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Transcrição: Ana Guadalupe no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #205, em que a poeta paranaense fala na coluna Lado Beber sobre sua nova coletânea de poemas, Ensino à distância
21ago2026 • Atualizado em: 20ago2026Nesta edição, a coluna Lado Beber do 451 MHz recebe a poeta paranaense Ana Guadalupe. Ela conversa com a colunista Bruna Beber sobre Ensino à distância (Companhia das Letras), sua nova coletânea de poemas. No livro, a autora escreve sobre seus anos vivendo como estrangeira em Buenos Aires, onde foi estudar e acabou permanecendo quatro anos. Ela brinca nos poemas com a própria miopia, transformada em metáfora para como percebemos a vida e as nuances da cidade. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi. Está começando o episódio 205 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revistaQuatro Cinco Um. Toda sexta-feira, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Ana Guadalupe [AG]:
Eu lembro da minha paixão por poesia, até me causava constrangimento, sem brincadeira. Eu lembro que eu falava ali para os amigos da faculdade ou da escola que eu adorava poesia e era uma coisa, no mínimo, esquisita. Todo mundo gostava muito de ficção. Nesses últimos anos as coisas mudaram tanto, me empolga muito ver como a gente está num momento em que a poesia no Brasil é muito querida.
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é da Ana Guadalupe. Eu já vou te falar mais sobre ela, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com apoio da Lei Rouanet.
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PW:
Hoje, a coluna Lado Beber, do 451 MHz, que é capitaneada pela grande Bruna Beber, recebe a poeta e tradutora Ana Guadalupe. Ela tem quatro livros de poesia publicados, entre eles Relógio de pulso, que saiu pelas 7Letras em 2011, Não conheço ninguém que não seja artista, que foi lançado em 2015 pela editora Confeitaria e Preocupações, que foi publicado pela Macondo em 2019.
A Ana Guadalupe também tem no currículo a tradução de mais de quarenta livros para o português. São autores tão díspares como o da Sylvia Plath, o Denis Johnson, a Rupi Kaur e o Kazuo Ishiguro.
E agora, a Ana Guadalupe está lançando a coletânea de poemas Ensino à distância, que acabou de sair pela Companhia das Letras, naquela coleçãozinha de poesia linda da Companhia. Nesse livro, ela escreve sobre os seus anos vivendo como estrangeira em Buenos Aires e brinca com a própria miopia, que vira metáfora para a forma como a gente percebe a vida.
E no final do episódio, você vai descobrir qual foi o livro que marcou a vida da editora Ana Lima Cecílio no novo quadro do 451 MHz, o Livro Marcador.
Então, vamos lá para a primeira parte da conversa da Ana Guadalupe com a Bruna Beber.
Bruna Beber [BB]:
Apareceu a margarida! Ana Guadalupe, bem-vinda à coluna Lado Beber, aqui no podcast da revistaQuatro Cinco Um, o 451 MHz. Como você está, Ana Guadalupe?
AG:
Muito obrigada, Bruna. Eu nunca pensei que estaria aqui, é uma grande emoção, um sonho. Tô bem, tô mudando de casa, fiz uma mudança e estou lançando um livro, né? Grande momento na minha vida.
BB:
Você voltou pro Brasil faz quanto tempo?
AG:
Foram várias idas e vindas. Eu voltei em setembro ou outubro do ano passado, mas aí viajei e aproveitei. Bom, eu tenho feito isso, quando eu tenho uma brecha, uma pausa, eu acabo ficando um tempo mais. Da última vez eu fiquei quatro anos em Buenos Aires, também numa lacuna, assim. E aí agora, eu estava nessa indecisão de onde morar, e voltei pra São Paulo. Tô feliz com a decisão, estava com muito receio de ficar numa dúvida da qual eu não conseguisse sair. Então, é um alívio. Mas voltei, enfim, em outubro, e voltei agora, faz menos de um mês.
BB:
Eu tô muito feliz de te ver aqui, de te ouvir, porque não te vejo desde 1954. Não sou só eu, porque ninguém te vê, Ana. Eu sei que você estava morando fora, mas mesmo quando você estava morando no Brasil, é muito difícil ver, encontrar a Ana Guadalupe. Então, o que acontece? Está na torre escrevendo poemas?
AG:
Onde andará, né? [Risadas] Eu acho que eu sou… Tenho pensado nisso agora que eu tô trabalhando nesse lançamento e voltando pro Brasil, eu quero participar de mais coisas. Acho que eu sou muito discreta. Acho que isso é um fator, né? Não sei se é descrição ou timidez. Mas a gente não se via fazia uns… Acho que uns dez anos, ou oito. Primeiro que no começo eu era do Paraná, né?
BB:
Londrina!
AG:
Londrina, mas aí eu estudava em Maringá, eu estudei e morei lá por oito anos, e aí eu isso também me fez ficar um pouco longe. Depois eu vim pra São Paulo, e o mercado de trabalho também, né? Foram anos de muito trabalho. Trabalho… Traduções… Eu trabalhava na publicidade, e em 2016 eu comecei a traduzir e eu traduzi muito, foi uma loucura. Que bom, né? Sou grata por isso.
BB:
Quantos livros?
AG:
Agora, acho que são 41. Quarenta oficialmente, né? Alguns não saíram. Mas você também traduziu muitos.
BB:
Traduzi, quarenta e tantos também.
AG:
E daí eu acho que com esse atropelo do trabalho, eu acabei fazendo poucos eventos literários na vida. Não me considero uma grande leitora, como você é, que lê muito bem poesia e as pessoas querem te ouvir. Eu acho que quando eu vou ler poesia, poemas em público, não é meu momento ali. Mas, enfim, estou melhorando. Mas é isso, acho que eu tinha esse perfil misterioso. Vamos ver se agora ele muda, né? Bom, estou aqui, estou aqui participando. [Risadas]
BB:
É um dos seus charmes. Os charmes não precisam ser modificados nem revertidos. Eu gosto dessa aura.
AG:
Eu gosto também. Eu até acho que talvez — não sei como você se sente com isso — os meus poemas também tem isso, e eu acho que se eu aparecesse muito eles perderiam uma parte do charme deles.
BB:
Vamos falar muito do Ensino à distância, seu livro mais recente, publicado pela Companhia das Letras, que marca quinze anos desde a sua estreia comRelógio de pulso, em 2011, lembro muito bem, pela editora Sete Letras. Mas antes, Ana, eu queria saber, como tudo começou para você na poesia? Como essa loucura fez folia em sua vida?
AG:
Primeiro, se eu for seguir uma linha mais cronológica, tem a questão familiar, que eu sei que nem todo mundo viveu dessa maneira, então acho que isso é mais único. Meus pais escreviam poesia, tem tios, avós, tem algumas pessoas de várias gerações que escreveram poesia. Então, eu tinha a ideia de que a poesia existia, principalmente, isso foi o principal.
Eu lembro de ouvir que existiu essa escrita, eu lembro da minha avó falando, eu lembro de ter livrinhos de poesia na minha casa. Isso foi decisivo porque eu entendi, mesmo antes da escola me ensinar, que existia ficção e poesia, que existia prosa e poesia. E aí os livrinhos fininhos de poesia sempre me atraíram, não sei se porque eles eram curtos ou porque pareciam simpáticos e estavam ali, e os meus pais não tinham muito livro em casa, mas tinham alguns livros de poesia que me marcaram na infância.
Eu lembro de um livro que chamava Volubilis, por exemplo, essa palavra ficou na minha cabeça, mas eu não lembro mais o nome do autor, eu lembro da capa e que ela me causava uma sensação. Esses livros eram meio bonitos e esse nem era tão pequenininho, eu acho, era uma edição grande. Meus pais, como eles tinham participado de algumas coletâneas lá de Londrina, tinha coletâneas ali da universidade.
Depois, na escola, eu também vejo que tive alegria, gostava muito de ler aqueles poeminhas que aparecem nos livros didáticos, decorava os poemas e depois. Também na escola eu eu escrevi contos, mas também houve um momento em que tinha um exercício de escrever poesia, e eu lembro que eu gostei muito do exercício, era um poema sobre flores, algo assim, eu tinha dez ou onze anos.
Antes disso eu escrevia contos, e depois na adolescência eu tive uma amiga que me marcou muito também. Ela escrevia poesia, ela escrevia uns poemas meio eróticos bem bonitos, e eu lembro que aquilo também me marcou muito e eu também comecei a escrever mais na adolescência.
BB:
A sua última publicação, que foi o livro Preocupações, que saiu pela editora Macondo em 2019, foi um livro que circulou bastante, foi bastante lido e comentado. De 2019 para o Ensino à distância, a gente tem a sua residência literária em Buenos Aires, autônoma. [Risadas] Quanto tempo, Ana, você demorou do Preocupações até começar a compor e a construir o Ensino à distância?
AG:
Parece que eu espero sair uma coisa para começar outra. Acho que é normal, né? Mas eu publiquei o Preocupações e já estava com a ideia de começar outro. Comecei logo depois. Mas veio a pandemia, saiu o livro e tem alguns poemas que são sobre isolamento social, umas coisas, e aí veio a pandemia, que loucura. Isso também explica aquela primeira questão, de por que que eu desapareci. E daí eu não pude fazer muita divulgação do Preocupações, eventos de leituras, nada disso, e aí eu comecei a escrever o Ensino à distância, eu terminei em 2025, já faz um tempo, e foram sobre esses anos na Argentina, misturando esses temas. Foi uma loucura minha vida lá.
BB:
Como foi sua vida lá?
AG:
Eu fui pra passar dois meses. Me impressiono hoje, como que eu tive essa ideia? É meio esdrúxula. Acho que tem a ver com a pandemia, com o trauma coletivo misturado com uma vontade muito grande de viver. A gente ficou muito assustado, aterrorizado, muito triste mas também com muito desejo de fazer as coisas. Eu estava em dúvida em relação a São Paulo, estava nesse momento de transição, tinha terminado um namoro e aí eu pensei em passar dois meses em Buenos Aires para conhecer melhor a cidade.
Eu estava com muito trabalho, estava traduzindo um livro de setecentas páginas, era muito trabalho. Quando eu cheguei lá, eu percebi que eu estava trabalhando tanto que eu quase não consegui fazer nada em dois meses e resolvi ficar seis meses mais. De repente, seis meses viraram anos. Eu também conheci muita gente lá, fiz amigos, namoros. E aí fui escrevendo o livro, mas muito aos poucos mesmo. Fiquei muito tempo na metade desse livro pensando que talvez não iria conseguir terminar, mas consegui.
BB:
E quando você começou, você começou como um projeto ou começou reunindo poemas que estavam saindo naquele momento? Você tinha alguma coisa em mente pré-fabricada já? Você tinha o assombro dessa nova cidade que aparece no seu livro inteiro e eu gosto muito porque você separa a cidade anônima, a cidade imaginada, a cidade negativa, a cidade musicada. Então, tinha um pré-projeto?
AG:
Tinha, mas o meu pré-projeto, na verdade, era sobre… Eu percebi que nos meus poemas eu sempre tinha uma tensão, uma angústia, entre o que eu estava escrevendo com quem eu era ali, a coisa do eu lírico, e quem é o outro do poema, e essa relação entre eu e o outro na poesia. Isso foi o ponto de partida.
Depois, eu fui percebendo que eu tava mais míope na pandemia. Eu tenho miopia desde criança, o que também tem a ver com leituras, com ler livros, sempre ver de muito perto, essa coisa de ser criança leitora, de ter sido criança leitora. E eu fiquei muito mais míope na pandemia, já estava num crescente, minha miopia nunca estacionou. Não sei se você tem miopia, mas dizem que vai estacionar perto dos quarenta, e a minha nunca parou. Também não é um grau absurdo, mas ela foi aumentando, então eu saí da pandemia mais míope, com várias questões, com esse ponto de partida.
Em Buenos Aires, eu comecei a viajar um pouco nessas questões das cidades, das experiências, como a gente imagina um lugar e como ele se desconstrói, meio que se revela, se desfaz e dá um pouco de saudade do que não vivi, como aquele meme. [Risadas] Saudade daquela cidade que eu pensei que fosse encontrar, mas isso com todas, né? São Paulo também. E daí Buenos Aires é essa cidade que vai ser muito especial pra mim para sempre, mas ela também se desfez um pouco ali, né?
BB:
Você trabalha a cidade livresca, que foi a Buenos Aires que você aprendeu e leu. Dentro dos poemas, estando em Buenos Aires, mas não participando exatamente da cidade, e dentro dos poemas muitas vezes você usa o recurso do próprio conhecimento e da descoberta de uma outra língua.
AG:
Sim. Eu acho que o fascínio de muita gente por Buenos Aires vem dos livros. Eu tinha isso na adolescência, eu li livros sobre a cidade na faculdade, as pessoas me falavam que eu tinha que conhecer, mas era uma grande fantasia muito bela, e a gente não quer perder essa imagem.
E aí você descobre que a cidade é muito mais complexa, o país é muito mais complexo. Eu conheci muito pouco da Argentina pra falar do país, acho que eu só posso falar da cidade mesmo e olhe lá. E fui nesse estranhamento cultural, com a língua e com essa imagem que eu tinha, o tempo todo sendo obrigada a revê-la e ver de novo. Mas também não ver, que é a coisa da miopia também.
BB:
Tem a obrigatoriedade de amar uma cidade, mas uma consequência de desamá-la. E esse título glorioso, Ensino a distância, veio com o poema? Que é um poema localizado na parte final do livro. Ele veio antes, veio depois, veio amarrando tudo? Como foi? Esse título é demais.
AG:
Poxa, que bom que você gostou, fico feliz. As pessoas me deram vários retornos, alguns gostam, outros não. No começo eu fiz uma lista, pela primeira vez fiz uma lista de títulos. Tentei encontrar um título, que é uma coisa que sempre foi muito difícil pra mim e eu lembro de ter uma listona. Em algum momento cheguei nessa expressão, consagrada, que eu achei que trazia esses vários temas que eu estava misturando, a miopia, a cidade, esse eu e o outro, o eu lírico, e também até que ponto a gente está ali ou não, a poeta está presente. Essas coisas estavam me inquietando. Depois eu comecei a tentar escrever poemas que trabalhassem mais essa ideia, e aí surgiu esse.
BB:
Preocupações já era um título maravilhoso também, porque resume tudo que o livro inclui e o simples fato dele ser chamado Preocupações é como um tópico, é um título extremamente preocupado, porque parece que ele anuncia uma lista de aflições que virão. Não parece que você tem dificuldade com títulos, inclusive os títulos dos próprios poemas.
Tem uma preocupação no Ensino à distância de fazer chapéus, tem esse que eu mencionei que é “A cidade”, aí tem “Os parques”, “Os cinemas”, a própria questão da miopia relacionada à insônia, ao sono, ao sonho… Então eu percebo alguns guarda-chuvas dentro do livro, subdivisões, como que você pensou isso? Como foi esse espelhamento?
AG:
Eu sinto que o Preocupações era muito mais amplo, então dessa vez eu fui mais organizada e consegui fazer um recorte melhor. Em Preocupações, por conta dessa amplidão, dá pra encaixar quase tudo, e agora também eu senti que parece um pouco como uma trapaça pegar um tema muito amplo. E agora, com esses temas, que a gente está falando da cidade, da miopia, eu até acho que eu poderia continuar escrevendo pra sempre. Porque acho que pela primeira vez, talvez, eu tenha encontrado temas que me apaixonam e me interessam muito.
Eu estava pensando, dá para fazer um volume dois, ou depois faixas bônus. Eu acho que eu poderia ter feito divisões diferentes, mas eu sou mais minimalista. Existem livros divididos em várias partes, mas eu sempre prefiro não fazer isso. E esses grupos temáticos eu também quis que fossem se alternando.
Bom, quem conhece essa história de que eu morei em Buenos Aires já sabe que a principal cidade ali é Buenos Aires, mas ao mesmo tempo não é. Eu também pensei em outras cidades muito grandes, como São Paulo, e a minha ideia é que começasse muito embaçado e ficando mais nítido, por isso os poemas eles vão aparecendo talvez pra uma construção de Buenos Aires. Mas a ideia era essa, que as coisas fossem mais confusas no início do livro, mais míopes, e no final tem um movimento de ir para o otimismo e pra essa visão mais clara.
BB:
Você acha que no Ensino à distância está operando uma espécie de tratado do sentido da visão?
AG:
Eu gostaria muito de ter explorado esse tema mais a fundo, porque é um tema que rende muito — talvez eu continue o buscando no futuro. Eu não sei, sinto que ele está um pouco diluído no livro e ele é embaçado por si mesmo, então essas construções que eu estou fazendo sobre a miopia são por si só um pouco míopes. Então eu não sei se o que eu tô tentando dizer ali está suficientemente resolvido. Eu sinto que é embaçado mesmo assim.
BB:
Mas eu acho que isso é bom. E isso é mais uma perspectiva, o livro tem várias. E mesmo a miopia, esse embaçado, esse engano, essa falha que vai se construindo, que não se enfoca, ela está distribuída ao longo do livro em outras perspectivas, que é uma perspectiva maior que é a do corpo que nos engana. Em um dos versos você diz que o corpo trama contra nós. Então, todas as aproximações e afastamentos de câmera que você faz dentro dos versos têm ali superior esses enganos, o engano dos sentidos, do corpo, corpo versus a cabeça. O que você acha disso? Dessa falha que está ali muito flagrada?
AG:
Com certeza é um dos efeitos que eu estava procurando. É esse, que é do engano, da confusão e dessa mistura também entre sensações e também a coisa até da biografia. Tem um momento ali em que eu brinco com isso, de dados biográficos que a gente mistura, mente, faz ficção… Mas eu acho que a questão do desconforto e do erro, hoje eu vejo que está nas coisas que eu escrevo desde muito cedo, desde que eu era adolescente, e foi ficando cada vez mais forte. As minhas preocupações eram angústias com coisas que dão errado, enganos. E nos poemas desse livro eu tentei levar essa lente distorcida pra outras coisas também, pra cidade.
BB:
Acho que no meio de tudo isso tem uma discussão muito interessante que é sobre a nitidez mesmo, né? A nitidez das relações, das aproximações intelectuais… Hoje em dia a gente vive num mundo que tudo é muito nítido, a tecnologia torna as coisas muito nítidas, e ao mesmo tempo, politicamente, a gente vive uma confusão, o engano completo, o fake. Eu acho que é um tema pouco tratado na poesia hoje, e você está debatendo ali.
AG:
É, eu vejo que eu tento ir da menor relação à mais ampla. Claro que eu poderia trabalhar as questões sociais da Argentina, que seria também interessante eu usar mais, e eu fiquei nesse conflito: até que ponto eu poderia ser uma porta-voz de uma realidade tão complexa? Eu tentei colocar em alguns poemas traços disso, parte dessa tensão está ali, mas também tento acenar para isso para a questão míope, de como estamos confinados na própria realidade, míopes de si mesmos, míopes sociais, isso também está na minha poesia desde antes, e tentei trazer de novo agora. É um desconforto sobre enxergar, ver mais pela minha perspectiva, né? E enfim…
Também sempre faço poemas de amor, que na verdade são poemas de amores fracassados, e essa coisa da gente gostar mais do outro quando ele tá longe. E sobre isso também, ter estado, ter morado em um país que eu compreendi muito pouco, e enquanto eu estava lá aconteceu a eleição do [Javier] Milei, foi um momento muito trágico, assustador. Tem um poema em que eu falo brevemente sobre isso, um país em que eu fui buscando literatura e encontrei a extrema-direita.
BB:
Eu acho que isso, a nitidez, está muito evidente em dois poemas que têm e não têm uma relação, que é o “descascar” e o “a casca”. Então, eu acho que a gente pode dar exemplos, porque estamos aqui num papo de poeta. Para quem ainda não leu o livro, mas lerá em breve, o que você acha de ler esses dois poemas?
AG:
Ler agora? Posso ler. Olha, eu acho que eu nunca li nenhum dos dois em voz alta, então… “descascar”.
dizem que embaixo do sarcasmo
existe uma segunda camada mais viscosa de sarcasmo
mas na quarta ou quinta você descobre uma vontade
[desesperada de amar
tem que descascar
até atingir o grito quase teatral
do episódio de terror noturno
que esconde outro grito mais calmo e monótono
de quem sabe que pelo menos dormiu
como fez o seguidor que no canto inferior do vídeo
encontrou um bumerangue em formato físico
e ao voltar o brinquedo lhe acertou o rosto
também registrado pela câmera frontal
no código destas palavras há
o plágio acidental de um livro
que um dia comprei no sebo
por apenas um real
se hoje abrirmos por fora qualquer janela da cidade
graças às máscaras daremos um susto nos presentes
mas o medo não será o mesmo de antes
nem o plano de viver com urgência se por acaso houver
[oportunidade depois
e haverá
atrás de cada aparição virtual
a insensata intenção de ser memorável
ou enganar
dizem que embaixo da maldade
fica uma segunda película mais oleosa de maldade
mas na sexta ou sétima todos se deparam com a mais
[profunda necessidade
tem que descascar
BB:
Se isto não é um tratado, o que é? Agora vamos ler A casca.
AG:
Vamos lá. Eu não sou muito de escrever lendo voz alta, eu sei que você é, que você tem uma coisa com a oralidade da poesia, e eu acho que ali dentro da minha cabeça tem uma voz que lê, mas ler em voz alta é uma coisa que eu não costumo fazer muito. A casca.
a casca
la cáscara
uma casca dupla
que encalacra na fruta
como se a palavra casca
também tivesse a dela
como a casa-carapaça
do caranguejo
como o plátano
com sua esfera venenosa
própria
propia
a gagueira sem querer
se torna expressiva
a língua presa
mas pelo menos é sua
se quiser você passa
felina na ferida
minha dor
minha vida
a casca própria
la cáscara propia
[Risadas] É porque o espanhol tem essas palavras muito estranhas. Quando eu leio esse poema hoje, eu vejo que era mais essa brincadeira com a palavra cáscara. Ela parece dupla, né? Cáscara. De onde veio isso? E são infinitas palavras que a gente pode usar só para essa imagem do estranhamento dessa língua.
BB:
Eu adorei essa sua descoberta de que a palavra “casca”, em espanhol, “cáscara”, tem uma casca própria. Eu vibrei quando eu li.
AG:
Isso é muito Bruna Beber até, né? [Risadas] Eu acho que parece um pouco uma coisa brincalhona, assim. Ontem eu estava aqui na minha casa nova e eu estava pensando, eram muitas palavras que têm isso, que são meio distorcidas para a gente e que eu poderia ter usado infinitas. Às vezes eu começo a pensar, mas enfim, entre descascar e a casca, que já estava descascada na ordem do livro aqui, ela reaparece.
BB:
Eu acho que isso vai totalmente de encontro, Ana, com o seu escarafunchamento da nitidez. E isso é muito vibrante. Ler o seu livro dá sensações muito vibrantes. O que você descobre escrevendo e o que você ilumina dentro do poema, ao longo de muitos poemas.
Você já está há quinze anos na poesia, publicando, escrevendo, traduzindo outros poetas também, né? Mas você está viva dentro do seu livro, viva e fazendo versos. Como é estar viva e estar fazendo versos vivos em 2026? No Brasil! É um privilégio.
AG:
Sim. Eu tinha uma visão também distorcida e uma fantasia de que a poesia estava muito reclusa nesses livrinhos que ninguém lia, em bibliotecas em que ninguém emprestava esses livros. E eu lembro que a minha paixão por poesia até me causava constrangimento, sem brincadeira. Eu falava para os amigos da faculdade ou da escola que eu adorava poesia e era realmente uma coisa, no mínimo, esquisita. Todo mundo gostava muito de ficção.
Nesses últimos anos, as coisas mudaram tanto e me empolga ver que a poesia está num momento em que é muito querida no Brasil. Como eu te conheço também há muitos anos, sou sua fã e lá no início, quando eu comecei a publicar eu te escrevi, te mandei um e-mail, era era outro mundo. [Risadas]
BB:
Era outro mundo, éramos cinco. Mas olha que maravilha, agora somos quinhentas mil!
AG:
Sim, a gente acompanhou as poetas brasileiras, principalmente as mulheres, e como a gente cresceu, como são muitas, sou fã de muitas, leio muitas. Homens também, gosto de vários. Mas a poesia no Brasil mudou muito e me sinto privilegiada e muito feliz em ter continuado escrevendo também, porque em vários momentos eu flerto com o abandono, é a cegueira da poesia.
Eu continuo lendo, claro, mas escrever é aquela coisa: por que eu preciso escrever? Eu não tenho aquela necessidade louca, incontrolável de chegar em casa e necessitar escrever poesia. Mas é uma coisa que eu gosto muito e me encontrei nisso de alguma maneira. E quanto a estar viva, eu acho também que eu misturo muito o eu e o eu lírico.
BB:
A “eu lírica”, que é um poema do livro.
AG:
Isso, para o público depois encontrar. E eu vejo que essa mistura é muito próxima, eu coloco emoções muito pessoais, ao mesmo tempo em que me escondo na poesia. Têm poemas muito distantes de mim, então isso foi intencional dessa vez, ou mais intencional que antes. E estando viva, às vezes não viva também.
BB:
Você falou: “a minha paixão pela poesia…”. Ela é muito clara em todos os seus livros. E eu acho que poesia é uma paixão que não se abandona, não se desfaz, às vezes a gente tenta abandonar, não sei como é pra você, quero saber. A gente tenta abandoná-la mas ela não nos abandona, então a poesia está sempre nos lembrando: “eu sou sua paixão”. Não importa o espaço que a gente dê, o tempo que a gente dê… Quais são seus artifícios, em vão, pra abandonar a poesia?
AG:
Eu tentei abandonar de muitas maneiras. Eu tenho momentos de distância, do quanto a gente se entende ou não, como a gente também se engana sobre nós. Às vezes eu penso numa coisa bem cruel que é: “eu paro de escrever a qualquer momento”. Como se fosse uma relação muito casual, eu acho que eu me engano também, eu quero me enganar, tipo: “ah não, eu não ligo tanto”. Às vezes eu escrevo e acho que tenho essa atitude, como se fosse uma escolha: “se eu pudesse eu não escreveria”. Eu acho que eu tenho uma relação muito ambivalente com a escrita.
Fora que, desde criança, eu quero ter muitos hobbies, eu gostaria de tocar e fiz aula de guitarra lá em Buenos Aires, de violão, comecei a tirar foto recentemente, sempre tive muitos interesses variados. E às vezes eu percebo que gostaria de fazer outra coisa. Sempre falo que eu gostaria de escrever ficção, e quero escrever, mas talvez se eu quisesse mesmo eu já teria escrito. Até que ponto eu quero mesmo? [Risadas] Então são muitas tentativas de fuga mas é isso, desde a adolescência e da infância, a poesia parece que tava se impondo na minha vida, é incontornável.
BB:
Vou te fazer uma pergunta que ninguém faz para quem escreve, mas eu vou começar a fazer essa pergunta para todo mundo: você gosta de escrever?
AG:
Eu acho uma pergunta muito boa, muito complexa. Eu diria que não gosto tanto de escrever. É um processo muito ambíguo e contrastante, porque, não sei se você sente isso, mas eu sinto que é muito fácil e muito difícil ao mesmo tempo. Eu sinto que eu pareço ter um controle daquele fenômeno, é até uma certa pretensão, mas quando eu vou de fato pegar uma folha em branco e escrever, não é tão fácil. O que gera essa decepção e às vezes uma revolta, essa vontade de parar para sempre.
Então, eu não diria que eu gosto, é uma relação mais tensionada. A criação tem momentos de muita adrenalina, e eu escrevo coisas que não necessariamente eu gosto, mas que causam uma adrenalina, causam uma sensação em mim, é meio químico. É um jogo, uma brincadeira, não sei, em que parece que você acertou, mas também não é “acertar”.
BB:
É uma experiência corpórea.
AG:
Sim, eu acho que é isso, é corpóreo, é uma sensação física e também esse gosto intelectual. Não é só intuição, porque eu falo assim e penso que pode parecer intuitivo, que estou psicografando. Muita gente também fala da poesia com a coisa do eu lírico, da inspiração, “não sei se sou eu”… Mas não é, é um exercício mental, uma mistura muito louca de elementos…
BB:
Como explicá-la?
AG:
Não tem como explicar.
BB:
Então, você acha que a escrita está entre as coisas que mais gosta de fazer?
AG:
Sinceramente, acho que não.
BB:
Que maravilha.
AG:
[Risadas] Na vida tem coisas que eu gosto muito. Eu gosto muito de comer, por exemplo, se eu pudesse… Eu cozinho muito mal, mas se eu pudesse ter trabalhado com isso, com crítica gastronômica, sei lá… Eu acho que a minha paixão é a comida, talvez em primeiro lugar, ou a música, muito perto. Eu acho que a escrita, o fazer da escrita, não está no “top cinco” da minha vida.
BB:
Que maravilha saber disso, Ana, e você tão lírica.
AG:
Pra você está no “top um”, no topo?
BB:
Primeiro, ler. Ler é a coisa mais maravilhosa do mundo, poder ler, saber ler, isso pra mim é primeira coisa de tudo. Mas eu adoro escrever. Cansa, né? É uma atividade cansativa mas eu gosto.
AG:
O processo ali traz alguma coisa especial.
BB:
Nossa, é a melhor coisa que eu acho que poderia trazer, que não sabemos qual é. O resultado, o efeito da escrita no corpo que escreve. Mas me sinto sempre uma maratonista, sabe? Mesmo escrevendo um dístico, eu me sinto uma maratonista.
As pessoas perguntam essas perguntas que sempre nos fazem, “quanto tempo você demora para escrever um poema?”, por exemplo. Eu não tenho uma resposta exata, mas os seus poemas, eu tenho a sensação de que você escreveu e reescreveu durante muito tempo, porque você trabalha a limpidez do verso, você é muito orientada na direção do verso, nos cortes. Então eu fico com a sensação de que você trabalha muito cada poema. Como é?
AG:
Às vezes acho que eu poderia trabalhar muito mais, mas eu chegaria a outros lugares, né? Porque eu percebo que na reescrita as coisas se transformam, ficam mais nítidas ou menos nítidas. Têm poemas que eu melhorei muito com a reescrita, melhorei esse efeito, mas têm outros que eu sinto que eu perco um frescor ou parte da confusão que me levou a escrever daquele primeiro jeito. Então, eu também tenho uma relação de tensão com isso.
E até com essa precisão, né? Às vezes, eu sinto que quando busco muito a precisão, eu começo a ficar neurótica. E eu acho também que o poema também vai se enfraquecendo. Às vezes tem imperfeições que eu gosto de manter porque também tem esse aspecto inconsciente. Tem essa parte mais intuitiva em imperfeições de que eu gosto muito e que eu quero que estejam ali. Nesse livro, as últimas correções que eu fiz, por exemplo, tem casos de estrofes que poderiam melhorar e você encontra uma versão daquela estrofe que funciona melhor…
Eu tenho uma coisa meio gráfica, da poesia ficar mais quadrada, se encaixa melhor. Eu não conto sílabas, não faço formas fixas então eu acho que fico nessa brecha, sem forma nenhuma, e buscando uma forma. Tem a ver com visão, parece que eu quero buscar quadrados… Acho que você também tem isso, mais do que a média, de buscar linhas, pares. Não sei se tem a ver com números ou com o desenho na página, que é uma coisa de buscar um encaixe. Mas sim, eu acho que eu reescrevo mas não tanto.
BB:
De colocar de pé um objeto, um objeto que pode ser contemplado a partir de suas faces também, a estrofe é uma face.
AG:
Sim, eu tenho algumas nóias com isso. Quando eu leio poesia e ela é muito disforme — o que é muito louco porque não é uma categoria de fato — eu percebo que me incomoda, então eu quero arranjar algumas coisas que estão além do sentido, além das palavras.
BB:
Vai ter lançamento do Ensino à distância em São Paulo?
AG:
Vai, agora menos distante, vou estar ali perto das pessoas. [Risadas] No dia cinco de agosto, acho que essa data ainda tem que ser confirmada, mas vai ter em São Paulo, depois pretendo fazer também em Curitiba e talvez surjam em outras cidades. Em Buenos Aires não, porque lá eu não sou poeta. [Risadas]
BB:
Não existe isso, Ana. [Risadas]
AG:
Lá eu era só uma pessoa.
BB:
Eu sei que o livro está fresquíssimo, está saindo agora, mas você já está escrevendo outra coisa?
AG:
Não. Estou pensando muito no que eu vou fazer agora, tem alguns temas que me interessam, tem coisas que eu deixei faltar, temas que eu até agora não trabalhei. E eu acho que esse livro serviu como um estímulo para eu escrever um pouco mais, com mais frequência. Então, eu estou nesse processo.
BB:
Ana Guadalupe, foi um prazer conversar com você.
AG:
Prazer é meu, eu me diverti mais do que eu esperava!
BB:
Eu esperava me divertir muito, já sabia que eu ia me divertir. E eu acho que as pessoas também vão se divertir e se encantar lendo o seu livro. Leiam Ensino à distância. Até já, apareça.
AG:
Até já. Vamos nos encontrar nos lançamentos. Muito obrigada, Bruna, te agradeço mesmo.
BB:
Obrigada você, foi ótimo.
PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o nosso novo quadro do 451 MHz, o Livro Marcador. Nele, a gente convida grandes autores e grandes leitores em geral para compartilhar qual livro marcou a vida deles. Pode ser a leitura que despertou para a escrita, o livro mais emocionante que já leram, aquele que eles admiram tanto que gostariam de ter escrito, um que acompanhou algum momento importante da vida, enfim, um livro inesquecível.
No episódio de hoje, quem conta qual foi o seu Livro Marcador é a editora Ana Lima Cecilio. Ela foi curadora da Flip por dois anos e agora assumiu o cargo de editora executiva do Grupo Editorial Record. Além disso, a Ana publica uma newsletter badalada chamada A lábia, que é uma das principais, uma das melhores newsletters de literatura no país. Vale a pena assinar para conferir as dicas literárias da Ana Lima. A gente falou com a Ana Lima Cecilio logo depois de uma mediação que ela fez lá n’A Feira do Livro, em junho, na praça Charles Miller, aqui em São Paulo.
Ana Lima Cecilio:
Um livro que me marcou muito é Uma mulher singular, da Vivian Gornick, porque ela constrói a partir das caminhadas que ela faz na cidade de Nova Iorque. Eu não ando em Nova Iorque, eu ando em São Paulo [risadas], mas, para mim, é muito importante isso que a gente pensa sobre a cidade, sobre o que a gente vê e o que isso reflete na gente. Então, eu sempre andei pensando. E depois que eu li esse livro, parece que ganha um significado maior, e não tem um dia que eu não atravesse a Paulista pensando na Vivian Gornick.
Siga o 451 MHz e ouça no seu aplicativo favorito:Apple Podcasts, Spotify, Deezer, Amazon Music, Castbox, YouTube. Saiba mais sobre este episódio e confira outras entrevistas sobre grandes livros e grandes autores aqui.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fábio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Podcast
Transcrição: Emicida e Arthur Dantas no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #203, uma conversa sobre literatura, rap e espiritualidade a partir do novo álbum do rapper
AGOSTO, 2026

