Repertório 451 MHz,

Se a ficção me chamar eu vou

Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara falam da atração por histórias e personagens diferentes delas e da escrita de seus novos romances

14ago2026

Está no ar o episódio 208 do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, as convidadas são as escritoras Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara, duas das autoras mais lidas do Brasil. Elas contam que a criação de histórias e personagens diferentes delas é o que mais as atrai na literatura e falam sobre processos de escrita e seus novos romances — Quando (Record), que Madeira acaba de lançar, e Cláudia Vera Feliz Natal (Todavia), recém-publicado por Salomão Carrara. 

As duas autoras também discutem as possibilidades da linguagem e defendem a universalidade da escrita de mulheres. A conversa aconteceu durante A Feira do Livro 2026, com mediação da jornalista Iara Biderman, editora da Quatro Cinco Um. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.

Jornalista e publicitária, Carla Madeira nasceu em Belo Horizonte e estreou na ficção com Tudo é rio, publicado, em 2014, pela Quixote+Do e relançado, em 2021, pela Record. O romance se tornou best-seller e saiu em países como Itália, México, França, Rússia e Portugal, onde venceu o Prêmio Livro do Ano Bertrand de 2024. Madeira ainda lançou Véspera (2021) e A natureza da mordida (2022), também pela Record. 

Já a paulistana Mariana Salomão Carrara, que também é defensora pública, escreveu os romances Se deus me chamar não vou (2019) e É sempre a hora da nossa morte amém (2021), ambos publicados pela editora Nós. Pela Todavia, lançou Não fossem as sílabas do sábado (2022) e A árvore mais sozinha do mundo (2024), vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura. Ainda publicou o infantil Sabor paciência (Baião, 2025)

No início da conversa, as duas leem trechos de Véspera e de Cláudia Vera Feliz Natal e compartilham experiências de escrita. Salomão Carrara conta que foi divertido escrever do ponto de vista de um homem — o juiz protagonista de Cláudia Vera Feliz Natal —, mas que teve que acompanhar o personagem em suas dúvidas e sua solidão.

Para Madeira, incorporar sensações e sentimentos é uma necessidade constante na ficção. “Escrever, para mim, tem o sofrimento de experimentar a situação junto com o personagem e tentar ao máximo emprestar o corpo para ele, para que ele caminhe na história”, diz. 

Outras perspectivas

O juiz de Cláudia Vera Feliz Natal se soma à galeria de narradores de Salomão Carrara, que já experimentou a perspectiva até de seres não humanos, como uma árvore, e objetos inanimados, como um espelho e uma caminhonete. 

“Eu só desloquei o olhar”, resume. Ela explica por que preferiu não criar uma narradora: “Eu traria uma mulher indecisa, uma juíza incapaz de tomar decisões — estaria só reforçando uma coisa que talvez seja um estereótipo”.

Questionada sobre como constrói vozes femininas marcadas pela violência, Madeira diz que seu processo é guiado pela escuta dos personagens. “Não sou eu, Carla, fazendo. Sou eu emprestando o meu corpo, a minha sensibilidade, para tentar ouvir aquela voz.” 

Sobre seu novo romance, Quando, ela adianta que trata da história de uma mãe que denuncia o filho de dezessete anos e, vinte anos depois, se prepara para reencontrá-lo. “Vou, ao longo do livro, tentando entender o que veio antes da atitude radical dessa mãe, qual foi o ato também da ordem do extremo desse rapaz. E o leitor vai sendo implicado numa situação em que não sabe muito bem onde se colocar”, resume.

 “A pergunta que me faço é: a gente vai desistir dos meninos de dezessete anos?”.

Entre ficção e realidade

As duas escritoras apontam o que mais as interessa ao escrever ficção. Salomão Carrara diz que é criar personagens e histórias distantes de sua própria realidade. “Acho que é um exercício também de empatia para me entregar a vidas que não são as minhas. Inclusive, parece um pouco a atividade jurídica — nós temos que enxergar no outro diversas histórias que chegam como caso, e é importante ter esse olhar.”

Carla Madeira, Mariana Carrara e Iara Biderman n’A Feira do Livro (Flávio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Para Madeira, a ficção não precisa reproduzir a realidade para alcançar algo verdadeiro e deve explorar tudo que diz respeito aos seres humanos. “Acho que a ficção experimenta as possibilidades da condição humana”, diz. 

“Não importa se é verdade ou se não é verdade. Importa que é possível, que tem a ver com a condição humana. É você compreender, a partir dessa condição, do que nós somos capazes ou não somos capazes.”

Mulheres na literatura

Madeira fala também sobre a literatura feita por mulheres e critica a tentativa de enquadrar a produção extensa, diversificada e consistente de escritoras em um universo estritamente feminino. Ela lembra da entrevista que deu à Quatro Cinco Um em 2024 e considera que, dois anos depois, a maneira como a literatura escrita por mulheres é percebida pela crítica ainda é desigual na comparação com a feita por homens.

A escritora defende que a literatura produzida por mulheres não deve ser uma categoria à parte. “Por que a gente está toda hora com esse sobrenome na literatura feita por mulheres? É literatura. Vai ser muito bom quando a gente não precisar mais ficar carregando esses complementos.”

A Feira do Livro no YouTube

A gravação desta e de outras mesas está disponível no YouTube, no canal d’A Feira do Livro. Confira em: https://www.youtube.com/@AFeiradoLivro

Livro Marcador 

No quadro Livro Marcador, em que grandes autores falam de livros marcantes em suas vidas, o episódio traz a sugestão da escritora Luiza Romão, autora da coletânea de poemas Também guardamos pedras aqui (Nós, 2021) e do recém-lançado Ontem vi meu pai chorar (Quelônio), seu primeiro livro infantojuvenil. Ela recomenda Autogol, do escritor colombiano Ricardo Silva Romero. O romance não foi publicado no Brasil.

A escritora Luiza Romão (Fabio Audi/Divulgação)

“É um livro que narra ou ficcionaliza o assassinato do Andrés Escobar, um zagueiro colombiano que faz um gol contra na Copa do Mundo de 94 e que, quando volta para a Colômbia, é assassinado. Então, é um livro que discute bastante futebol, essa dimensão da violência, os vínculos com o contexto colombiano dos anos 80, 90, com muitas disputas políticas, com a incidência dos cartéis”, diz.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]

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