um desejo não de entender a verdade, ou concluir alguma coisa, mas, pelo contrário, com a liberdade de abrir o leque das possibilidades da condição humana mesmo.
IB:
Isso que você falou me lembrou quando você diz “a verdade precisa sempre ser negociada”, nesse parágrafo, eu não me lembro exatamente como, mas você fala alguma coisa assim: “com as palavras tudo é possível, com a linguagem tudo é possível”.
CM:
Com a linguagem tudo é possível. Eu estava ouvindo aqui a Mari falar e esse meu novo livro tem uma frase… Tem um policial que é um horror, porque é uma herança da ditadura, é um cara que aparece pouco no livro, mas ele é uma coisa horrorosa.
Eu fiz até umas pesquisas, conversei com um amigo meu que é da polícia e não posso nem agradecer ele no final. Esse policial é realmente um horror e tem uma hora que ele, defendendo a visão dele, fala esse negócio, que ele leu uma frase — não lembro exatamente a frase — que dizia assim: “não quero dar um olho por um dente”.
Uma coisa assim, por causa da frase “olho por olho, dente por dente”, que era a barbárie da justiça, mas já era uma coisa melhor, porque antes podia ser um olho por vários olhos, se matava alguém de uma família, e aí iam vingar matando não sei quantos da sua família. Mas depois já negociaram, pelo menos, um olho por olho, dente por dente, que já foi uma coisa um pouco melhor.
E esse policial está falando: “gente, eu vou dar um olho por um dente? As pessoas podem achar ruim, mas o justo é olho por olho, dente por dente.” Então, ele faz esse raciocínio. E aí eu fico pensando nisso, nem sei por que estou falando isso, mas me perdi. Me perdi aqui, me entusiasmei. [Risadas]
IB:
Tudo ser possível com a linguagem.
CM:
Tudo ser possível na linguagem. Então, tem a ver com isso, com, na linguagem, você ir pegando essa coisa complexa e fazendo uma coisa que nós… Padre Vieira, a coisa da retórica, que você pode ir tecendo o que for que você vai… Naquela história, você pode contar uma grande mentira falando só a verdade, a linguagem permite isso.
Eu, como publicitária, lembro de um filme que era um enquadramento em que a câmera ia passando num rosto que você não via, a câmera muito próxima, você não conseguia dizer de quem aquele rosto era. E na locução ia falando só a verdade: “ele formou na Universidade de Arte, ele fez isso, mobilizou várias pessoas”. Só dando pedaços da verdade. Na hora que a câmera abria, você via que era o Hitler. Então, falava assim, só com verdade, foi, de repente, contando uma imensa mentira. Eu acho que a linguagem permite muito isso.
IB:
Estou olhando aqui porque já me avisaram que está chegando no final e eu não quero deixar o público sem fazer as perguntas. Tem uma pergunta, não tenho o nome de quem escreveu, mas é uma pergunta para as duas. Então, cada uma fala. “A obra das duas ressoa fortemente no sentido de abordarem a tragédia. Nesse sentido, como a condição humana, pairada por um sentido trágico, tem influência na sua obra? E como entendem esse trágico atravessado pela esperança?”.
MSC:
Eu vou me socorrer da minha árvore, de A árvore mais sozinha do mundo, que eu acho que é a que mais chega nisso, porque ela fica o tempo todo admirando a humanidade e as coisas dos humanos que ela não tem: a maciez, a forma de amar. Ela não compreende porque para ela é um absurdo eles não a derrubarem, já que ela é tóxica e as favas dela acabam contaminando os bichinhos de vez em quando. “Como é que não me derrubam? Mas é amor, que amor é esse?”
E ela também fala da esperança, que é uma coisa que a árvore não compreende, porque aquela família está ficando endividada, claramente não vai conseguir. Ela percebe que a situação é muito grave, mas eles continuam lutando, porque eles têm esperança. E ela fica: “eu não sei, eu acho que eu não tenho isso. Uma árvore espera que no verão faça calor, que no inverno faça frio, e se prepara para isso. Mas eu não sei como é isso que é esperança”.
E, uma hora, ela até compara com ilusão, porque também tem uma esperança que perde o lastro. Ela acha que eles já chegaram à beira da ilusão, que seria uma esperança estabanada, não me lembro qual é a palavra. Mas eu acho que é o olhar que eu consegui tentar fazer externo a nós, de olhar ali por cima e observar coisas que eu não dei explicação e não entendo, mas que é um fenômeno, talvez, da condição humana, ter uma esperança de algo que você não pode necessariamente lutar para conseguir, você pode dar o seu melhor, mas vai ficar o tempo todo esperando.
Acho que essa é a parte que mais, nos meus livros, trata explicitamente do que essa pergunta trouxe. Não respondi, só comentei.
CM:
Eu, particularmente, sou muito afetada pelas notícias, por esse ambiente trágico que vivemos, pela condição humana nesse lugar que eu vejo o tempo inteiro. Por que, coletivamente, estamos fazendo o que estamos fazendo, sendo que, individualmente, queremos tanto ter uma vida legal, ter afetos, mas, coletivamente, estamos fazendo coisas muito terríveis? Eu fico sempre muito afetada com isso, adoecida, de certa forma, com isso.
Acho que sempre que estamos à deriva, desamparados nessa loucura, vamos vendo as coisas acontecerem, e esse coletivo nos atropela, e estamos produzindo um monte de coisas que nos horrorizam — mas, que somos nós que estamos fazendo. Vemos coisas brutais em um sujeito, e queremos chamá-lo de monstro, mas ele não é monstro, ele é uma pessoa que nasceu nessa sociedade que nós estamos deixando acontecer. Então, isso sempre me causa muita aflição.
E eu acho que eu fico também tentando olhar para um outro lado de abundância, para um outro lado de potência que nós temos, para um outro lado extraordinário de ser o que nós somos, fazer o que nós fazemos, entender onde nós estamos do ponto de vista tecnológico, de descoberta, de ciência, é tão extraordinário, é tão incrível o que nós somos. E aí eu fico aí no meio dessa coisa toda, querendo olhar para isso, e às vezes com mais esperança, às vezes com mais espanto, mas eu acho que é isso. A gente não pode desistir de se perceber como potente, belo e capaz de fazer coisas extraordinárias.
IB:
Olha, eu acho que vou conseguir fazer as duas últimas perguntas. É a mesma pessoa, só que não é a mesma pergunta. “Carla, o que você pensou após a cena trágica de Tudo é rio?”
CM:
Olha, depois que eu escrevi essa cena, eu fiquei catorze anos sem encostar nesse livro — é uma história que eu já contei algumas vezes. Porque é da ordem do indizível mesmo. Eu achei bonito, outro dia, ouvindo um podcast, eu aprendi a diferença entre a palavra indizível e a palavra inefável. Indizível é que, diante de um acontecimento muito trágico, não tem mesmo o que dizer, não tem palavra para dizer. E o inefável tem a ver, depois de um acontecimento qualquer, há tanto a ser dito que é inefável.
Então, no caso de Tudo é rio, eu vivi a ordem do indizível, não havia nada a ser dito, eu precisava viver. Passei catorze anos, fui mãe, vivi a experiência da maternidade e só aí eu voltei ao livro. Quando eu voltei eu tive um ritual que eu escrevi uma palavra, é um capítulo feito de uma palavra, que é a palavra dor. Então, com esse capítulo eu retornei ao livro mas é isso o sentimento, é de perder as palavras.
IB:
E a pergunta para a Mariana é: “No Se não fossem as sílabas de sábado, por que a Ana fica tão apegada ao luto?”
MSC:
Eu acho curiosa a reverberação desse livro nas pessoas, porque varia muito. Tem muitas pessoas que julgam a Ana, o que era uma intenção minha também, porque eu percebi que, no processo de luto, muitas pessoas vão ficando sozinhas, porque o que esperam dela é outra reação, e ela para de caber no dia a dia dos outros. Então, primeiro que eu acho que dez anos não é nada, passa muito rápido, realmente, dez anos nesse processo de estar criando a filha que ela sonhou criar com esse marido que era jovem, eles estavam super apaixonados, não é tanto ano assim. Mas ela fica remoendo uma tragédia que aconteceu muito de repente.
Então, o projeto de vida dela foi interrompido de um jeito que ela não sai, sendo que a vida dela já ofereceu outros futuros que estão acontecendo na frente dela. Ela está criando a filha dela com a Madalena, e isso é uma vida que ela não consegue perceber o quão feliz é, ou ela não quer perceber para não se culpar por ser feliz com o que sobrou dessa tragédia, por admitir a nova vida que a tragédia trouxe. Então, tem um pouco de culpa, um pouco de realmente não conseguir sair. E eu acho que isso é muito curioso.
Tive até um clube de leitura em que as pessoas brigaram na minha frente, porque uma pessoa falou: “nossa, eu achei a Ana insuportável, ela não parava com isso, os anos passando, a menina lá, sendo legal com ela e ela não supera esse homem”. E a moça que estava do lado começou a chorar e falou: “nossa, eu ia aqui falar agora que eu perdi meu marido há exatos dez anos e que eu li o livro inteiro me identificando muito. Fiquei sozinha, eu continuo sofrendo todos os dias. Acho que você foi desrespeitosa”. Aí começaram e eu fiquei lá, falei: “bom, legal, agora não tenho nada a ver com isso”.
Então, eu gosto muito disso. Acho legal quando falam que a Ana é chata. Foi para isso que eu fiz, para mostrar o quanto é injusto, além de tudo, enlutadas sermos chatas. Então, é outra vivência que eu também não tenho, e tenho mentalmente, porque eu morro de medo, então eu fico pensando em várias desgraças, mas eu não sofri nenhuma delas.
E me entreguei totalmente para sentir junto com a Ana e acho que foi o tempo dela, ela precisou de um tempo, precisou da ajuda da filha também, para perceber que a vida aconteceu em volta desse luto. Que passaram-se mais anos vivendo ali com a Madalena do que com o marido. Então, acho que o luto tem vários tempos. Esse foi o da Ana.
IB:
E o nosso acabou. Obrigada.
PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o nosso novo quadro do 451 MHz, o Livro Marcador. Nele, a gente convida grandes autores e grandes leitores em geral para compartilhar qual livro marcou a vida deles. Pode ser a leitura que despertou para a escrita, o livro mais emocionante que já leram, aquele que eles admiram tanto que gostariam de ter escrito, um que acompanhou algum momento importante da vida, enfim, um livro inesquecível.
No episódio de hoje, quem conta pra gente qual foi o seu livro marcador é a poeta, atriz e slammer Luiza Romão. Ela também é autora da coletânea de poemas Também guardamos pedras aqui, de 2021, livro que foi publicado pela Nós e venceu o Jabuti. Em maio desse ano, ela publicou pela Quelônio o seu primeiro livro infanto-juvenil, chamado Ontem vi meu pai chorar. É uma história sobre uma menina que, depois de ver o pai chorando com uma partida de futebol, deseja compreender os códigos desse esporte. A gente falou com a Luiza n’A Feira do Livro 2026, lá na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo. Vamos ouvir.
Luiza Romão:
O livro que marcou meus últimos tempos é um livro que eu estou estudando no doutorado. E quando eu abri ele, a primeira frase já me pegou completamente, que é: “pero, no tenía voz”. Já fiquei fisgada por isso, com um livro que começa com um “mas”, um “porém”, ou seja, que já começa com uma falta e é um livro que narra, ou ficcionaliza de alguma forma, o assassinato do Andrés Escobar, um zagueiro colombiano que faz um gol contra na Copa do Mundo de 94 e que, quando retorna para a Colômbia, ele é assassinado.
Então, é um livro que discute bastante futebol, essa dimensão da violência, os vínculos também com o contexto colombiano dos anos 80 e 90, com muitas disputas políticas, com a incidência dos cartéis. É um livro que é bem alucinado e que leva a gente dos Estados Unidos para Bogotá, de Bogotá para Medellín, numa jornada hercúlea. O livro se chama Autogol é do escritor colombiano Ricardo Silva Romero e fica a dica para a gente ler e quem sabe traduzir aqui para o Brasil.
PW:
Então, Autogol, do colombiano Ricardo Silva Romero, é o livro que marcou o doutorado da Luiza Romão. Esse livro, que ainda não tem tradução aqui no Brasil, foi publicado lá na Colômbia em 2009 pela Alfaguara.
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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
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