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Transcrição: Calila das Mercês no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #209, uma conversa com Calila das Mercês sobre as viagens e vivências que deram origem a Nódoa, sua estreia no romance
11set2026Nesta edição, a coluna Lado Beber do 451 MHz recebe a escritora Calila das Mercês, que fala sobre Nódoa (Companhia das Letras), sua estreia no romance. Escrito durante viagens e vivências da autora pelo interior do Brasil, o livro é ambientado nos anos 60 e sua trama é povoada por gerações de mulheres em deslocamento. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi. Está começando o episódio 209 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Calila das Mercês [CM]:
Tive um parente que teve essa condição de catalepsia e isso sempre foi algo que me intrigou, porque acontece um acidente com ele e o declaram como morto. Depois de dias no necrotério, ele acorda e vive mais cinquenta anos tranquilamente. Em um dia eu estou no velório desse parente materno e um primo falou assim: “será que ele vai ressuscitar de novo?” E eu falei: “meu Deus, como assim, cara?”
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é da escritora Calila das Mercês. Eu já vou te falar um pouquinho mais sobre ela, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com apoio da Lei Rouanet.
PW:
O episódio de hoje é da colunista Bruna Beber, o Lado Beber, coluna que a poeta assina aqui no 451 MHz. Ela sempre convida poetas e escritores incríveis que estão passando pela mesinha de cabeceira dela para conversar com a gente sobre poesia, sobre palavras, sobre a vida da escrita. E hoje a Bruna vai conversar com uma autora que vem ganhando destaque na cena literária brasileira.
A Calila das Mercês é escritora, poeta, jornalista e pesquisadora. Ela é autora do livro de poemas Notas de um interior circundante e outros afetos, publicado pela Padê Editorial em 2019 e também do livro de contos Planta oração, que saiu pela Nós em 2022. No programa de hoje, a nossa colunista Bruna Beber recebe a Calila para uma conversa sobre Nódoa, que é o romance de estreia dela e que acabou de sair pela Companhia das Letras.
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Depois dessa conversa, no quadro Livro Marcador, o escritor e sacerdote das religiões afro-brasileiras João Tokunbó Carneiro conta para a gente qual foi o livro que marcou as suas leituras recentes. Então vamos lá para a primeira parte da conversa da Bruna Weber com a Calila das Mercês.
Bruna Beber [BB]:
Calila das Mercês, finalmente.
CM:
Finalmente, Bruna. Nosso momento chegou.
BB:
Como você está?
CM:
Eu estou bem, obrigada. Muito alegre estar aqui conversando com você.
BB:
Vamos lá, então, Calila.
CM:
Vamos.
BB:
Eu tenho 47 perguntas, acho que consigo fazer cinco.
CM:
Meu Deus, 47. [Risadas]
BB:
Me conta, Calila, como tudo começou? Quando a poesia fez folia em sua vida?
CM:
A poesia faz folia em minha vida desde que eu sou menina, desde os meus passeios de bicicleta por Berimbau, que eu teimava em caminhos que meus pais não deixavam. E aí eu percorria caminhos na zona rural da minha cidade e sempre queria ir pra perto do rio, e ir pra perto do rio era um segredo, era proibido porque tinham várias histórias de pessoas que iam e não voltavam, tinham vários manejos, então eu ia anotando, tomando nota dessas coisas e ia guardando, ia escrevendo no meu caderno, aí depois eu inventei de ter um blog secreto.
Ninguém podia ler. Quer dizer, as pessoas liam, mas não sabiam que eu era a dona. Então, eu ia anotando essas coisas. Depois fui sendo descoberta, né? Foram me tirando do armário E comecei a participar de saraus, comecei a ser convocada, mas ainda muito tímida. Ia lendo minhas poesias com tanto de vergonha, era como se eu estivesse pelada — e era, e de alguma forma eu estava ali pelada, sim.
BB:
Quantos anos você tinha?
CM:
Quando eu comecei a participar dos saraus eu já tinha uns dezoito anos. Era uma nudez possível.
BB:
Mas você começou a escrever com que idade?
CM:
Eu comecei a escrever muito nova, acho que com treze ou catorze eu já estava ali brincando. Não sei, eu acho que começou com uma ideia de brincadeira, de mimese, muita gente vai mimetizando e eu também mimetizei o que estava ali no meu alcance, a partir de músicas, a partir de poesia, do próprio cordel, que era acessível.
Então, fui ali experimentando essas linguagens que estavam próximas e fui descobrindo outras possibilidades, fui fazendo pesquisas, me aproximando dos dicionários, de outras palavras, de palavras também que não eram minhas, mas eram das minhas avós, das minhas tias, das mais velhas, e descobrindo que as palavras que elas falavam também podiam existir nessa poesia, nessa possibilidade de escrita.
BB:
E você acha que o seu interesse pela escrita veio através de algúem? Alguma pessoa te fez apaixonar pelos livros ou pelas palavras? Quem foi a primeira pessoa que te deu a mão nesse caminho da leitura e da escrita?
CM:
Eu não sei se teve uma pessoa só, mas eu tive a alegria de viver numa garupa de bicicleta com meu pai aos domingos, e essa imagem chega muito forte, e íamos comprar jornal na única banca de revistas que tinha na cidade, e no único dia em que tínhamos jornal, que era aos domingos. Então íamos todos os domingos na banca de Penha, pegávamos o jornal e a gente fazia essa leitura compartilhada, da coluna de esportes, que eu gostava muito, gostava muito também de ler as crônicas do jornal.
Então tinha textos da Mãe Stella de Oxóssi, do João Ubaldo Ribeiro, que eu lia também, tinha da Malu Fontes, que era uma jornalista, crítica, e aí eu ia fazendo essas leituras e gostando, e às vezes não gostando tanto do que eu tava lendo, então era um pouco desse movimento. Eu tenho essa lembrança do meu pai ser essa figura que passeava comigo na bicicleta e a gente trazia os textos para casa, palavras de outras pessoas para casa.
Não tínhamos tantos livros, não tínhamos biblioteca na cidade, até hoje isso é uma lacuna, porque as bibliotecas públicas ainda são equipamentos que não existem em todas as cidades, em todas as localidades. Então, esses jornais serviam como uma atualização do que estava acontecendo e de alguma forma inspirava também a descobrir outras coisas e tudo.
BB:
Então, você começou pelo mundo, colhendo textos sobre o mundo. E os livros?
CM:
Ah, os livros… Eu tenho um carinho muito grande pelos livros, como eles chegaram para mim. Primeiro, os livros didáticos. Então, eu fui descobrir as poesias a partir do acesso também aos livros didáticos.
Então, eu lembro muito de livros que possuíam algumas músicas, algumas canções. A canção do Milton Nascimento, “Maria, Maria”, eu lembro que eu li com uns seis anos e eu chorei muito quando eu li “Maria, Maria” e me dei conta de que eu conhecia aquelas Marias, então eu fiquei muito tocada. Teve também a experiência de ler “Águas de março”, de ler aquela poesia tão milimétrica e tão expressiva sobre o tempo, sobre o movimento, então isso me deixava muito feliz.
E isso era no livro didático, né? Então, como pessoas do interior, desses Brasis, podem se aproximar de canções, de músicas, de uma poética que muitas vezes demora um pouco, né? A gente lida muito com esse próximo distante, com essa conexão um pouco difusa. Então, tinham essas obras, mais para o sudeste que a gente acessava, mas também tinha muita poesia na rádio. Eu lembro que a gente escutava o vinil do Gilberto Gil, que sempre foi presente na minha casa. A gente também escutava reggae, Edson Gomes, tocava muito forró, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, e por aí vai. Acho que a música chegou primeiro.
BB:
E aí você ficou no recôncavo até que idade, mais ou menos?
CM:
[No] Recôncavo fico até os vinte [anos]. Eu nasci e cresci em Berimbau, depois eu fui estudar em Feira de Santana aos quinze anos, que aí já é no agreste, um pouco agreste e um pouco sertão. Aí depois eu moro em Portugal por um ano, depois volto pra Salvador, retorno pra Feira de Santana e, enfim, vou pra Brasília, vou pro cerrado, e depois venho pra aqui, pra São Paulo.
BB:
E nesse trânsito todo você também foi se formando, fez mestrado, fez doutorado na UnB. O seu primeiro livro, não à toa, publicado em 2019 pela Padê, Notas de um interior circundante e outros afetos, é no começo das suas pesquisas, né?
CM:
Exatamente. É quando, em diálogo com a Tati Nascimento, eu crio coragem e decido colocar essas poesias no mundo. Curioso que eu encontrei a Tati esses dias em Paraty, e sempre que eu encontro ela é aquela comoção, vou abraçá-la, me declarar, sempre é um bom momento para declarar meu afeto, meu carinho pelas pessoas e todas as vezes eu vou agradecer a Tati. Ela é responsável por essa… talvez por convocar coragem, né? Porque se autoafirmar poeta, escritora, exige muita coragem.
Tem uma amiga que também é poeta, a Lívia Natália, que ela falava que desconfiava muito da palavra “escritora”. Eu desconfio até hoje, mas eu vou tentando contornar essa palavra e não temer a importância dessa palavra. Então, Tati Nascimento é a figura que fala: “Calila, bora partilhar. Eu não sou uma pessoa que elogio todo mundo, você sabe, mas seu texto é muito lindo, o mundo precisa conhecer seu texto”. E aí, encorajada pela Tati… e no encontro também com a Conceição Evaristo, que a gente não tinha trabalhado juntas ainda na ocasião.
BB:
Vocês trabalharam no Núcleo Escrevivências da USP?
CM:
Eu participei da cátedra da Conceição como pós-doutoranda. Na época, esse pós-doc fazia parte do projeto da Conceição, foi o que fez eu vir morar aqui em São Paulo. Trabalhar com a Conceição foi uma honra, algo muito bonito, muito honroso. Mas antes eu não conhecia a Conceição. Em 2019 eu estava andando por Paraty — foi a primeira vez que eu estive em Paraty — e aí eu tive uma situação de uma somatização, de um problema de pele, que mais tarde eu fui descobrir que era uma doença que não tem cura. Uma coisa meio puxada, mas que na época eu não sabia. E aí, aconteceu que meu corpo somatizou, meu corpo chorou.
E aí a Conceição veio falar comigo: “minha filha, você escreve?” Eu tinha perdido uma avó recentemente e veio a Conceição com aquele canto da sereia dela perguntar se eu escrevia. Eu brinco com ela, eu falei: “mas rapaz, você fala isso pra todo mundo”. Porque eu peguei ela no flagra, depois que eu me tornei amiga dela, ela falando o mesmo que falou pra mim, mas na época eu me senti muito especial e eu falei: “nossa, a Conceição falou pra eu escrever, então vou ouvir a Tati e vou ouvir a Conceição. Vou escrever esse livro de poesia”. Mas depois eu ouvi que a Conceição fala isso pra todo mundo e aí eu, bom…
BB:
Xaveco bom.
CM:
O xaveco bom que às vezes dá certo, e deu certo no meu caso, porque eu botei no mundo. Bruna, eu coloquei esse livro no mundo e sem muita pretensão, foi um livro experimental, sentimental. Eu lembro que eu fiquei com muita vergonha de lidar, mas eu saía por aí com o meu livro cartonero. Foi um livro que eu costurei, todos eles. É um livro que tinha uma relação muito grande com as mãos, com o bordado.
Eu queria, com o gesto de fazer o livro, homenagear todas as mulheres, inclusive essa avó que fez a passagem, e homenagear essas mulheres de mãos na terra. Minha avó, minhas tias, minha mãe, são mulheres que fizeram muitas coisas manuais, então tive essa alegria das minhas antepassadas terem essas mãos para fazer tanta gente comer, mãos para ajudar muita gente chegar ao mundo, mãos para ajudar a escrever, a costurar roupa, a costurar tanta coisa. Então, eu tive a oportunidade de ser de uma geração que pôde acessar os estudos e também costurar meu primeiro livro foi um gesto de agradecer por tudo, pela força da palavra.
BB:
Você falou da música “Maria, Maria” e você falou da sua falange. Muito bem acompanhada [por] Tatiana Nascimento, Lívia Natália, que foi da sua banca do doutorado na UNB, que é Movimentos e (re)mapeamentos de mulheres negras na literatura brasileira contemporânea, é orientada pela Regina [Dalcastagnè]. Essa dissertação vai virar livro?
CM:
Eu desejo que essa tese de doutorado se torne um livro. Ela tem um quê ensaístico, poético, muitas linguagens. Eu lembro que uma professora falou que parecia um vendaval, e de alguma forma é. É um trabalho que convoca as pessoas a fazer o caminho de levar água pra casa, a epistemologia que eu utilizo é a epistemologia criada por uma mais velha que era como ela fazia ter água dentro de casa.
Então, tinha uma preparação, cada criança tinha seu seu recipiente de acordo com sua idade e com seu tamanho, os adultos levavam também seus baldes, aí fazia-se caminhada até o açude — ou o tanque de terra, como chamam no sertão — e nesse caminho você vai observando coisas, você deixa um punhado de folhas para a vizinha que está com um quebrante, você vê pessoas, você cumprimenta, aí você chega no açude, pega água, tem aquele limo, tem aquelas gotas que ficam, tem alguém que cai no caminho, alguém que ajuda a levantar, tem uma goiaba que você pega. E esse caminho vai se fazendo assim como o conhecimento.
E a gente vai caminhando, vendo coisas, pegando essas coisas, trazendo, algumas coisas vão ficando de fora. E aí você põe esse recipiente de água, você pega essa água e bota no filtro de barro. E o filtro de barro ensina essa arte da espera, um tempo espiral. A professora Leda Maria Martins vai falar disso de um jeito muito bonito e sofisticado. E essa arte da espera é quando a gente pode filtrar o que, de fato, a gente vai beber. E eu acho que o conhecimento é isso.
Nem tudo que a gente vai colhendo e pegando no caminho fica. Mas ficam marcas também, dessa caminhada, desse movimento que a gente faz. Então eu usei um pouco dessa caminhada como uma epistemologia de pensar como a gente carrega os conhecimentos, como a gente vai trançando esses conhecimentos ao longo da vida, a partir de uma caminhada, a partir da estrada, a partir desse filtro de barro, que a gente prepara para beber essa água. Então, tem um caminho que eu gostaria muito de partilhar em uma publicação. Talvez algo mais ensaístico, poético mesmo, porque não tem para onde correr.
BB:
Então, entre o seu primeiro livro, cartonero, seu mestrado, seu doutorado, você publicou em 2022 um livro de contos chamado Planta oração, pela editora Nós, que foi finalista do Jabuti. Lendo o Nódoa, eu me senti um pouco recebida de volta no Planta oração, consigo ver um pouco do Planta oração germinado no Nódoa. Como foi essa experiência da passagem do conto para o romance?
CM:
Quando eu escrevi Planta oração eu tinha muitos outros contos que acabaram não entrando [no livro]. E um desses contos era “Cajueiro”, que acabou sendo extenso e contava, narrava, um pouco desse lugar que se chama Cajueiro. E aí eu guardei. Eu falei: “bom, vou deixar isso aqui, talvez em algum momento eu retome”. Aí eu tenho pensado que Nódoa é um romance sobre deslocamentos e que foi escrito em deslocamento. Eu acho que tem uma curiosidade desse livro, que eu fui escrevendo ele em várias viagens que eu fui fazendo. Eu não tive aquela oportunidade de escrevê-lo no escritório, na minha mesinha, como eu gosto às vezes de produzir.
Então, foi um livro escrito no ônibus, no aeroporto, em várias mesas, em várias pousadas, em condições… em barco, coisas bem inusitadas também. E, de alguma maneira, tem essa jornada pra esse interior, né? Um dia, numa viagem, eu saí de Matinha, no interior do Maranhão, fui para São Luís, [e] de ônibus até o Piauí, pro interiorzão do Piauí.
E, nesse ônibus, veio a voz da primeira personagem, a voz da Raimunda. Eu não sabia ainda que era a Raimunda, a Mundinha. Então eu comecei a escrever nesse caderno, entende? Eu fui escrevendo e falei: “cara, que viagem é essa?”. E aí continuei escrevendo. Depois vieram essas outras vozes, a voz da Regina, da Lurdinha, dona América, e mais tarde, da Eulália. E, bom, tem uns segredos que depois eu posso te contar.
BB:
Eu tô até com medo do que que eu vou perguntar sobre o livro para não dar spoiler, não quero dar spoiler. Todas as “Marias, Marias” estão no Nódoa também, hein?
CM:
Exatamente.
BB:
Dona América, abaixo de Gracinha, é quem é a cabeça do clã. Temos essas mulheres de passagem, de passagem umas pelas outras e pelas cidades, por Cajueiro, por São Paulo, Violeta e Eulália. Você escreveu ao longo de quanto tempo?
CM:
Olha, eu escrevi ao longo de dois anos, mais ou menos. De forma consciente foram dois anos, aproximadamente. Eu fui escrevendo esses cadernos dessas personagens, fui experimentando, é um livro que tem uma poética muito presente, mas também é um livro que essas personagens necessitaram falar mais, conviver mais — isso vem da experiência de escrever um romance —, eu precisava trazer elementos também que são mais trabalhados na narrativa.
E isso é algo que… ah, eu não tinha uma querência de que o leitor tivesse que montar um quebra-cabeça, mas que ele pudesse habitar e observar essa família. Porque as famílias, elas nem sempre se apresentam de forma cronológica. Então, sei lá, eu vou falar do meu pai pra você, mas daí vai aparecer um mais novo, vai aparecer um mais velho e vai aparecer alguém que não é tão consanguíneo assim, mas é parente e essas coisas vão se entrelaçando. Então, eu queria também possibilitar uma experiência que tivesse essa estrutura, essa estrutura que lida com a memória, mas também lida com essa invenção.
Eu fiquei pensando muito também no que seria essa materialidade da palavra, como um artista utiliza essa materialidade da palavra, como é que conta a história dessas mulheres? Quais são os elementos que a gente pode utilizar? Então, a carta, o caderno, talvez uma foto, sei lá. E aí eu fiquei pensando em como trazer essas vozes, como permitir que alguém como a dona América, que seria essa mulher que, talvez, está ali no topo, junto com a Gracinha, como trazer essa mulher que provavelmente alguém conta a história dela, né?
É uma mulher que, muitas vezes, é narrada em terceira pessoa. A vida dela, provavelmente, é contada em terceira pessoa. [Ela] é alguém muito silencioso, que não fala muito. Então, eu quis trazer e aproximar essas gerações utilizando esses recursos materiais da própria língua. Então foi um trabalho, para mim, muito desafiador, de trazer e de conectar esses nós todos, observar essa grandiosidade da palavra. Um dia, no aeroporto… eu tinha um outro título pra esse livro, né?
BB:
Que era o “Nó do nariz”?
CM:
É isso, que tinha uma conexão com o nó do nariz por causa do próprio movimento ali da costura.
BB:
Isso eu queria saber.
CM:
Pronto.
BB:
Sobre o nó do nariz no saco do cadáver… Mas, para as pessoas que estão ouvindo, tem outra coisa que eu quero saber também. Eu quero saber várias, mas vamos começando: o livro se passa nos anos 60, pelo menos a maior parte dele. Logo no começo, você coleta notícias de jornal sobre pessoas que foram enterradas vivas, e isso para mim é a grande imagem do desespero. A gente cresce ouvindo histórias de “ah, fulano foi enterrado vivo”.
E aí você abre o livro pra contar a história da Regina, que foi enterrada viva, a partir do jornal mais uma vez. O nó no nariz junto com a nódoa são os principais símbolos do seu livro e eu imaginei muitas coisas lendo o seu livro, foi muito bom esse exercício de imaginação, porque até os laços familiares se multiplicam. Então, as mulheres, elas são mães de todas as mulheres, irmãs de todas as mulheres, amantes de algumas mulheres, mas o nó no nariz minha imaginação não alcançou.
CM:
Vou te contar como é que surgiu isso, esse lance do nó no nariz. Tive um parente que teve essa condição de catalepsia e isso sempre foi algo que me intrigou, porque… acontece um acidente com ele e o declaram como morto, depois de dias no necrotério ele acorda e vive mais cinquenta anos tranquilamente. E, um dia, eu estou no velório desse parente materno e um primo falou assim: “será que ele vai ressuscitar de novo?” E eu falei: “meu Deus, como assim, cara?”.
Essa coisa do velório no interior é algo muito sério, a gente tem uma relação com a morte muito próxima, porque os velórios acontecem dentro de casa, na sala, a gente participa dos ritos, a gente ajuda a carregar, vestir a pessoa falecida. Não é algo que a gente terceirizava. A questão do nó no nariz é que, nas zonas rurais, por termos uma relação mais de escassez, as pessoas costuravam mortalhas, costuravam esses panos, ao invés de ter um caixão, por exemplo. E tinha uma história que se deixava um nó perto do nariz, porque se por um acaso essa pessoa acordasse, ela tinha condições — isso num imaginário de quem fazia essas costuras — de que a própria pessoa poderia se salvar e respirar.
Então, esse nó no nariz era algo muito requerido. Porque vai que a pessoa acorda, né? Então eu fui colhendo, durante o período de pesquisa, literaturas médicas sobre esses casos e vi que tinham muitas pessoas obcecadas também por isso, não era somente eu que era obcecada por essas quase-mortes. Então todos esses casos que eu coloco no início do livro — eu mudo a cidade, mudo uma referência ou outra pra também não expor algo muito do factual — são casos que aconteceram, pessoas que acordaram pedindo uma bebida, pessoas que acordaram no meio do sepultamento, pessoas que acordaram no necrotério, no carro. E até casos de pessoas que, quando foram exumadas, encontraram vestígios de que aquela pessoa tentou sair, com madeira nas unhas, ou [em] que a pessoa estava virada.
No livro, eu tenho essa personagem que tem essa condição [de catalepsia]. E aí eu fiquei pensando: o que acontece com uma pessoa que passa por um trauma como esse, com uma história como essa? E o que acontece com uma pessoa que passa por um trauma como esse, sendo que ela tinha um percurso para fazer? Quando essa pessoa, de repente, não tem acessos, não sabe direito pra onde tá indo, não tem acesso, não tem recursos básicos, né? Então, eu queria pensar como seria isso. E pensando também se nada disso tivesse acontecido. Aí, o leitor que vai… vocês vão me dizer o que é que vocês acham que aconteceu.
BB:
Calila, você sabe qual é o máximo de tempo que a pessoa demora a despertar?
CM:
Voltar à vida? Dentro da pesquisa que eu fiz tinha um caso de dois meses. Assustador. Mas, geralmente, três dias, dois dias, algumas horas. Então, acho que o velório tem uma importância para além de tudo. Hoje em dia, não sei, mas antes se usava menos produtos tóxicos para poder fazer todo aquele processo de arrumar a pessoa falecida. Recentemente eu fui em Paris e aí eu falei: “ah, eu quero ir no Louvre ver aquela pessoa mumificada”. E eu fiquei muito assustada com aquilo no museu, uma pessoa no museu, mumificada. E fiquei pensando como é tão bem feito aquilo. E, ao mesmo tempo, fiquei também muito tocada pelo processo da minha escrita dessa história. Muitas coisas aconteceram, eu até desmaiei.
BB:
Você desmaiou? Como?
CM:
Um dia, andando com algumas amigas, a gente saiu e eu simplesmente apaguei. E eu tava nesse processo de escrita, né? Aí todo mundo ficou já desesperado, porque.. “nossa, ela está escrevendo sobre essas histórias e está incorporando”. E aí, quando eu acordei, depois de minutos, entrei na brincadeira e o povo ficou desesperado, né? Ainda mais como eu tenho esse parente que teve essa condição.
BB:
Calila, o diário da Eulália é um diário que você encontrou ou é um diário que você escreveu?
CM:
Olha, o da Eulália é algo que eu encontrei e que eu escrevi.
BB:
Eu sabia! É muito impressionante o trabalho que você faz entre a narrativa e os diários, porque são vozes muito distintas. Eu li várias vezes os diários, alguns trechos eu li em voz alta, e fiquei pensando o que veio de dentro da narrativa e o que entrou na narrativa. Não tem como saber e não faz diferença, mas isso saltou e eu pensei como que a Calila colheu esse diário. De onde vem esse diário? Especificamente o da Eulália.
CM:
Pois é, eu encontrei e eu escrevi. Eu fiquei pensando depois [sobre] quando eu encontrei a palavra “nódoa”, né? Eu tava no aeroporto, voo cancelado, eu tava em Recife em um sábado à noite. Eu falei: “meu Deus, eu podia estar tomando uma cervejinha, tô aqui no aeroporto presa, né?” Aí eu abri o computador, foi o que me restou naquele momento, fui ler algumas coisas, e eu comecei a fazer uma pesquisa sobre as palavras. Daqui a pouco eu falei… veio um insight da palavra “nódoa”, aí eu anotei. Eu já queria falar com outras pessoas, eu ensaiei mandar uma mensagem — e já eram quase onze da noite, mas eu queria dividir com alguns amigos: “achei, achei o título do meu livro!”
Aí eu me segurei e fiquei pensando nisso. E eu tinha certeza que era Nódoa quando eu pesquisei, eu digitei “nódua”, com “u”, porque a gente fala assim, né? No sertão fala “nóda”, “nódia”, então é uma palavra que tem uma oralidade múltipla. Então eu falei: “é isso que eu quero, uma palavra que tem uma sonoridade múltipla.”
Depois eu fui ver o tanto de palavras que surgem dentro de “nódoa” e que se correlacionam com o livro, e eu não construí o título pensando nisso. Esses anagramas, essas coisas, não foi algo que me ocorreu. Mas quando eu vi isso, pesquisando a palavra, eu fiquei muito feliz que dentro de “nódoa” tem “nó”, “dona”, “onda”, “doa”, tem várias palavras dentro de “nódoa” e eu sinto que são palavras que contam o livro em alguma medida. Eu acho que isso tem muito a ver com essa conexão do que eu estou tentando elaborar a partir dessas personagens. Não sei se eu te respondi, eu te enrolei, né?
BB:
Não. Você sabe que “nódoa” foi uma das primeiras palavras sérias e enigmáticas que eu aprendi? Junto com “vinco”. Eu acho que “nódoa” pinta na cabeça de quem tem intimidade com caju. Porque se você cresce comendo caju, você aprende logo o que é “nódoa” e o que é “cica”. Eu não sei se você também fala “cica”, mas no Rio a gente falava. A minha avó é do interior do Espírito Santo e tinha um cajueiro na casa dela, ela também mandou fazer uma mortalha, então ela foi a minha conexão com tudo que não existe mais. Ela me ensinou “nódoa” e me ensinou “cica”, que é aquele amarrado que fica na boca depois de comer certas coisas, tipo caju. Parece que sua boca tá com um nó mesmo.
CM:
A gente não chama de cica, a gente chama de… ah, eu tenho que lembrar agora, me senti desafiada, mas tem um outro nome que a gente fala na Bahia, dessa coisa que fica do caju, que é a nódoa de dentro, né? É a nódoa no corpo. É muito doido isso.
BB:
Exato. Que mancha a pele, eu perdi muitas blusas pros cajus, não me arrependo, mas eles são… E não à toa é um personagem do seu livro também, né? Um dos maiores personagens, o cajueiro.
CM:
Nessas viagens pelo Nordeste, eu fui lá no Rio Grande do Norte ver o maior cajueiro do mundo. E ver aquele cajueiro, todas aquelas ondas de caule, de tronco, ver como aquela árvore convoca a gente a passar por baixo dela, por cima, se envolver com ela… e eu gosto muito dessa imagem, foi uma imagem muito inspiradora, porque é uma árvore que traz consigo um pseudofruto e a gente come ele, e come também a castanha, que é o fruto.
E eu gosto do que o caju significa no sertão: essa planta que acolhe, que consegue brotar apesar da aridez, que consegue sobreviver apesar de tudo, apesar desse sol, apesar da falta de água. Eu queria trazer o cajueiro para o centro. E eu estava lembrando aqui do Antônio Bispo dos Santos. Ele trabalha com uma ideia de biointeração, que é observar a natureza e os elementos e os seres sem ter uma hierarquia necessariamente. Nós tendemos a hierarquizar esse ser humano: “sou mais suficiente que todos os outros”.
E eu acho que o Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, ele convoca [a] olharmos para a natureza de uma maneira mais aproximada, ver o que ela pode nos ensinar e não só numa ideia de ensinar, mas numa ideia de fazer parte, de se integrar, de estar junto, de trocar. Às vezes, a gente quer só a sombra da árvore, só o fruto da árvore, mas a gente não quer lidar com a praga ou com a planta que não nasce fruto, e por aí vai. Então, acho que a planta é uma sabedoria, um conhecimento que ajuda a gente pensar na continuidade e também na finitude. A gente tem muita dificuldade de olhar pra finitude das coisas, a finitude, a boa morte, e [de] olhar pra vida entendendo que a morte é a certeza que a gente tem, mas sem receio de falar da morte.
Parece que as pessoas têm um certo pudor, como se falar de morte fosse contagioso. E se você fala dela, necessariamente, a morte encosta em você. E eu acho que a gente não se prepara pra finitude das coisas. No Planta oração tem um conto que poucas pessoas leem, que é o “Mandacaru”. E no “Mandacaru” eu falo que tem um porquê de utilizar essas plantas. O mandacaru é uma planta que a flor dura um único dia, uma única noite. E ela é linda, e ela é cheirosa, e para você ver a flor de mandacaru você tem que caminhar na noite. Então, ela ainda é uma planta que convoca a gente a sair de casa à noite, [a] observar essa outra luz, observar as sombras, observar essas outras conexões. E tem uma beleza no mandacaru, tem uma boniteza nessa vida que é rápida e que não deixa de ser vida, e não deixa de ser memorável, e não deixa de ser uma celebração.
Então, acho que tem isso nas plantas, nesse universo que eu sou tão obcecada, que eu gosto tanto e que não me falta, mesmo morando hoje em um lugar extremamente urbano. Eu continuo sendo a menina do interior, dos pés na terra e que tá sempre observando esses fundamentos, essa poética da natureza, que tá ensinando a gente o tempo todo a lidar com a nossa pequenez no mundo, sabe? Com esse lugar que a gente tem e que a gente muitas vezes se passa, né? Se passa muito.
BB:
Eu acho que esse saborear da vida, o destemor da morte, está claro na sua poética, nas suas teses, nos seus livros. No Nódoa fica mais basilar ainda. Mas eu vejo em tudo que você escreve esse grande saborear de que você está falando. Essa calma, essa sabedoria e esse respeito com o mistério, é muito bonito de ver. Eu fico pensando, Calila, que você faz tantas coisas enquanto você escreve. E enquanto a gente lê o que você escreve se percebe que existem muitos movimentos acontecendo ali. Não digo nem pra além da escrita, mas talvez pra além também. Eu fiquei me perguntando: você gosta de escrever?
CM:
Eu gosto, gosto muito de escrever. Eu não consigo pensar num modo de vida sem essa escrita, sem a escuta, sem a observação, sem a leitura. Eu fico pensando também, Bruna, num desafio que eu tenho comigo e talvez seja o maior, que é também alacridade, sabe? Eu sou uma pessoa que gosto de saborear, como você trouxe também, e gosto também de ser uma pessoa alegre, de ser uma pessoa que deseja. E eu trago isso muito para o meu trabalho.
Acho que fica muito óbvio no Nódoa, no Planta oração, nos meus trabalhos, minha tese. A gente vai lidar com temas difíceis que eu vou elaborando, que eu vou inserindo nesses trabalhos, mas também eu gosto de pensar na ternura, na amizade, no desejo, nessas famílias que se unem, que se distanciam, nessas raízes que são subterrâneas, mas também são raízes que flutuam como as algas marinhas, né? Raízes que não precisam estar embaixo da terra pra se conectar com o mundo, com os outros.
Gosto de pensar na maneira rasteira do cajueiro, nessa ginga que essa árvore convoca a gente a observar. Esse humor… Eu acho que tem um humor que é muito forte, essa risada solta, mesmo no caos. E também sinto muita falta, às vezes, que a gente… Nós somos lidas pelo lugar da luta, pelo lugar de uma dor. Mas eu quero, em alguma medida, que as pessoas leiam e vejam também essa alacridade, o desejo de continuidade, o desejo de desejar, que as pessoas consigam ver isso, essa doçura, mas também essa trava, esses outros sabores, que as pessoas possam…
BB:
Travo! É “travo” a palavra, não é não?
CM:
Não, ainda não é “travo”, mas eu vou lembrar, eu vou lembrar. [Risadas] Não é possível que eu não… Tem um nome que mainha fala, mas eu acho que tem essa coisa do travoso mesmo, né? Dessa coisa que é mais adstringentezinha do caju. Eu não lembro, mas eu acho que é travo mesmo. Poxa, Bruna, agora eu vou ter que pesquisar isso.
BB:
A gente não vai acabar esse episódio sem a palavra de mainha.
CM:
Poxa, e agora? Mas eu acho que é “travo”.
BB:
Eu perguntei se você gosta de escrever porque agora eu estou perguntando isso pra todas as pessoas que escrevem. Eu fiquei com a sensação de que você gosta de escrever porque lendo o que você escreve eu penso: “a Calila gosta de escrever, tem aí um prazer e algo que salta”. Mas às vezes eu me engano, eu leio um livro e falo: “nossa, essa pessoa aqui adora escrever, ela sabe desfrutar”. E eu pergunto e a pessoa nega, diz que não gosta de escrever.
CM:
Eu gosto, eu tenho um tesão na palavra, tenho um tesão nesse movimento de escrita. Acho que a escrita, ela me convoca… E eu tô falando de convocar o tempo todo, né, menina? [Risadas] Hoje eu tô com essa palavra na boca. Mas é isso, eu acho que ela me puxa pra um desafio. Então, quando eu escrevi Nódoa, eu escrevi nesse movimento. E quando eu escrevi Planta oração, eu escrevi o livro todo em casa, todo em casa. Era na pandemia, eu tava com saudade das plantas, eu tava com saudade do sertão, do Recôncavo, do sítio, então acho que foi um livro também que me levou pra esse cheiro de mato. Então acho que a literatura, a escrita, têm essa possibilidade de, enfim, nos colocar em vários desafios.
Eu fico pensando também nessa capa, a própria capa de Nódoa, que tem uma história dessa artista plástica que é uma amiga querida, que se chama Cinthia Marcelle — ela fez especialmente essa obra pra Nódoa. E essas marcas desse carimbo, né? Algumas mais fortes, outras mais fracas, assim como a vida, que tem marcas que são extremamente fortes, ficam, né, pra vida inteira. Tem marcas que ficam mais fraquinhas, assim, durante essa vida da gente, ficam mais clarinhas, mas estão ali, presentes. Fico pensando em Nódoa e penso sobre o impossível, porque hoje a gente ainda lida com desafios de viajar.
Quais são os corpos no mundo? Quem pode migrar? Quem pode se deslocar? Quem são as pessoas que podem, em segurança, fazer um movimento de viagem, de descoberta, de diálogo com o mundo? Como fazer isso em segurança, em momentos que a gente está lidando com tantas dificuldades de locomoção? Como isso acontece dentro do próprio Brasil, nos anos 60 e hoje? Será que alguma coisa mudou? Será que a gente ainda lida com impossíveis? Eu tô aqui, né?
Eu tô aqui, mas às vezes eu penso que a minha estadia na cidade de São Paulo, sendo do lugar de onde eu vim, às vezes parece uma coisa meio impossível, né? Uma vivência de um impossível que se torna possível. E eu queria pensar nisso, eu queria ainda pensar em tantas pessoas que lidam com esse fantástico dessas vidas na cidade grande e precisa aprender essas dicções, essas outras gramáticas. Tem várias autoras que vão falar disso de um jeito bem bonito mas eu queria pensar nessa não permanência, o que significa permanecer? Também, como construir esse pertencimento sem continuar partindo, sem precisar partir. É um dilema, né?
BB:
É um dilema. Eu acho que, quando a gente sai do nosso lugar de origem, o destino sempre nos confunde. O que passa a ser o destino? Ele, ao mesmo tempo, é múltiplo e, ao mesmo tempo, como se a ideia não é voltar, pelo menos definitivamente, ou não agora, ou nunca voltar para a origem, eu acho que sempre vai acontecer essa flutuação, essa dúvida, né? Então, eu acho que é um dilema mesmo. A vida se torna um dilema.
CM:
Totalmente, porque tem a questão da língua permanecer na família, o tanto de coisa que a gente vai perdendo e que a gente vai encontrando na mudança. Acho que a língua é uma coisa muito curiosa, porque nosso sotaque ele vai sendo modificado, a maneira que a gente fala, as pausas… Eu vou pra Bahia, e sempre que eu vou pra Bahia, percebo como as pessoas falam meu nome, que é bem diferente de como as pessoas falam aqui. Tem uma ênfase Calila. Tem um A. É um nome assim… Uma paroxítona bem marcada.
BB:
Perde o canto.
CM:
É diferente no jeito de chamar. Aí eu percebo também essa permanência das amizades. Eu tenho amigos de mais de vinte anos, e como esses amigos se fincam… Eu acho que Nódoa também traz um pouco disso, das amizades que se vão com a mudança, que ficam para trás, mas ficam na memória, como alguém que importa, que muitas vezes foi a figura que deixou marcado de caneta o seu nome, o nome dos que importam, e essa pessoa você nunca mais vai encontrar, alguém que escreve uma carta pra dar notícias à sua família e você nem lembra o nome da portadora daquela carta. Então acho que tem isso também, de permanecer na cidade, permanecer no bairro, de deixar uma memória viva. Como permanecer num corpo?
BB:
É aprender a perder e aprender a ganhar, todo dia.
CM:
Eu estava vendo aquela poesia da Elizabeth Bishop, “a arte de perder não é nenhum mistério”. Bom, eu vou pensar a respeito disso, né? Porque eu acho que a arte de perder, arte de permanecer, ela tem mistérios. E isso é algo que talvez a gente nunca vai desvendar, que a gente nunca vai conseguir. A gente vai tentar. E a literatura está nos permitindo, permitindo eu escrever Nódoa, permitindo a gente trilhar com essas histórias de vida, com histórias do impossível que se torna possível, com histórias também que… Eu viajei, Bruna, eu precisei viajar pra conversar com o rio. Isso é muito… Eu não consigo explicar isso pra ninguém. Por que eu sonhei que eu tinha que viajar? Que eu tinha que ir em Bom Jesus da Lapa?
BB:
Não explica.
CM:
Eu fui quatro vezes ver o rio São Francisco. As quatro vezes que o rio aparece no livro, eu também precisei ir lá, trocar essa ideia, estar perto do rio, entender a textura, o cheiro, ir lá na gruta, enfim. E isso é algo que me marca muito, esse movimento que o livro é capaz de fazer, e essas outras linguagens que têm muita música, têm muito cheiro, têm comida… Eu adoro música, eu sei que você também gosta, aí tem uns sambas. Acho que tem um mistério mesmo, tem a magia, tem o mistério, tem a palavra e essas narrativas que compõem esse livro, esse presente.
BB:
Quando você irá festejá-lo? O lançamento vai acontecer em breve, né?
CM:
Vai acontecer em breve. Vamos fazer lançamento em algumas cidades que já foram minhas casas, vamos fazer lançamento em Brasília, onde morei por seis anos, um lugar que me abraçou, tenho muitos amigos em Brasília, queridos, e vai ser bem bonito lá. A gente tá armando pra fazer lá na [livraria] Circulares no dia 31 de agosto. Vai ter em Paracatu, vai ter na Bahia, vai ter em vários lugares.
BB:
É uma turnê.
CM:
É uma turnê, um movimento. Vai ser massa. Vai ter no Rio também, na sua terra, e eu vou lá em setembro.
BB:
Calila, eu te desejo todo sucesso e alegria da escrita, que você publique muitos livros nos próximos anos e que a gente possa conversar mais! Sou muito sua admiradora.
CM:
Eu também, a admiração é mútua. Fico muito agradecida pela possibilidade de conversar com você, um papo gostoso, leve, fiquei muito à vontade. Muito convocada! [Risadas] E que nós possamos nos ver e brincar por aí, sorrir e valorizar esses momentos de vida, de continuidade, de poesia, de romance de muitas palavras, de encontros.
BB:
Vamos nessa!
CM:
Vamos nessa, Bruna. Obrigada.
BB:
Obrigada, Calila. Um beijo.
PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o nosso novo quadro do 451 MHz, o Livro Marcador. Nele, a gente convida grandes autores e grandes leitores em geral para compartilhar qual livro marcou a vida deles. Pode ser a leitura que despertou para a escrita, o livro mais emocionante que já leram, aquele que eles admiram tanto que gostariam de ter escrito, um que acompanhou algum momento importante da vida, enfim, um livro inesquecível.
No episódio de hoje, quem conta para a gente qual foi o seu livro marcador é o escritor e sacerdote das religiões afro-brasileiras, João Tokunbó Carneiro. Ele é autor de Café da manhã com os orixás: guia de reflexões para cada dia do ano, que foi publicado pela editora Palace em 2025.
A gente falou com o João momentos depois da participação dele n’A Feira do Livro 2026, lá na praça Charles Miller, no Pacaembu, aqui em São Paulo. Então vamos ouvir o João.
João Tokunbó Carneiro:
Olá, aqui é o João Tokunbó Carneiro. com muita alegria estou falando aqui para o podcast um livro que me marcou. Eu vou trazer um livro que acabou de sair, chamado Orixás: os deuses que habitam em nós, do Reginaldo Prandi. De uma maneira muito poética, muito bonita, de sentir e pensar o orixá a partir do que a alma fala e não do que os acadêmicos dizem. Então é um texto que marcou muito, li recentemente e realmente criou um paradigma novo na minha cabeça, no meu coração, relacionado a como sentir o orixá pela literatura, pelo poema.
Siga o 451 MHz e ouça no seu aplicativo favorito:Apple Podcasts, Spotify, Deezer, Amazon Music, Castbox, YouTube. Saiba mais sobre este episódio e confira outras entrevistas sobre grandes livros e grandes autores aqui.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fábio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Para falar com a equipe: [email protected]

